Padre Cícero e a questão religiosa de Juazeiro. Reconciliação... E agora?

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04 Dezembro 2020

"Serve de boa introdução para um leitor desconhecedor de padre Cícero e para pesquisadores o lançamento de questões para ulteriores estudos. Dentre outros aspectos destacados pelos autores valeria a pena continuar aprofundando (como objeto de monografia ou mesmo de dissertação), o legado deixado por padre Cícero no que diz respeito à religiosidade popular, à sensibilidade pastoral e modelo de exercício do ministério presbiteral", escreve Eliseu Wisniewski em resenha sobre o livro Padre Cícero e a questão religiosa de Juazeiro. Reconciliação... E agora? (SOUZA, Ney de; ASSUNÇÃO, Elinaldo Cavalcante. São Paulo: Loyola, 2020, 176 p).

Eliseu Wisniewski é presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul, mestre e doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e professor na Faculdade Vicentina (FAVI).

 

Eis a resenha.

Cícero Romão Batista (1844-1934), mais conhecido como padre Cícero é um caso emblemático. Considerado o grande Patriarca do Nordeste é uma das personalidades brasileiras mais estudadas nacional e internacionalmente. O ano de 2015 lançou novas luzes sobre os fatos que concernem à figura do padre Cícero e a questão religiosa de Juazeiro do Norte: “na abertura do Ano Santo da Misericórdia e por ocasião das festividades do primeiro centenário da Diocese de Crato, os romeiros e afilhados do padre Cícero Romão Batista receberam uma notícia que havia muito tempo esperavam: a Igreja está reconciliada com seu Padim. Assim foi recebida a carta assinada pelo secretário de Estado do Vaticano, Dom Pietro Parolin, por expressa vontade do Papa Francisco. Anunciada no dia 13 de dezembro de 2015 e lida no dia 20 do mesmo mês e ano, durante a missa em memória do padre Cícero, na Praça do Socorro. Essa notícia também inquietou o meio acadêmico científico, especialmente as áreas mais próximas da história e da teologia. Muitas questões foram levantadas, tanto por quem estuda quanto para quem nem conhecia a chamada questão religiosa de Juazeiro: quem é o padre Cícero? Ele não era santo? Ele estava excomungado? E agora, ele está canonizado?” (p. 19).

O livro: Padre Cícero e a questão religiosa de Juazeiro. Reconciliação... E agora? de autoria de Dr. Ney de Souza e Elinaldo Cavalcante Assunção membro do Grupo de Pesquisa Religião e Política no Brasil Contemporâneo (PUC-SP, CNPq), “soma-se à já extensa bibliografia sobre o assunto abordado, com o diferencial de apresentar uma reflexão nova sobre os fatos recentes relacionados [ao Padre Cícero]” (p. 124), tratando “das mais recentes pesquisas sobre a questão religiosa do Juazeiro” (p. 123).

A obra é fruto do V Simpósio Internacional sobre o padre Cícero, em março de 2017, na cidade de Juazeiro do Norte (CE). Dra. Annette Dumoulim (Pastoral de Romaria Juazeiro do Norte- CE), faz a Apresentação do livro (p. 11-13). Faz notar que “as numerosas referências bibliográficas são impressionantes e revelam o quanto os autores levam a sério a redação deste novo livro sobre as intrigantes e apaixonantes questões ligadas ao padre Cícero” (p. 13). Dom Fernando Panico (Bispo Emérito do Crato), prefaciou o livro (p. 15-18). Destaca que a “importância deste livro dá-se especialmente pela abrangência humana, histórica, geográfica e eclesial que o texto, com maestria, nos apresenta” (p. 15).

“Com documentos do Arquivo Secreto Vaticano, do Arquivo do Santo Ofício e de uma vasta bibliografia” (p. 20), este estudo “fruto de uma análise comparativa entre as obras levantadas (bibliográficas e orais), e de sínteses interpretativas dos autores” (p. 21), está estruturado em quatro capítulos.

O primeiro capítulo: Contexto histórico-eclesial da formação de padre Cícero (p. 23-44), está subdividido em três seções. Primeiramente (p. 24-34), “abordam-se as transições políticas pelas quais passou o Brasil no século XIX e analisa-se o modo como isso influenciou a formação do episcopado brasileiro e de sua estrutura eclesial [...], com ênfase ao paulatino movimento de separação entre Igreja e Estado” (p. 23). Em seguida, mostra-se que o posicionamento eclesial acontece dentro das transformações políticas brasileiras e como a reforma interna pela qual passou a instituição católica no Brasil, conhecida como “romanização” atingiram a Diocese do Ceará , a história de Juazeiro e de padre Cícero (cf. p. 34-39). Na terceira parte deste capítulo (p. 40-44), o leitor é colocado diante do “universo sertanejo do Vale do Cariri, em suas estruturas sociais e culturais, percebendo como foi possível que se tronasse um grande centro de desenvolvimento no interior do Ceará, e observa-se como foi possível que se tornasse um grande centro de desenvolvimento no interior do Ceará, e observa-se como a atuação do padre Ibiapina deixou marcas e pegadas que seriam seguidas por padre Cícero” (p. 24). Neste capítulo os autores mostram como “as relações entre a Igreja e o Estado no século XIX moldaram o contexto eclesiástico e social da época em que o padre Cícero nasceu; a saber: uma estrutura eclesiástica fragilizada pelo descuido e pela falência do padroado imperial (1826-1889); uma população assistida insuficientemente tanto pela esfera civil quanto pela esfera religiosa; a influência de uma ação missionária e social do padre Ibiapina, às margens da hierarquia católica, e a ascendência do movimento de reforma interna da Igreja, conhecida como romanização” (p. 123-124).

O segundo capítulo intitulado: Padre Cícero, predestinado ao sacerdócio?- traz um resgate biográfico da infância de Cícero (p. 45-60). A primeira parte deste capítulo (cf. p. 46-51) trata da “vida familiar de Cícero, para que, conhecendo suas origens, se possa compreender como foi possível a sua caminhada vocacional e o modo como alguns fatos e acontecimentos familiares influenciaram esse processo” (p. 45). A vocação sacerdotal de padre Cícero é tratada na segunda parte (p. 51-56). Mostra-se que sua vocação é “algo presente desde a mais tenra idade, dos esforços dos pais para provê-lo de uma educação de qualidade, e do empenho que o garoto demonstrava” (p. 45). Na terceira parte deste capítulo foca-se na sua formação no seminário (p. 56-60), atendo-se para os “conflitos oriundos entre o modelo de Igreja do qual ele vinha e o outro modelo, romanizado, que começava a ser implantado, bem como para a importância da relação entre o padrinho e afilhado, que lhe valeu em momentos difíceis da vida” (p. 45-46). Souza e Assunção mostram nas reflexões deste capítulo como as raízes de sua vocação sacerdotal, os traços que carregava de piedade popular e a formação recebida dos padres lazaristas nos tempos de seminário determinaram a personalidade de padre Cícero.

O terceiro capítulo: Sonho, milagre e dificuldades apresenta a atuação pastoral de padre Cícero (cf. p. 61-100), tocando num ponto central desta obra: a questão religiosa de Juazeiro. Os autores verificam como padre Cícero “colocará em prática pastoralmente todas as experiências e aprendizado acumulados ao longo de sua formação e de sua vida” (p. 61). Por sua atuação pastoral, num primeiro momento, padre Cícero “é elogiado pelos bispos, padres e pelo povo de quem cuidava; todos viam nele muitas virtudes” (p. 124). Na segunda seção deste capítulo aborda-se de modo sucinto os pontos centrais do suposto milagre, as pessoas envolvidas e a postura de Dom Joaquim diante dos acontecimentos (cf. p. 70-75). A terceira parte deste capítulo mostra como após os fatos de Juazeiro, padre Cícero é apresentado com a “imagem de embusteiro, fanático e subversivo” (p. 124). A última parte destina-se a “descrever o suplício por que teve de passar e como se comportou perante seus acusadores, até o momento de sua morte” (p. 61). Esse percurso possibilita, por fim, discorrer sobre sua excomunhão e ingresso na política (cf. p. 91-100). Sua atuação política foi justificada “por sua necessidade pessoal de trabalhar em prol do povo mesmo estando suspenso de suas ordens sacerdotais” (p. 124).

Os desdobramentos da “questão religiosa de Juazeiro”, o legado deixado por padre Cicero e os passos dados rumos à reabilitação histórica-eclesiástica do padre Cícero é o assunto do quarto capítulo: Santo do povo; e da Igreja? (p. 101-121). Souza e Assunção tratam dos “fatos subsequentes à morte do Patriarca do Juazeiro, em especial, ressaltando as romarias como um legado do padre Cícero, e do modo como a hierarquia local foi tratando esse fenômeno pastoral”(cf. p. 102-111). Em seguida “expõem-se as decisivas atitudes da Santa Sé e de Dom Fernando Panico, que resultaram na reconciliação histórica do Padim” (p. 101). “A Comissão de Estudos interdisciplinares, coordenada pelo bispo da Diocese do Crato, Dom Fernando Panico, foi responsável pelo documento a partir do qual a questão religiosa do Juazeiro foi revisada e pela abertura do processo de reabilitação do padre Cícero. A mesma comissão continua seus trabalhos e poderá, inclusive, dar mais passos rumo a um processo de canonização” (p. 125). As conclusões deste capítulo colocam o leitor diante da parte mais reflexiva da obra (cf. p. 115-121), “em que os autores se deram a liberdade de interpretar os novos fatos e levantar possibilidades que podem ser desenvolvidas em uma pesquisa posterior” (p. 102).

Nas Considerações Finais (p. 123-125), os autores salientam que “a Igreja ainda está a descobrir a santidade que os romeiros já identificaram nele [padre Cícero] há muito tempo” (p. 125).

Nos Anexos são apresentados: 1) Carta de Dom Pietro Parolin para a reconciliação com Padre Cícero (p. 129-137); 2) Attestados e Relatorios Medicos (p. 138-141); 3) Homilia de Dom Fernando Panico por ocasião do Centenário da morte da Beata Maria de Araújo (p. 141-146); 4) Reabilitação Eclesial- Comissão de Especialistas estuda caso de Padre Cícero (p. 147-148); 5) Ratzinger pediu estudo sobre Padre Cícero (p. 149-150); 6) Documentos são entregues ao Vaticano por missão cearense (p. 151-152); 7) Entrevista de Dom Fernando Panico, Bispo Diocesano de Crato, ao Jornal O Povo sobre a reabilitação de Padre Cícero- Fevereiro de 2009 (p. 153-161).

Está aí a proposta deste livro. Excelente pesquisa que apresenta e analisa os fatos mais recentes relativos à chamada “questão religiosa de Juazeiro”. Material importante que merece ser conhecido. Leitura enriquecedora. Quem se interessar por essa problemática, encontrará páginas muito esclarecedoras. Serve de boa introdução para um leitor desconhecedor de padre Cícero e para pesquisadores o lançamento de questões para ulteriores estudos. Dentre outros aspectos destacados pelos autores valeria a pena continuar aprofundando (como objeto de monografia ou mesmo de dissertação), o legado deixado por padre Cícero no que diz respeito à religiosidade popular, à sensibilidade pastoral e modelo de exercício do ministério presbiteral. Uma tarefa interessante e promissora. De fato “padre Cícero é santo para o povo, mas a Igreja hierárquica ainda está descobrindo essa santidade” (p. 121).

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