“Eu acho que funciona, né?”, diz paciente que ganhou remédio de piolho da Prefeitura de Manaus para curar Covid-19

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16 Janeiro 2021

Com dores nas costas e sintomas de resfriado a dona de casa Joana Silva, de 51 anos, procurou na manhã de terça-feira (12) a Unidade Básica de Saúde (UBS) Augias Gadelha, localizada no bairro Cidade Nova, na zona norte de Manaus. Na porta da UBS, ela mostrou à reportagem da Amazônia Real a receita que recebeu do médico da Prefeitura: recomendação da ingestão de dois comprimidos de ivermectina em dose única, além de azitromicina (1 comprimido uma vez ao dia), paracetamol (1 comprimido ao dia em caso de febre), além de vitamina C + Zinco e Vitamina.

“Vim aqui e testei positivo para a Covid-19. Ainda não deu tosse, falta de ar, nada. Eles passaram azitromicina e ivermectina. Vou fazer o tratamento direitinho. Vou fazer um raio-x do pulmão e trazer para o médico”, diz Joana.

A reportagem é de Leanderson Lima, publicada por Amazônia Real, 14-01-2021.

Sem condições de comprar remédios, ela disse que mora com o marido e o filho em uma casa de madeira e todos sobrevivem com um salário mínimo. Joana disse que tem dúvida se o medicamento ivermectina é eficaz. “Eu acho que funciona, né? Eu acho… Não sei. Vale tentar. Se não tentar, na situação que está…”

O remédio receitado a Joana e a tantos outros pacientes de Manaus é um reconhecido antiparasitário usado contra piolhos, pulgas e verminoses. Faz parte do “tratamento precoce” defendido pelo ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, um dia antes, na segunda-feira. “Ouvi do David [prefeito de Manaus, David Almeida] falar aqui sobre tratamento precoce. Senhores, senhoras, não existe outra saída”, disse o militar, no mesmo momento em que a população brasileira aguarda a vacina como única forma de combater a doença. Pazuello incluiu ainda a cloroquina, outro remédio não eficaz no tratamento do vírus.

Mas não existe qualquer comprovação científica sobre a eficácia da ivermectina contra o novo coronavírus. Antes de assumir o cargo, em 1o. de janeiro, o prefeito David Almeida (Avante), apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), prometeu doar à população o “Kit Covid” com a distribuição de complexos vitamínicos e ivermectina como forma de “imunizá-la”.

Em um momento em que a pandemia do coronavírus explodiu novamente em Manaus, sobrecarregando a rede hospitalar, o remédio está sendo distribuído de forma indiscriminada nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da capital amazonense, conforme apurou a Amazônia Real.

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia, o estado do Amazonas enfrenta a segunda onda do novo coronavírus desde agosto de 2020. De 13 março de 2020 a 12 de janeiro de 2021 foram notificados 218.070 casos confirmados de Covid-19 e 5.810 mortes.

No dia 2 de janeiro, a Justiça amazonense decretou a suspensão das atividades não essenciais por 15 dias. A pedido da Defensoria Público do Estado, o governo suspendeu o transporte fluvial e terrestre intermunicipal de passageiros. A medida é para conter a alta transmissão do vírus.

Recomendar ivermectina é crime

Receituário com remédio de piolho doado à paciente em Manaus (Foto: Amazônia Real)

O epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz, disse à Amazônia Real que receitar a medicação e doar ivermectina à população, como a Prefeitura de Manaus está fazendo, é um crime, pois não existe evidência científica que ateste a eficácia dessa droga. “Na verdade, existem vários estudos científicos mostrando que a ivermectina não tem efeito protetor e muito menos preventivo contra Covid-19”, disse Orellana.

“Antes mesmo da sua posse, o prefeito David Almeida anunciou que iria combater a Covid-19 em Manaus com vitaminas e ivermectina. Essa sequência se inicia, inclusive, fora da gestão do prefeito. É importante a gente chamar a atenção para esse detalhe no caso dele ser responsabilizado antes de assumir o seu mandato, pois é um crime essa recomendação e ele tem que ser responsabilizado”, afirmou Jesem Orellana.

O epidemiologista também questionou o interesse do gestor público em doar a medicação nos postos de saúde no momento em que o Brasil espera pela vacinação. “Vamos raciocinar bem simples: se a ivermectina funciona para prevenir a Covid-19; qual o sentido dessa corrida mundial para uma vacina, que tem o mesmo papel? Não faz sentido. Se essa droga faz tão bem por que nós continuamos com esse problema da pandemia no mundo inteiro? Será que justamente Manaus, que caiu duas vezes na armadilha da transmissão comunitária descontrolada, que resultou na primeira e na segunda onda de Covid-19”, disse Jesem Orellana, da Fiocruz.

Sem evidências de cura

Na UBS Nilton Lins, entrega de Leverctin (Foto: Altemar Alcantara/Semcom)

A prescrição de ivermectina é também questionada por especialistas de outros estados brasileiros. Em entrevista ao site NSC Total, a doutora em microbiologia Natália Pasternak, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e referência em estudos e análises sobre o impacto da pandemia na população brasileira, ressalta que não existem evidências que provem que a Ivermectina seja um bom medicamento para o combate à Covid-19.

“A ivermectina foi testada nos estágios bem iniciais, bem preliminares de um teste clínico, que foi na bancada do laboratório. Em tubo de ensaio mesmo, o estágio que a gente chama de in vitro. E nessa parte, in vitro, a gente testa o medicamento em cultura de células no laboratório. Nesses testes, tem uma infinidade de princípios ativos que funcionam como antivirais. Mas depois, quando você vai testar em animais e em humanos, não funciona. Isso é o caminho normal de um medicamento, é assim que a ciência funciona. A ivermectina está nesse comecinho, ela não foi testada ainda nem em animais nem em humanos para Covid-19”, pontua a pesquisadora.

O que dizem as autoridades

Paciente no lado de fora do 28 de Agosto na tarde de 12/01/2021 (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real)

A reportagem procurou a Prefeitura de Manaus para responder sobre os questionamentos dos cientistas sobre doar medicação sem eficácia nos postos de saúde de Manaus. Quem respondeu a demanda da Amazônia Real, por meio de nota, foi a Secretária Municipal de Saúde de Manaus (Semsa), Shádia Fraxe.

Ela disse que “é função da Atenção Básica de Saúde oferecer meios de prevenção ao adoecimento e tratamento precoce”. Afirmou ainda que “para os casos suspeitos ou confirmados de Covid-19 e outras síndromes gripais tem, à disposição dos profissionais médicos, um leque de 28 itens de medicamentos, incluindo antivirais, antiinflamatórios, antibióticos, analgésicos e antitérmicos, prescritos a critério do médico, que considera as condições de saúde e necessidades de cada paciente, de forma individual”.

Sobre a eficácia da ivermectina, a secretária Shádia Fraxe disse que “esse é um vírus novo, muitos estudos estão em andamento, e o profissional médico, baseado nas evidências científicas já disponíveis e dentro do leque de itens existentes como opção terapêutica, faz a prescrição dos medicamentos que avaliar mais adequada para cada caso. A orientação da Secretaria é para que tudo o que for possível seja feito para evitar o agravamento do quadro e o sofrimento dos pacientes”.

A Amazônia Real procurou o Ministério Público do Estado do Amazonas e Ministério Público Federal. O MPF respondeu dizendo que está analisando, de forma preliminar, a indicação da ivermectina para o tratamento de pacientes com Covid-19, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) da Prefeitura de Manaus. “A partir do relato de alguns órgãos da imprensa que procuraram a instituição, o Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas está analisando preliminarmente o caso para verificar se há indícios de irregularidade que embasam a instauração formal de apuração”, disse o MPF em nota.

O MPE respondeu a demanda da agência informando, por meio de nota, que “não interfere em processos médicos adotados pelo poder público”. “A cobrança é que dê atendimento, amplie leitos, transfira pacientes renais de unidades onde estão sendo atendidos pacientes com covid, garanta transporte para pacientes do interior que precisem de atendimento de alta complexidade, entre outros.”

UBS lotada e relatos de mortes

População lota UBS Nilton Lins em busca de atendimento e unidade fecha (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real)

Com a segunda onda da pandemia em Manaus, a prefeitura abriu na terça-feira (12) a Unidade Básica de Saúde no Centro Universitário Nilton Lins, onde funcionava o antigo Pronto Socorro da Unimed, na zona centro sul da cidade. No final do dia o lugar já estava lotado de pessoas buscando atendimento. Lá os pacientes diagnosticados também receberam nas receitas a indicação para o uso do antiparasitário Ivermectina.

O casal Andreia Silva, 45 anos, e Paulo Silva, 54 anos, conseguiu ser atendido no fim da tarde na UBS Nilton Lins. Andreia contou à reportagem da Amazônia Real que tinha pneumonia e, segundo ela, Paulo voltou a testar positivo para o vírus. “O meu esposo está com febre e calafrios. Ele testou positivo de novo para Covid. Os sintomas começaram no domingo. O meu teste deu negativo, mas estou com pneumonia”, disse Andreia. O caso de Paulo não é considerado, oficialmente, uma reinfecção.

Nesta quarta-feira (13), a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas confirmou o primeiro caso de reinfecção pelo novo coronavírus, por meio de sequenciamento genético realizado pela Fiocruz Amazônia. “Trata-se de uma paciente que atende aos critérios de definição de casos como, por exemplo, dois exames positivos de RT-PCR no intervalo de noventa dias, entre a primeira e a segunda infecção”.

Temerosa com as notícias da pandemia em Manaus, a autônoma Andreia Silva revelou que perdeu parentes na segunda onda do vírus. “Perdi meu primo no domingo [10]. Ele estava internado no Platão Araújo. Perdi a esposa de um outro primo também e a filha de uma amiga nossa. A situação está muito difícil. Estou no antidepressivo para poder enfrentar tudo isso”, desabafa ela.

Ao sair da unidade médica, Paulo Silva confirmou que recebeu a recomendação médica para o uso da ivermectina, o remédio de piolho e verminoses. “Me passaram azitromicina, dipirona e ivermectina”, confirmou o paciente.

“Infelizmente se essa vacina não vier muita gente ainda vai morrer, porque nenhum organismo é igual ao outro. Tu podes ter sintomas e não manifestar a doença. Por ser asmática eu estou no grupo de risco”, lamentou a esposa de Paulo, que apoia o “tratamento precoce” defendido pelas autoridades.

“Se não tem a cura da doença, no medo da morte, eu tentaria de tudo. Eu tomo [ivermectina] porque eu tenho medo de morrer, o medo de morrer faz a gente entrar em desespero e tomar o que tiver que tomar. A gente tem marido, tem família, tem filho para criar. Se vai resolver ou não, eu não sei, mas vou tentar. Vamos lutar. A gente tem que vencer este vírus”, finalizou Andreia Silva.

Nos últimos 12 dias, 2.221 pessoas foram internadas em Manaus, um número maior do que em abril de 2020, na primeira onda da pandemia, com 2.228 internações. O número de mortes também é altíssimo este mês e chegou a 446, superior aos meses de julho, agosto e setembro do ano passado, segundo o Alerta Epidemiológico do pesquisador da Fiocruz, Jesem Orellana. Só nesta terça-feira foram 166 sepultamentos em cemitérios públicos e privados.

Quadro mostra alta grave das mortes em janeiro de 2021 (Fonte: FVS-SES/AM/Alerta Jesem Orellana/Fiocruz)

A atenção pública do Sistema Único de Saúde (SUS) e os hospitais privados entraram em colapso no atendimento com UTIs lotadas de doentes. “Está claro que incompetência, irresponsabilidade e impunidade caminham de mãos dadas durante a desastrosa gestão da epidemia de COVID-19 no estado do Amazonas. Não há melhor exemplo do que o da capital mundial da pandemia de COVID-19, Manaus”, disse Jesem Orellana. “O caos sanitário e humanitário que a cidade se encontra mergulhada, durante a segunda onda (com início nas primeiras semanas de agosto de 2020), traduzido pelo pico explosivo de mortalidade e de internações em leitos clínicos e de UTI, no início de janeiro de 2021, não deixam qualquer dúvida sobre a extensão da tragédia anunciada, um drama evitável. Não custa pontuar que em abril/maio de 2020, Manaus também chocou a humanidade com crise semelhante”, analisou o epidemiologista da Fiocruz. (Colaborou Kátia Brasil)

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