O Papa aos Focolares e sua nova presidente: “Cuidado com a autorreferencialidade, pode encobrir formas de abuso”

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09 Fevereiro 2021

Cuidado com a autorreferencialidade, causa do abuso de poder e muito mais; acautelai-vos também com aquela "desorientação natural" do "pós-fundadora", ainda que já se tenham passado 12 anos desde a morte de Chiara Lubich. Indicações precisas e concisas do Papa Francisco ao Movimento dos Focolares, recebido no dia 06/02 em audiência na Sala Paulo VI (muitos acompanharam em streaming), no encerramento da Assembleia Geral que nos últimos dias elegeu a nova presidente, Margaret Karram, 58, terceira depois de Lubich e depois de Maria Voce que dirigiu o Movimento, uma das realidades mais vivas da Igreja, por dois mandatos.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 06-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Árabe cristã, natural de Haifa, já responsável por cargos importantes entre os Focolares de Los Angeles e Jerusalém, Karram foi eleita no dia 31 de janeiro com mais de dois terços das preferências dos 359 representantes de todo o mundo. “No entanto, não gosto da palavra presidente”, disse na saudação ao Papa, afastando-se do texto escrito, “sinto-me neste momento filha da Igreja e quero estar a seu serviço e de todos".

Karram também lembrou sua participação no histórico encontro de paz pela Terra Santa em 8 de junho de 2014 nos Jardins do Vaticano com os presidentes Simon Peres e Abu Mazen. Francisco agradeceu por isso: “Eram tempos de promessa ... mas a promessa está sempre presente e devemos seguir em frente, levando sempre a Terra Santa no coração”.

O Pontífice agradeceu também à presidente em saída, Maria Voce (saudada com um caloroso abraço), pelo trabalho realizado nesses 12 anos. “Quando cheguei ao final da assembleia anterior, há seis anos - tinha sido eleita para o segundo mandato -, conhecendo a minha idade (eu já tinha 77 anos e tinha seis anos à frente do Movimento), o senhor me disse : ‘Vai conseguir?!’”, recordou Voce ao Papa no início da audiência. "Como podem ver, com a graça de Deus e amparado pelo seu amor, chegamos ao fim e conseguimos." “Obrigado Maria, foste muito competente e muito humana”, respondeu o Papa de improviso.

O trabalho certamente não foi fácil para Maria Voce, especialmente nos primeiros anos, quando ela teve que conduzir o Movimento na fase posterior à morte de Chiara Lubich, pela qual está em andamento a causa de beatificação. Uma fase que, como acontece com todos os movimentos ligados ao carisma de um fundador, ainda é difícil de concluir.

De fato, o Papa, no seu discurso dividido em três pontos, fala justamente de uma “pós-fundadora”: “12 anos depois de Chiara Lubich ter partido para o céu, vocês são chamados para superar a desorientação natural e também a redução numérica, para continuar a ser expressão viva do carisma de fundação”, afirma. “Ele requer - sabemos - uma fidelidade dinâmica, capaz de interpretar os sinais e as necessidades dos tempos e de responder às novas exigências que a humanidade coloca. O carisma é criativo, não é uma estátua de museu, verdade? Trata-se de permanecer fiel à fonte original, esforçando-se por repensá-la e expressá-la em diálogo com as novas situações sociais e culturais”.

Esse diálogo deve ser acompanhado pela "abertura aos diversos contextos culturais, sociais e religiosos", característica da espiritualidade dos Focolares. A atitude de abertura e de diálogo ajudará a “evitar toda autorreferencialidade” que “é um pecado, uma tentação, nunca provém do bom espírito”, destaca o Pontífice.

A esperança não é só para os Focolares, mas para toda a Igreja: “Cuidado com o fechamento sobre si mesmos, que sempre leva a defender a instituição em detrimento das pessoas, e que também pode levar a justificar ou encobrir formas de abuso. Com muita dor vivenciamos e descobrimos isso nesses últimos anos”. Uma referência também ao recente escândalo que emergiu no ramo francês da Obra de Maria, devido às violências sexuais praticadas por uma pessoa consagrada, Jean-Michel M., acusada por cerca de trinta vítimas entre os anos 1970 e 90.

“A autorreferencialidade - adverte o Papa - impede de ver erros e falhas, retarda o caminho, obstaculiza uma verificação aberta dos procedimentos institucionais e dos estilos de governo. Em vez disso, é melhor ter coragem e enfrentar os problemas com parrésia e verdade ... A autocelebração não presta um bom serviço ao carisma”, insiste.

O Papa Bergoglio fala a seguir da importância das “crises” que são “uma bênção”: “A tentação é transformar a crise em conflito, isso é ruim”. Em vez disso, é necessário "enfrentá-las positivamente, tirando delas oportunidades" e "é tarefa dos que ocupam cargos de governo, em todos os níveis, se esforçar para lidar da melhor e mais construtiva forma com as crises comunitárias e organizacionais".

Quanto às “crises espirituais das pessoas, que envolvem a intimidade do indivíduo e a esfera da consciência”, “requerem ser abordadas com prudência por quem não ocupa cargos de governo, em qualquer nível, dentro do Movimento”, recomenda Jorge Mario Bergoglio. “É aquela sábia distinção entre os foros externos e internos que a experiência e a tradição da Igreja nos ensina ser indispensável. De fato, a mistura entre esfera de governo e esfera de consciência dá origem aos abusos de poder e outros abusos de que somos testemunhas, quando se destampou o caldeirão destes horríveis problemas”.

Por fim, Francisco pede para viver a espiritualidade "com coerência e realismo" fora e dentro do Movimento. Fora, como “testemunhas de proximidade com amor fraterno que supera todas as barreiras”; dentro, promovendo a "sinodalidade" para que todos os membros sejam "corresponsáveis e participem da vida da Obra de Maria e dos seus fins específicos". “Quem tem a responsabilidade do governo - exorta o Papa - é chamado a favorecer e realizar uma consulta transparente não só dentro dos órgãos de governo, mas em todos os níveis, em virtude daquela lógica de comunhão segundo a qual todos podem colocar ao serviço dos outros os próprios dons, suas opiniões na verdade e com liberdade”.

Para terminar, uma última frase de improviso: “Diz-se que os Focolares sorriem sempre. Certa vez ouvi falar da ‘ignorância’ de Deus. Há quatro coisas que Deus não pode conhecer: o que pensam os jesuítas, quanto dinheiro têm os salesianos, quantas congregações de religiosas existem e de que riem os Focolares”.

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