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11 Dezembro 2020

Grupo de cientistas que auxilia o ministério da Saúde pede incorporação da Coronavac, produzida pelo Butantan. Pazuello, perdido, atira para todos os lados. E mais: cresce resistência ao desmonte da Reforma Psiquiátrica.

A reportagem é de Maíra Mathias e Raquel Torres, publicada por OutrasPalavras, 10-12-2020.

Chamada à razão

Cientistas que auxiliam o Ministério da Saúde na construção do plano operacional de vacinação publicaram ontem à noite uma nota pedindo que o governo federal abra imediatamente negociações com o Instituto Butantan, “que já teria condições de oferta de doses de vacinas, com outras empresas que trabalham com a vacina CoronaVac e com outras vacinas candidatas em fase final de estudos de eficácia”. Eles defendem que as decisões sejam baseadas em ciência em vez de “em eventuais cenários políticos de fundo” e que a vacinação comece “o quanto antes”.

O documento não é assinado, mas foi escrito pelo grupo técnico do eixo epidemiológico que trabalha no plano, formado por especialistas da Fiocruz, da OMS, da Opas (a Organização Pan-americana de Saúde), de universidades como a USP e a Ufes e ainda de diversos conselhos e organizações. Entre suas atribuições, está a de definir os grupos prioritários que devem receber as vacinas. Seu argumento central é o de que as doses acordadas pelo ministério não são suficientes para imunizar nem mesmo estes grupos. “Nos causa preocupação constatar que, até o momento, a única alternativa à vacina da AstraZeneca incluída no planejamento seja aquela ofertada pela Pfizer, justamente a que apresenta o maior desafio logístico para incorporação à estratégia nacional de vacinação por conta da cadeia de frio necessária”, diz o texto.

A nota foi publicada pouco depois de o ministério anunciar a retirada das pessoas privadas de liberdade dos grupos prioritários para receber a vacina. A pasta retirou a população carcerária da lista, mas manteve agentes do sistema prisional. A justificativa é bizarra: os presos seriam jovens. Questionado, o ministério disse que “o Brasil e o mundo ainda carecem de mais estudos quanto à taxa de transmissibilidade e de letalidade para que se justifique a priorização do grupo daqueles privados de liberdade”.

Segundo os cientistas, na verdade deveria haver uma ampliação da população que precisa ser atendida, e não sua redução. “Nós [os especialistas] falarmos qual é a população que precisa ser considerada prioritária e então o ministério garante a vacina para eles. E não o ministério falar ‘a dose é essa’ e aí nós delimitamos quem é prioridade”, diz a epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo. Ela publicou a íntegra da nota em seu Twitter. Para ler clique aqui.

Para a plateia

Pegando de surpresa os próprios auxiliares, Eduardo Pazuello entregou o plano operacional de vacinação… para a CNN Brasil. A promessa, feita a governadores, de apresentar a estratégia ontem foi descumprida. A pasta afirma que o documento está “pronto”, mas passa por revisão e só será conhecido na próxima semana.

Na entrevista, o ministro da saúde tentou aplacar os nervos da população com outra ideia que dificilmente sairá do papel. O general disse que a vacinação poderia começar em dezembro, caso o Brasil receba doses da vacina da Pfizer. Acontece que a farmacêutica, que tenta negociar a compra de doses com o governo federal desde julho, já tinha avisado em novembro que, àquela altura, não conseguiria mais entregar vacinas em 2020. A perspectiva é o primeiro semestre do ano que vem. Pazuello está apenas jogando para a plateia. Até porque o ministério tem apenas um memorando de intenção de compras assinado com a farmacêutica – o mesmo documento que o ministro da saúde ressalta não ser ‘vinculante’ quando o assunto é o termo assinado por ele para comprar a CoronaVac. Mesmo que seja extremamente provável que a compra das 70 milhões de doses da Pfizer vá para frente, é difícil que consigamos furar a fila, passando na frente de outros países mais organizados.

De qualquer forma, a pressão exercida pelo governador João Doria (PSDB) ao marcar a vacinação em São Paulo para 25 de janeiro parece ter surtido efeito, e o general já fala no início da campanha nacional em janeiro também.

As alergias e a Pfizer

Duas pessoas que tomaram a vacina da Pfizer/BioNTech ontem, no Reino Unido, tiveram reações alérgicas sérias. Ambos foram tratados e passam bem, mas os órgãos reguladores informaram que pessoas com ‘histórico significativo’ de alergias a vacinas, medicamentos e alimentos não devem receber o imunizante. As autoridades do Canadá (que aprovou essa vacina ontem) e dos Estados Unidos (que devem aprovar até o fim da semana) estão acompanhando o caso.

O que aconteceu? Ainda não se tem certeza. Paul Turner, especialista em imunologia e alergias do Imperial College de Londres, que está aconselhando a agência reguladora britânica, acredita que o problema pode ter sido causado pelo polietilenoglicol. Esse é um componente que ajuda a estabilizar o imunizante da Pfizer e não está presente em outros tipos de vacina. De todo modo, especialistas concordam que não se trata de uma situação inesperada, visto que reações alérgicas acontecem com várias vacinas e remédios.

Não sabemos por que a agência britânica não deu antes essa recomendação para alérgicos não tomarem o imunizante, uma vez que, segundo a Reuters, pessoas com histórico de reações adversas significativas a vacinas foram excluídas dos ensaios de fase 3 da Pfizer. Mas ressaltamos algo que já dissemos outras vezes: como acontece com qualquer imunizante ou remédio, o monitoramento é muito importante quando termina a fase 3 e os produtos vão para o mundo ‘real’. A partir de agora haverá muito mais gente vacinada do que já houve nos testes (e com perfis diferentes), de modo que efeitos não identificados nos ensaios podem mesmo começar a aparecer.

Poucas informações

Saiu ontem mais uma notícia sobre a eficácia de uma candidata a vacina. Dessa vez é a da chinesa Sinopharm. Só que não foi a própria farmacêutica quem divulgou os números, e sim o governo dos Emirados Árabes, onde 31 mil pessoas participam dos ensaios de fase 3. Segundo as autoridades, sua análise preliminar identificou 86% de eficácia “contra as infecções” e 100% de proteção contra casos moderados e graves. Não houve nenhuma informação adicional, porém, e a Sinopharm não comentou os resultados.

Os números são curiosos porque, como observa o repórter da Science Jon Cohen, o protocolo do estudo mostra que ele foi desenhado para avaliar a capacidade da vacina de proteger apenas contra casos sintomáticos, e não contra infecções em geral.

Validade prorrogada

A Anvisa deu seu aval para a prorrogação da validade dos mais de sete milhões de testes PCR armazenados pelo Ministério da Saúde em um depósito em Guarulhos. O anúncio aconteceu ontem, durante uma audiência promovida pela Câmara dos Deputados. Segundo Cristiane Gomes, diretora que representou a agência, o vencimento dos lotes foi estendido para 12 meses, contra a validade original, de oito. Dessa forma, exames que teriam de ser jogados no lixo em dezembro ganharam sobrevida até abril, e assim por diante.

A autorização foi dada com condicionantes. O ministério terá que elaborar um plano de gerenciamento de riscos – e quando se fala em planejamento, sabemos as dificuldades da pasta comandada pelo especialista em logística. O governo terá de enviar nos próximos meses amostras dos lotes para a agência, que fará testes para saber se a sensibilidade dos exames foi comprometida.

De acordo com Gomes, foram levados em conta o cenário atual da pandemia e a possível escassez do produto no mercado. Ela disse que também foi levado em consideração o fato de a empresa fabricante dos testes, a Sigenes, ter certificado de boas práticas emitido pela Anvisa.

Se Pazuello pode respirar aliviado, os empresários que receberam negativas da Anvisa ao fazerem pedidos semelhantes podem manter as esperanças: Gomes informou que é possível que as regras da RDC 348 sejam mudadas pela diretoria colegiada para que seja possível prorrogar também a validade dos testes adquiridos pela iniciativa privada.

Como no Carnaval

O Ministério da Economia está defendendo que a população volte às ruas de modo que o isolamento social volte ao mesmo patamar de fevereiro, mês do Carnaval. ‘Estudo’ da Secretaria de Política Econômica da pasta crava que a renda dos brasileiros só voltará ao habitual se essa taxa refluir a 29%, usando como base de comparação o mês de outubro, quando o distanciamento alcançava 37%. Tem mais: esse é o argumento da equipe econômica para sustentar que não há motivos para prorrogar o auxílio emergencial em 2021.

O homem por trás da projeção é Adolfo Sachsida – que já havia atacado de epidemiologista em 17 de novembro, quando afirmou que a possibilidade de uma segunda onda no Brasil era baixa porque os estados teriam atingido ou estariam caminhando para “a imunidade de rebanho”. Na época, destacamos essa afirmação, tirada da cartola. Hoje, quando o país voltou a liderar a taxa de crescimento de casos no mundo, ela parece motivo mais do que suficiente para que a secretaria de Sachsida desista de fazer projeções sobre a pandemia.

O outro epidemiologista fajuto, Paulo Guedes, afirmou nessa terça que só será convencido de que existe segunda onda caso o número de mortes bata a marca das mil por dia. Apenas diante dessa tragédia o ministro da economia afirmou que concordaria em defender a prorrogação do auxílio.

Bom, de uma forma ou de outra a pasta está contribuindo para que isso aconteça.

Pediu pra sair

Maria Dilma Alves Teodoro pediu na terça para deixar o cargo de coordenadora-geral de Saúde Mental do Ministério da Saúde. A imprensa revelou que coube a ela elaborar uma lista com 99 portarias da área a serem revogadas, usando como base documento da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Teodoro chegou ao posto pela caneta de Luiz Henrique Mandetta.

Ontem, cinco entidades da saúde lançaram uma nota contra a proposta, que foi apresentada pelo ministério ao conselho dos secretários estaduais de saúde na última quinta-feira: “Os significantes ‘moderno’ e ‘baseado em evidências científicas’, repetidos à exaustão na minuta apresentada, tornam-se patéticos na intenção de convencimento de que essa ‘nova política’ se opõe a uma política anterior que seria arcaica e ideológica. Quem são os arcaicos e ideológicos que querem fazer o país andar para trás ‘20 anos em dois’? (…) Há um número expressivo de publicações, nos últimos 15 anos, dedicadas a produzir evidências sobre o papel dos serviços da RAPS, várias delas indicando claramente o avanço do tratamento de base territorial-comunitária em comparação ao tratamento em hospitais psiquiátricos, especialmente na percepção dos seus usuários e familiares. Inclusive, com redução nas taxas de hospitalização e das taxas de suicídio em municípios que implantaram CAPS e, principalmente, naqueles que lograram, apesar do subfinanciamento da área, estruturar uma forte e diversificada rede de serviços”.

Fracasso coletivo

A OMS divulgou ontem as novas Estimativas Globais de Saúde, com as dez principais causas de morte entre 2000 e 2019 (são anteriores, portanto, à pandemia do novo coronavírus). Esse pequeno grupo foi responsável por mais de metade de todas as 55 milhões de mortes no mundo no ano passado. E o que chama a atenção é o papel crescente das doenças não transmissíveis (DNT), que nesse período superaram as doenças infecciosas como principais causas de morte. No ano 2000, havia quatro DNTs na lista. No ano passado, foram sete. As doenças cardíacas, que já eram a principal causa de morte, continuaram no topo com nove milhões de óbitos em 2019 (dois milhões a mais do que no ano 2000).

O relatório descobriu também que, embora as pessoas tenham passado a viver em média seis anos a mais ao fim das duas décadas, apenas cindo desses anos foram vividos com saúde – e as DNTs foram responsáveis por grande parte dos anos saudáveis perdidos.

Os números evidenciam que essas enfermidades afetam cada vez mais os países de baixa e média renda (aliás, recentemente comentamos aqui o trabalho de uma comissão do periódico The Lancet que mostrou que, entre o bilhão mais pobre do mundo, as DNTs já respondem por um terço da carga de doenças). Um exemplo: no mundo todo as mortes relacionadas a diabetes cresceram 70%, o que já é impressionante; mas no Mediterrâneo Oriental, que viu o maior aumento, elas subiram mais de 100%.

Mas ao contrário do que acontece nos países mais ricos, nos de menor renda as doenças infecciosas não estão em declínio, e convivem com o aumento das DNTs. No ranking global das principais causas de morte, a tuberculose caiu da 7ª para a 13ª posição no período, com uma redução de 30% nos óbitos, mas continua em 8º lugar na África e em 5º. no Sudeste Asiático. O HIV caiu da 8ª para a 19ª posição globalmente, mas está em 9º lugar nos países pobres.

Para a NDC Alliance, os números mostram um ‘fracasso coletivo’ dos governos em combater os fatores de risco mais comuns, que todos sabemos quais são: consumo de álcool e tabaco, dietas não saudáveis, falta de atividade física, poluição do ar.

Uma particularidade das Américas é o papel da ‘violência interpessoal’: é a única região do mundo em que esta está entre as dez principais causas de morte. Além disso, triplicou por aqui o número de mortes relacionadas ao uso de drogas (e imaginamos que a epidemia de opioides nos EUA deva ter um papel importante nisso).

Falando em violência...

A Câmara de Comércio Exterior, vinculada ao Ministério da Economia, zerou a alíquota de importação de armas de fogo. O imposto era de 20% e deixará de ser cobrado a partir do ano que vem. Ninguém tem dúvidas de que a decisão é um aceno do presidente para sua base política.

 

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