Biden, um católico da Casa Branca entre os venenos da igreja estadunidense. O “Social Gospel” e a sintonia com o Papa Francisco. Diálogo sobre religião, política e democracia

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21 Janeiro 2021

Hoje, 20 de janeiro de 2021, acontece o juramento do 46º presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, o segundo presidente católico do país, depois de John Kennedy. Uma exceção (a de ser um presidente católico) vivida até como uma anomalia suspeita na história da maior democracia ocidental. No entanto, depois de sessenta anos, a comparação entre Biden e Kennedy é quase incomensurável. Pelo clima cultural e social dos Estados Unidos depois do Trump (e apesar do trumpismo) e pela presença no Vaticano de um Papa como Francisco.

A reortagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada por Huffington Post, 20-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Certamente as diferenças com Kennedy são enormes", diz o Professor Massimo Faggioli (historiador da Igreja, professor de Teologia e Estudos Religiosos da Universidade de Villanova) que escreveu o livro "Joe Biden e o Catolicismo nos Estados Unidos" (na Itália pela editora Morcelliana). Não apenas porque o catolicismo de Kennedy era muito mais privado do que o de Biden. “Nos anos 1960, a cultura anticatólica, abertamente anti-romana, levada em frente pelo establishment protestante - explica Faggioli - era muito forte”. Durante a campanha eleitoral, Kennedy teve de explicar várias vezes que não seria um católico presidente, muito menos um "presidente católico". “Biden - continua Faggioli - não só é pessoalmente muito mais devoto do que Kennedy, mas falou explicitamente de sua fé religiosa ao longo de toda a campanha eleitoral, começando com a nomeação”.

Além disso, ainda em 2004, a tentativa de outro católico, o democrata John Kerry, fracassou. E a própria Hillary Clinton, em 2016, mostrou "uma espécie de desprezo pelo eleitor católico", diz Faggioli. Em suma, mesmo neste caso, a história não se repete.

Acrescenta Stefano Ceccanti, ex-presidente da Fuci (universitários da Ação Católica), professor de direito público da Sapienza e deputado do Partido Democrata: “Biden, no mínimo, tem um problema com metade da Igreja Católica estadunidense, aquela que se modelou a partir das nomeações episcopais dos dois pontificados anteriores, na retórica dos princípios não negociáveis e que, aliás, não por acaso se opõem a Biden e ao Papa Francisco”.

Ceccanti escreveu a introdução à reedição, lançada nos últimos dias, de um texto básico para a compreensão do catolicismo estadunidense, o ensaio "Nós acreditamos nessas verdades", do padre John Murray, jesuíta que participou do Concílio Vaticano II.

Murray - explica Ceccanti - é o autor que permitiu que os EUA entendessem o catolicismo e a Igreja entendesse os Estados Unidos e o princípio estadunidense, superando mal-entendidos mútuos. Biden, nascido em 1942, é também filho daquele clima de abertura conciliar, embora depois explicitado de forma muito pessoal e até pop como afirma Faggioli”. “Mas, como eu disse a partir de 2010, Murray foi contestado publicamente. O arcebispo da Filadélfia, (emérito desde janeiro de 2020) Charles J. Chaput, expressou-se contra o discurso de Kennedy em Houston, claramente inspirado em Murray, acusado de negar a identidade católica com uma abordagem hostil às religiões. Eu me perguntei o que havia levado um bispo respeitado a atacar um texto homogêneo aos textos conciliares: por que essa estranha regressão identitária justamente nos Estados Unidos? Percebi então que, apesar das homenagens formais a Murray, porque ninguém se atreve a atacá-lo diretamente, o legado não foi compartilhado e a retórica dos princípios não negociáveis tinha levado parte do episcopado a posições anticonciliares”.

Uma mudança começou a ser vista somente após a eleição do Papa Francisco. Ceccanti lembra que “em uma conferência na Sapienza em 2014, vários palestrantes identificaram no novo pontificado um relançamento da abordagem de Montini e, portanto, também uma nova atualidade de Murray”.

Colocadas essas premissas, segundo Ceccanti, a eleição de Biden pode ser considerada “complementar à eleição do Papa Francisco, podendo também marcar, no plano civil, uma nova relevância de Murray e uma forma de abordagem da liberdade religiosa, em um quadro de sinfonia entre pensamento democrático e inspiração religiosa, objetivamente alternativo à retórica dos princípios não negociáveis, em última análise reduzidos à única insistência nas sanções penais ao aborto e ao trumpismo. Uma mentalidade intransigente que também tem levado a Igreja Católica a ser parte do problema, dos excessos do partidarismo, mais do que parte da solução”.

Para Murray, o "princípio estadunidense", a Constituição dos EUA, é constituída de "artigos de paz" - afirma Ceccanti - "que tornam o pluralismo possível e fecundo, e não por opostas declarações de fé que instrumentalizam a Constituição numa lógica de militantes "one issue” que simplificam a realidade e que pretendem bloquear a dinâmica evolutiva da política e do direito”.

Mas como o "milagre" de Biden foi realmente possível, logo após a presidência de Donald Trump? “Graças ao 'Social Gospel'”, diz Faggioli. “As duras consequências das políticas neoliberais - continua ele - levaram a uma profunda redescoberta das consequências sociais do Evangelho”, e a julgar negativamente a crueldade de algumas escolhas de política econômica e social (entre as quais as políticas contra os migrantes e os dreamers)”.

Não há dúvida de que há sintonia, apesar da diferença de papéis e geopolítica, entre Francisco e Biden, e que a vitória de Biden possa, em um sentido amplo, também ser considerada uma vitória de Francisco. “No plano geopolítico, porém - argumenta Faggioli - isso será verdade principalmente no curto prazo. Em primeiro lugar, quanto à China, em relação à qual a posição de Biden poderia divergir daquela do Vaticano. Mas também em relação ao Oriente Médio: por exemplo, Biden acompanhou de perto o dossiê do Iraque”.

A semelhança entre Francisco e Biden em todo caso - segundo Faggioli - também é biográfica e existencial. "Ambos são dois sobreviventes”. Em que sentido? “Ambos tiveram uma série de acontecimentos pessoais dramáticos: uma carreira interrompida (para Francisco), a morte trágica de alguns membros da família e graves acidentes e erros políticos (para Biden). Mas, justamente como "sobreviventes", podem ser de grande ajuda. Biden especificamente pode ajudar a curar as feridas dos Estados Unidos”.

Será um jesuíta (como Murray) que esteve muito próximo da família Biden ao longo dos anos que irá "abençoar" a Presidência no momento da posse. É significativo? Ceccanti: “Os jesuítas estadunidenses são para a Igreja o que a Presidência da República é para o sistema político na Itália. Eles são o corretivo que é acionado, que abre o acordeão de seus poderes quando o episcopado entra em crise, esperando que depois o sistema volte a funcionar, talvez graças às nomeações de Francisco”.

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