À noite, Deus vem. Artigo de Francesco Cosentino

Foto: Pixabay

21 Dezembro 2020

Fragilidade, sobriedade e solidariedade são sinais evidentes do nascimento do Senhor e são caminhos que, apesar dela, a pandemia nos apresenta. Percorrê-los poderia ser uma forma de redescobrir o significado do Natal e refletir sobre o mundo e a sociedade que queremos construir no futuro próximo.

 

A reflexão é de Francesco Cosentino, padre italiano, teólogo e professor de Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana, em artigo publicado por Settimana News, 19-10-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

E citando o cardeal Martini, o teólogo escreve; "não se pode dizer que o contexto do primeiro Natal foi um contexto de luz e de serenidade, mas sim de escuridão, de dor e até de desespero".

 

Eis o artigo.

Como quando nasce uma criança em uma casa simples e comum, a vida se renova, o futuro se descerra diante de nós, as promessas parecem se cumprir, os brotos dos nossos desejos se abrem ao amor, tudo respira alegria e festa.

Assim é o Natal: um Menino nasceu para nós, cumprimento de todas as expectativas e os desejos profundos de Israel e do gênero humano, Aquele no qual fomos criados, escolhidos e amados, Aquele que nos liberta da escravidão e da morte.

Esse canto de alegria, que atravessa a liturgia da Palavra do tempo natalício e é marcado ao ritmo dos sinos que tocam em festa, se choca neste ano com aquele abismo que a pandemia do coronavírus está cavando dentro das nossas almas e dentro da nossa sociedade. O sofrimento, a morte, mas também a angústia, o medo, o cansaço, a incerteza do futuro e tudo aquilo que, entre uma máscara e outra, nos atravessa como um riacho pacato, entregando-nos a uma melancolia de fundo que quase nos faz rejeitar os aspectos mais festivos do Natal.

A pergunta está toda aqui: neste ano, que Natal será?

 

 

À noite, Deus vem

No entanto, ele vem. Esse Deus obstinado no amor – que não leva em conta o mal recebido e joga para trás das suas costas o nosso pecado, que não se rende ao mal, mas faz surgir sementes de esperança até mesmo nos desertos mais áridos, que sofre conosco quando caímos nos abismos da dor, que nunca e jamais é o Deus retratado por alguns, aquele sério, castigador, vingador e sedento do nosso sacrifício – vem.

E a vinda de Deus na nossa vida e na nossa história é sempre uma vinda na noite do coração e do mundo. Na noite de Israel, na noite de Jacó, até na noite do Getsêmani, noite de abandono, solidão e traição, quando Jesus descobriu a raiz da oração no ato de se entregar com fortaleza interior ao próprio destino [1], para depois chegar àquela noite que se abre ao triunfo da madrugada da manhã de Páscoa, quando as mulheres descobrem a presença vitoriosa do amor definitivo de Deus no vazio de um túmulo, na qual a luz já venceu definitivamente a noite de pecado e da morte.

 

 

Sempre de noite, vem a luz. E é assim também no Natal do Senhor: a luz vem nas trevas do mundo, e as trevas não a venceram. Durante a Audiência Geral do dia 10 de junho passado, o Papa Francisco afirmou: “Todos nós temos um encontro marcado na noite com Deus, na noite da nossa vida, nas muitas noites da nossa vida: momentos obscuros, momentos de pecado, momentos de desorientação. Lá, há um encontro marcado com Deus, sempre. Ele nos surpreenderá no momento em que não o esperamos”.

Precisamente à noite pode haver uma graça escondida, um mistério de bênção da nossa vida que ganha forma nas perguntas, em uma pausa regeneradora, em uma possibilidade de mudança, na redescoberta de certos valores da vida. Essa noite da dor ou da dúvida pode se abrir à luz da descoberta se a atravessarmos com a luz da fé e nos rendermos ao Deus que é capaz de rasgar toda treva.

 

Como esperar o Senhor que vem

Esperemos o Natal, então. Cultivemos com confiança a espera do Senhor que vem, sem com isso fugir da noite da pandemia, nem tentar amenizar o seu drama. Pelo contrário, coloquemo-nos na atitude de quem cultiva a esperança, mesmo no meio da noite, de que Deus não desaponta as nossas expectativas e – como nos recordou o Papa Francisco:

“Sabemos muito bem que a vida é feita de altos e baixos, de luzes e sombras. Cada um de nós experimenta momentos de decepção, de insucesso e de desorientação. Além disso, a situação que estamos vivendo, marcada pela pandemia, gera em muitos preocupação, medo e desconforto; corre-se o risco de cair no pessimismo, o risco de cair naquele fechamento e na apatia. Como devemos reagir a tudo isso? Deus caminha ao nosso lado para nos sustentar. O Senhor não nos abandona. Em meio às tempestades da vida, Deus sempre nos estende a mão e nos liberta das ameaças” (Ângelus de 29 de novembro de 2020).

 

 

Nessa situação que vivemos, temos pelo menos três aspectos importantes do Natal que podemos recuperar e abraçar com mais consciência.

O primeiro é aprender que “a fragilidade é o nosso destino: podemos detestá-la porque nos impede de nos sentirmos mais fortes, ou podemos acolhê-la para nos sentirmos mais humanos” [2]. A pandemia nos fez descobrir e nos sentir frágeis, enquanto, no nosso delírio de onipotência ocidental, pensamos que tínhamos tudo sob controle. Não é um bebê recém-nascido o máximo da fragilidade a ser protegida? Não é esse Deus a antítese de todos os nossos mitos de grandeza e poder, já que ele escolhe se fazer homem e nascer menino em uma gruta? Podemos aprender a bendizer a fragilidade como um lugar que se torna hospitaleiro para acolher Deus e a sua Palavra, tendo ele mesmo escolhido a via do abaixamento, nascendo na carne e morrendo na cruz. E, quando tivermos bendito a nossa fragilidade, também nos tornaremos mais humanos.

 

 

O segundo aspecto é a redescoberta do valor da sobriedade. O Papa Francisco também falou disso. Sobre esse aspecto, não é preciso fazer moralismos inúteis. Também é bom trocar pequenos presentes no Natal, alegrar as crianças com alguns presentes, comprar algo novo para nós ou para as nossas casas. Outra coisa é assistir o quanto a frenética sociedade de consumo consegue produzir nas nossas almas, restringindo a nossa visão, levando-nos a desejar o supérfluo, entregando-nos à nervosa agitação das compras. Assim “celebramos uma festa, talvez a única que ainda celebramos com íntima convicção, mas lentamente estamos esquecendo o aniversariante! Em suma, uma festa do nascimento de Jesus, mas sem Jesus! Celebramos uma festa em que o único que falta é o aniversariante” [3]. Podemos contemplar aquele Jesus que nasce em um ambiente essencial e simples: uma gruta, os pastores, um vilarejo perdido onde ele viveu por 30 anos. Um pouco de sobriedade, neste tempo de pandemia, pode nos fazer redescobrir o gosto pelo essencial, a beleza das coisas simples, o verme venenoso da ânsia de acumular, uma redescoberta das coisas que realmente importam na vida.

 

 

O terceiro aspecto é o crescimento do senso de solidariedade. A simplicidade do Natal, que nos faz redescobrir a importância da fragilidade e o valor da sobriedade, nos indica que a vida adquire sentido e sabor quando nos abrimos ao amor. Não conseguimos sozinhos: é a grande lição da pandemia e, paradoxalmente, também a do Natal. Adoramos um Deus que é Deus-conosco, que estabelece relações, deseja se aproximar de nós, abre-se ao encontro.

Hoje, podemos recomeçar ampliando na sociedade o sentido da solidariedade entre as pessoas, recuperando a importância das relações humanas hoje forçadas ao distanciamento, desenvolvendo um sentido mais evangélico da justiça e da atenção aos pobres. O Natal nos fala de um Deus solidário com os homens e mulheres, que nos pede que o acolhamos sobretudo no rosto dos outros.

Fragilidade, sobriedade e solidariedade são sinais evidentes do nascimento do Senhor e são caminhos que, apesar dela, a pandemia nos apresenta. Percorrê-los poderia ser uma forma de redescobrir o significado do Natal e refletir sobre o mundo e a sociedade que queremos construir no futuro próximo.

 

 

Reprodução da obra Natividade, de Giotto, na capela de la Scrovegni (Foto: Wikimedia Commons)

 

Uma leitura de natal

O cardeal Martini escreveu em dezembro de 2008 um texto sobre o Natal que parece extraordinariamente atual. Ele lembra como o contexto em que o Natal acontece é obscuro:

“Uma viagem cansativa de Nazaré a Jerusalém para satisfazer a vaidade de um imperador, as pesadas rejeições recebidas por José que busca um lugar onde o menino possa nascer, o frio da noite, o desinteresse com que o mundo acolhe o filho de Deus que nasce. E, sobre tudo isso, paira uma pesada capa de cinzume, de incredulidade, de superficialidade e de ceticismo, evidenciada nas gravíssimas injustiças então presentes no mundo. Não se pode dizer que o contexto do primeiro Natal foi um contexto de luz e de serenidade, mas sim de escuridão, de dor e até de desespero.”

 

 

Portanto, se a pandemia nos surpreendeu e fez cair sobre nós “densas trevas”, cultivemos a espera e alimentemos a esperança: Deus venceu o mundo, e a sua luz vence as trevas.

 

Notas:

1. A iluminadora abordagem se encontra no texto de M. Recalcati, “La notte del Getsemani”, Milão: Einaudi, 2019.

2. G. Pani, “Pietre che rimbalzano sull’acqua. Cerchi di teologia del limite per vivere il nuovo presente”, Turim: Effatà, 2020, p. 21.

3. A. Matteo, “Incontro al Natale. Un invito a credere di nuovo”, Milão: Ancora, 2020, p. 5.

 

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