Estudantes indígenas querem uma universidade que valorize diversidade, coletividade e espiritualidade

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26 Fevereiro 2021

“A universidade ainda não está preparada para nossa presença”, para a diversidade e a aceitação dos saberes indígenas nos currículos e no cotidiano, opina Leonardo Werá Tupã, liderança Guarani Mbya graduado em Licenciatura Intercultural Indígena pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Leonardo é um@ d@s sete estudantes ou egressos de curso superior ouvidos pelo Conselho de Missão entre Povos Indígenas (Comin) e Fundação Luterana de Diaconia (FLD) para o caderno da Semana dos Povos Indígenas 2021, lançado na quarta-feira, 24. O tema do caderno é “Universidade: território indígena!

A reportagem é de Edelberto Behs, jornalista.

Card de divulgação do Lançamento do Caderno da Semana dos Povos Indígenas 2021 (Foto: CEBI)

Segundo Leonardo, “a universidade poderia ter no conhecimento indígena um grande aliado, pois o conhecimento indígena já muito contribuiu. É a universidade que está atrasada”. Ele sugere: “Se pensar em unir os conhecimentos acadêmicos e os saberes indígenas, poderíamos abrir novos horizontes, até na questão da evolução humana, porque a gente não evolui sozinho”.

Concorda com essa opinião a acadêmica de Serviço Social na Universidade Federal do Paraná, Nyg Kuita, Kaingang, integrante da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). “Não existe ainda uma interculturalidade entre a universidade e os povos indígenas, inclusive porque o conhecimento branco sempre é sobreposto ao nosso”, afirma.

O presidente da Academia dos Saberes Indígenas do Brasil (ASI), o Bororo Márcio Paromeriri, de Rondonópolis (MT), lamenta que “a observação de temáticas educativas construídas na ótica colonialista simplesmente prenderam os indivíduos e os povos indígenas no passado. Os indígenas e suas ações estão sempre no passado, como se já não existissem mais povos indígenas e seus indivíduos no Brasil”.

A universidade, entende Márcio, pode vir a ser uma possibilidade concreta de protagonismo e autoria indígena, um lugar que colabore na reescrita da história, trazendo os pontos de vista, as ciências e os saberes indígenas ao mundo acadêmico.

Para os acadêmicos ouvidos pelo Comin, frequentar a universidade é uma atitude de resistência, muitas vezes difícil de enfrentar pela discriminação e estereotipação que sofrem nesses espaços. O ingresso dos primeiros estudantes indígenas em universidade aconteceu a partir dos anos 1970, muito baseada em trajetórias individuais ou com apoio de organizações não-governamentais e religiosas. O Censo do Ensino Superior no Brasil, de 2018, registrou a matrícula de 57.706 indígenas em cursos superiores, d@s quais 42.256 frequentavam cursos em instituições privadas.

“A universidade precisa compreender que nós, estudantes indígenas, caminhamos o tempo todo em dois mundos. Como pessoa indígena contemporânea, a partir do meu nascimento, eu já sou obrigada a transitar entre dois mundos. E isso pra nós é um desafio, é difícil compreender esses dois mundos. A colonização foi tão ferrenha que adormeceu muitas coisas de nós, do nosso próprio mundo”, explica Nyg. “Eu preciso fazer esse caminho de volta, me compreender para daí poder compreender o mundo dos brancos”.

A dificuldade de se reconhecer como parte da universidade, segundo entendimento do Comin, é resultado de uma série de fatores, como o ocultamento das pessoas indígenas e da temática indígena nos currículos. A constatação parte das palavras de Alana Keline Costa Silva Manchineri, acadêmica de Biologia pela Universidade Federal do Acre, comunicadora indígena da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

– As disciplinas que falam de nós [indígenas], por exemplo, são optativas e só acontecem se há um determinado número de inscritos para ela. Então, essa universidade precisa ser pensada em outra estrutura”, afirma Alana.

Para além da ausência da temática indígena no currículo, é fala recorrente entre estudantes indígenas o despreparo da universidade para lidar com a diversidade. Leonardo destaca a dificuldade de praticar a espiritualidade e os ritos indígenas nos espaços universitários. Uma das propostas que apresentam é a oferta de casas do estudante indígena, que, além de possibilitarem uma moradia digna sem custos, também serviriam de espaço para que pudessem manter seus ritos e práticas espirituais.

Alana percebe a universidade como “um apêndice do corpo todo que é uma sociedade”, que pratica o distanciamento entre teoria e prática, fechada em si e virando as costas para as realidade. “Para além dos povos indígenas, esse modelo de universidade não serve para ninguém! As pessoas entrem na universidade e saem de lá robôs, saem de lá egoístas, egocentradas”, arrola. “Nós, então, às vezes nem sabemos lidar com isso tudo, pois somos menos teóricos e muito práticos. E dentro dessa prática, é inviável pensar em qualquer mínima possibilidade de não conversarmos com a espiritualidade”, agrega.

Por que, então, jovens indígenas se propõem a passar pelo processo de seleção para um curso superior? “O movimento indígena é uma engrenagem que me faz permanecer e continuar buscando estar na universidade, estar produzindo para que a gente tenha mais produções teóricas com o olhar indígena. Porque a universidade está cheia de estudos antropológicos de pessoas não indígenas sobre indígenas e, nesse sentido, estamos reescrevendo a história a partir da nossa ótica”, justifica Alana.

Depois, compreender como funciona a sociedade não indígena e poder agir sobre ela, a fim de propor política públicas e assessorar as lideranças e comunidades indígenas é um dos benefícios que a universidade pode proporcionar. Refletir sobre a presença indígena na universidade é também pensar sobre como ela chega aos espaços territoriais que, historicamente, sempre foram dos povos indígenas.

Universitári@s indígenas defendem o Bem Viver como a teoria de base para o ensino superior. “Não adianta ser indígena e não ser anticapitalista, não adianta ficarmos tapando o sol com a peneira para um mercado liberal que hoje fica lambendo nossas feridas para vender as nossas marcas! É na universidade que surgem mentes pensantes, o que vai para o mundo lá fora”, defende a escritora e pesquisadora indígena Aymara, Aline Ngrenhtabare Lopes, acadêmica do curso de Direito.

Para que isso seja colocado em prática, é preciso trazer lideranças e pessoas sábias dos povos indígenas para dentro da universidade, concedendo a elas a titulação de Doutores e Doutoras Honoris Causa, reconhecendo o saber que construíram no mundo e em suas vivências, propõe a escritora.

Guerreira, Nyg enfatiza: “Assim como nossos antepassados tiveram que engolir tudo o que a colonização foi enfiando, agora também os brancos vão ter que nos engolir nas universidades. Não iremos mais sair dali. A universidade, hoje, é para nós também um território indígena. Nosso corpo é nosso território e onde eu estiver será um território indígena”.

Ela arremata: “Se a universidade atual é baseada nos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade, a universidade que queremos precisa dar conta de mais três outros aspectos: diversidade, coletividade e espiritualidade!”

O caderno completo da Semana dos Povos Indígenas 2021 pode ser acessado aqui.

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