O valor dos arrepios. A dor nos torna humanos. Entrevista com Byung-Chul Han

Foto: Unsplash

22 Fevereiro 2021

Nascido em 1959 em Seul, Byung-Chul Han estudou Filosofia, Cultura alemã e Teologia em Freiburg e Munique e ensinou Filosofia e Estudos Culturais na Universität der Künste de Berlim. Autor celebrado pela grande imprensa ocidental, Han ficou conhecido por sua crítica à contemporaneidade, em particular ao neoliberalismo e à transformação digital. Em 2020, ele dedicou um livro ao tema do sofrimento que fala à geração da pandemia. Com o título Palliativgesellschaft. Schmerz heute ("A sociedade paliativa. A dor hoje"), o livro denuncia uma sociedade que se autodestrói ao tentar se transformar em "um oásis permanente de bem-estar que pode ser obtido por via médica".

 

La società senza dolore. 
Perché abbiamo bandito la sofferenza
dalle nostre vite

 

Em um texto que parecerá altamente questionável para muitos, Han propõe uma crítica fundamental da prioridade sanitária na emergência de pandemia e uma reavaliação igualmente fundamental da dor. O livro chega às livrarias pela Einaudi Stile libero com o título La società senza dolore (A sociedade sem dor) e o subtítulo Porque banimos o sofrimento de nossas vidas, enquanto a Nottetempo publica o anterior La scomparsa dei riti (O desaparecimento dos ritos). “La Lettura” faz uma entrevista virtual com o autor.

 

A entrevista com Byung-Chul Han é editada por Marco Ventura, publicada por La Lettura, 21-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

 

 

 

Eis a entrevista.

 

A sociedade seria dominada pela algofobia, "medo generalizado da dor". Somos "hipersensíveis" como a princesa na ervilha, você escreve, e tendemos a viver em "estado de anestesia permanente". Em que sentido, então, a nossa é uma sociedade sem dor ?

 

Não estou dizendo que vivemos em uma sociedade sem dor. Hoje temos até uma epidemia de dores crônicas. Eu digo que a dor tem uma dimensão social e que, portanto, qualquer crítica à sociedade tem que se confrontar com a dor. Em vez disso, hoje a dor é reduzida aos aspectos médicos e farmacológicos. E quando é colocada exclusivamente nas mãos da medicina, a gente não a entende mais.

 

Nesse sentido, você acusa o neoliberalismo.

 

Na sociedade neoliberal pós-moderna, as tensões psíquicas aumentam por meio da pressão por eficiência ou outras motivações, e isso pode levar à dor crônica. Comparei a autoexploração neoliberal a um servo que pega o chicote das mãos de seu senhor e se chicoteia para ser o senhor, aliás, para ser livre. Esse impulso neoliberal pela performance e a autoexploração deixa-nos doentes.

 

 

Nosso problema com a dor está ligado à solidão?

 

No livro, menciono o cuidado primário da cura em Viktor von Weizsäcker. Quando a irmãzinha vê seu irmãozinho sofrendo, ela conhece uma saída. Ela toca onde dói. O contato aplaca a dor. Hoje vivemos em uma sociedade atormentada por uma crescente solidão, sem contato ou dedicação humana. Distanciamento social! Eu me pergunto se a dor não é o grito do corpo que pede proximidade e dedicação, até mesmo amor. O cuidado primário de cura não pode ser substituído por um analgésico.

 

Você denuncia uma "sociedade paliativa" cúmplice de uma "ideologia do bem-estar permanente". Mas querer se livrar da dor, querer pelo menos limitar a dor, não é um objetivo legítimo?

 

Toda experiência intensa é dolorosa, mesmo o amor intenso. Hoje evitamos as intensidades por medo da dor. Até mesmo o amor hoje deve ser despotencializado em uma fórmula voltada para o consumo e o prazer. Qualquer percepção intensa é dolorosa. Dolorosamente belo não é uma contradição. Percebemos o mundo hoje através do smartphone, que torna tudo consumível e disponível e reduz tudo à dimensão da tela. Acredito que o smartphone é um analgésico digital.

 

 

No livro, você não fala da medicina paliativa.

 

Utilizo a expressão 'sociedade paliativa' em sentido metafórico, para designar uma sociedade que não consegue lidar com a dor. A sociedade paliativa nada tem a ver com medicina paliativa. De resto, insisto que proximidade, dedicação e contato são mais importantes do que os analgésicos. O setor paliativo de uma clínica não pode substituir a dedicação e o amor. A história que o paciente conta ao médico no início do tratamento norteia o processo de cura. Qual o médico que pode dizer de si mesmo que sabe ouvir? Hoje ouvimos cada vez menos. No meu livro L’espulsione dell’Altro (A expulsão do Outro, Nottetempo, 2017), dediquei um capítulo inteiro à arte da escuta. O capítulo começa com as palavras: ‘No futuro, talvez haja uma profissão chamada o ouvinte. Alguém que presta atenção no outro mediante pagamento. Você vai ao ouvinte, caso contrário não há ninguém disposto a escutar o outro’.

 

A pandemia desempenha um papel importante em seu livro.

 

Eu escrevi que a pandemia transforma a sociedade em uma quarentena na qual a vida enrijece-se como uma sobrevivência. A vida não é sobreviver. A pandemia aguça tendências sociais que já estão presentes. Entre elas está a histeria da saúde. Todas as forças vitais estão sendo usadas hoje para prolongar a vida. Mesmo na pandemia, não deveríamos reduzir a vida à sobrevivência. Apesar de tudo, devemos encontrar possibilidades para celebrar a vida: é importante, justamente na pandemia. Acho problemático que a virologia esteja em primeiro lugar hoje. Em vez disso, psicólogos, pedagogos, sociólogos, teólogos, filósofos e até artistas deveriam estar envolvidos nas decisões para combater a pandemia. Deveria se proceder a uma avaliação ampla dos bens que estão em jogo nos vários aspectos da vida, em vez de absolutizar a saúde e a sobrevivência, sacrificando a elas todo o resto.

 

 

Na pandemia, você escreve, "a fé foi sacrificada no altar da sobrevivência" e "a virologia desautoriza a teologia", e novamente "a saúde é elevada como uma nova divindade". Sem dor não há mais Deus?

 

Eu acredito que os seres humanos alcançam o auge da beleza quando oram. É por isso que gosto de ir às igrejas. Sem dor, não conseguirão orar. Pode ser que um dia vivamos em um mundo sem dor. O "novo mundo" do escritor Aldous Huxley não conhece a dor. Por se tratar de uma sociedade paliativa, o Estado distribui a droga denominada soma para aumentar a sensação de bem-estar. Mas uma vida sem dor não é humana. Por isso concluo meu livro com as palavras: ‘O homem se acaba para sobreviver. Talvez consiga alcançar a imortalidade, mas ao preço da vida’.

 

Em sua opinião, dor é "verdade", "vínculo", "diferença", "realidade".

 

Na introdução do livro coloco uma citação de Walter Benjamin: ‘A dor representa para o homem uma espécie de riacho inesgotável que leva ao mar. O prazer se apresenta onde quer que o homem se esforça em continuá-lo, é como um beco sem saída". Cada dor nos surpreende como uma corrente navegável que leva ao mar. A dor nos parece justamente como um beco sem saída, que em nenhum caso pode ser evitado. Meu livro chama a atenção para o fato de que a dor faz parte da vida humana. Onde as separações causam sofrimento, os laços anteriores se revelam como verdadeiros. Apenas a verdade dói. Se as separações não provocam dor, os laços não haviam sido verdadeiros.

 

Ao contrário da dor, "a digitalização é anestesia". Justamente sobre esse ponto, você diz, é que está a diferença entre pensamento e inteligência artificial. Nesse sentido, sua afirmação "nunca haverá algoritmos da dor" é muito interessante.

 

A primeira imagem do pensamento é o arrepio. Por isso, a inteligência artificial é estranha ao pensamento, porque nunca tem arrepios. Os arrepios são uma expressão de comoção e calafrio. A consciência que não provoca arrepios equivale a reduzir a objeto. É incapaz de experiência em sentido empático, o que em si é dor.

 

 

Uma vez destruída a "dimensão social da dor", em sua opinião sobra apenas uma "sociedade da sobrevivência" que, como a pandemia demonstraria, "será forçada a renunciar aos princípios liberais". Não há mais vida, apenas "não-morte". Não é pessimista demais?

 

Não sou pessimista. Pelo contrário: espero da vida mais do que sobrevivência. A sociedade dominada pela histeria de sobrevivência é uma sociedade de ‘não-mortos’. Costumo dizer: estamos muito vivos para morrer, muito mortos para viver. Quando nos preocupamos apenas com a saúde e a sobrevivência, nos assemelhamos ao vírus, um ser não-morto que se multiplica, ou seja, sobrevive, sem viver.

 

 

Mas, dessa forma, você corre o risco de cair na atitude oposta à algofobia, na glorificação da dor como caminho para uma espiritualidade superior.

 

Eu não glorifico a dor. Eu diria: a vida humana sem dor é incompleta. Dor e felicidade são, como diz Nietzsche, irmãos gêmeos, que crescem juntos ou permanecem pequenos juntos. Se a dor for inibida, a felicidade se acomoda em uma abafada sensação agradável.

 

Eu insisto. Parece ouvir-se o eco de um "dolorismo" muito problemática do ponto de vista ético.

 

A dor também faz parte da nossa relação com os outros. Um capítulo do meu livro é dedicado à ética da dor. Hoje costumamos falar sobre o desaparecimento da empatia. Eu me perguntava: de onde vem essa crescente perda de empatia? Por que somos cada vez menos receptivos aos outros? Acredito que hoje em nosso Ego tornamos o outro um objeto disponível, pronto para o consumo. O outro, como objeto, não sente dor.

 

 

Ao contrário, a pandemia nos coloca com força diante da dor.

 

A pandemia reforça o desaparecimento da empatia. O outro é agora um possível portador do vírus, do qual convém distanciar-se. A escuta, de que falava antes, pressupõe que eu me exponha ao outro. O aumento da sensibilidade para o outro, o poder de sofrimento com o outro, tem algo de doloroso. O amor como relação empática com o outro nos assalta e nos fere. O amor como consumo, por outro lado, não comporta dor. Sem dor, não temos acesso ao outro. É por isso que falo de dor para com o outro. Hoje perdemos a capacidade de perceber o outro em sua alteridade. E o outro, privado da sua alteridade, apenas se deixa consumir.

 

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