A Igreja Católica e o nacionalismo: a sombra do longo século XIX. Artigo de Massimo Faggioli

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09 Mai 2019

“O atual pontificado tentou evitar que a Igreja repetisse os erros daquela época, quando o medo do comunismo e da desordem social levou as hierarquias eclesiásticas aos braços dos regimes políticos nacionalistas, autoritários e racistas.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado em La Croix International, 07-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A visita do Papa Francisco à Bulgária e à Macedônia do Norte pode não ser tão sensacional quanto suas viagens à Península Arábica ou aos Estados Unidos. Mas revela muito sobre as semelhanças entre as histórias de vida de Jorge Mario Bergoglio e de Angelo Giuseppe Roncalli.


Mapa da região da Macedônia, que agrega a Macedônia do Norte, e partes da Grécia e da Bulgária. Fonte: Wikicommons

Os nove anos que Roncalli passou como representante do Vaticano na Bulgária (1925-1934) foram um período decisivo na formação do futuro Papa João XXIII.

Quando ele chegou a Sofia, em 25 de abril de 1925, a Bulgária era um país abalado pelos levantes políticos e à beira da guerra civil. O país acabara de ser sacudido por dois ataques.

O primeiro foi uma tentativa fracassada de assassinato contra o rei. O segundo, apenas 10 dias antes da chegada de Roncalli, foi o bombardeio da catedral de Sofia, que matou 128 pessoas.

Durante sua missão diplomática na Bulgária, o futuro papa teve a oportunidade de aprender sobre a Europa oriental e sobre o cristianismo não católico romano; nomeadamente, a Igreja Ortodoxa da Bulgária.

Mas ele também pôde compreender a complexa mistura entre o colonialismo ligado às potências ocidentais e as missões católicas. Ele também começou a explorar o mundo muçulmano na vizinha Turquia pós-otomana, mesmo antes de ser nomeado diplomata papal em Istambul no fim de 1934.

A rejeição do nacionalismo por parte do futuro papa

Roncalli viajou extensivamente por toda a Bulgária. Isso lhe proporcionou uma experiência em primeira mão de uma realidade moldada por coordenadas históricas, políticas, sociais e eclesiásticas de grande complexidade.


Mapa da Europa em 1934. Fonte: Conflicto Bélico

Isso lhe ofereceu uma visão única sobre os conflitos entre as nações e as religiões ao longo da fronteira da Europa oriental.

Havia a Grécia ao sul, a área do antigo Império Austro-Húngaro a oeste e a Rússia soviética ao norte. A sudeste também ficava a Turquia recentemente emergente, que lutava contra uma revolução social, política e cultural contra a ocidentalização forçada, que se tornou necessária no fim do Império Otomano após sua derrota na Primeira Guerra Mundial.

Tudo isso fazia parte do jogo geopolítico das Igrejas no último suspiro do “longo século XIX”, um período que começou com a Revolução Francesa (1789) e terminou com a morte de Pio XII (1958).

Durante esse período, a Igreja lutou para manter sua posição social e política, comprometendo-se com o autoritarismo.

Depois da Primeira Guerra Mundial, muitos no Vaticano e no cristianismo ocidental viram uma oportunidade de ocupar o vácuo deixado na Europa oriental pelo colapso dos impérios Austro-Húngaro e da Rússia czarista.

Mas Roncalli viu que vincular o nacionalismo à religião, tanto no Oriente ortodoxo quanto no Ocidente católico, seria um problema central.

Como diplomata papal na Bulgária, ele começou a rejeitar o nacionalismo e as expressões teológicas e religiosas usadas para sustentá-lo. Ele desenvolveu anticorpos contra a fusão entre nação e religião, entre catolicismo e ideologia.

Isso moldou sua interpretação do período entre guerras, da Segunda Guerra Mundial e do início da Guerra Fria até o Concílio Vaticano II (1962-1965).

A aversão de Roncalli às Igrejas que desposavam causas nacionalistas tornou-se parte da visão de mundo do futuro papa.

Ela era completamente diferente daqueles que desejavam colocar as ideologias políticas a serviço da Igreja, algo típico de grande parte da cultura clerical durante uma época em que o autoritarismo e o fascismo reinavam em grande parte da Europa.

Estamos voltando para esses tempos? Certamente existem sinais de alerta.

Matteo Salvini, o ministro do Interior e homem forte do governo italiano, visitou recentemente a Hungria e elogiou o seu muro militarizado para impedir a entrada de imigrantes.

Isso fazia parte dos seus esforços contínuos para forjar uma aliança política com o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, outro líder autodeclarado cristão na Europa de hoje.

Há também Steve Bannon, o ex-estrategista de Donald Trump, que continua incitando e encorajando movimentos populistas entre o povo do Velho Continente, enquanto eles se preparam para votar, no fim de maio, nos representantes do Parlamento Europeu.

O problema levantado pelo casamento entre a Igreja e o etnonacionalismo não é tão evidente quanto na situação entre a Rússia e a Ucrânia. É por isso que o Papa Francisco convocou líderes da Igreja Católica da Ucrânia ao Vaticano em julho próximo para uma reunião extraordinária sobre o assunto.

Tudo isso fala de uma crise política e religiosa semelhante à que o arcebispo Roncalli viu durante sua estada na Bulgária.

No nível político, o apoio à ordem liberal e democrática estava colapsando tanto nacional quanto internacionalmente, cedendo à pressão de um sistema social e econômico que produzia desigualdade.

No nível religioso, houve um aumento do neotradicionalismo, do fundamentalismo, da intolerância e da xenofobia, em um esforço para justificar a defesa das raízes judaico-cristãs do Ocidente.

As semelhanças podem ser vistas na situação política internacional de hoje e a da década de 1920 e 1930.

Mas a posição da Igreja Católica hoje não é a mesma de antes. Líderes da Igreja como Roncalli aprenderam lições importantes desse período entre guerras e a partir da Segunda Guerra Mundial, que levaram a uma mudança importante em relação ao pensamento anterior.

No início de 1959, poucos meses depois de ter sido eleito ao papado e assumir o nome de João XXIII, ele anunciou planos para o Concílio Vaticano II.

É graças a esse Concílio e ao ensinamento papal dos últimos 60 anos que a Igreja Católica hoje está francamente ao lado do internacionalismo e do multilateralismo e em oposição ao nacionalismo e à xenofobia.

A Igreja de hoje é a favor das democracias constitucionais que respeitam os direitos humanos e a liberdade religiosa para todos – como fomos lembrados pelo importantíssimo documento que a Comissão Teológica Internacional publicou recentemente sobre o tema.

Mas, entre as diferenças que distinguem a Igreja nas décadas de 1920 e 1930 da de hoje, há também a crescente fragmentação.

Quando Roncalli foi diplomata papal, ele teve lutar contra o nacionalismo e o colonialismo das ordens religiosas missionárias na Bulgária (especialmente italianas e francesas), assim como contra as tentativas delirantes de trazer a Europa oriental de volta ao catolicismo.

Francisco revive a visão espiritual e política de João XXIII

Agora, o papado tem que lutar contra o nacionalismo em uma Igreja em que a autonomia leiga obviamente impossibilita punir os eleitores e líderes católicos que abraçam o nacionalismo e a xenofobia. No entanto, é claro que o papado e o aparato vaticano que apoiam o Papa Francisco não estão em silêncio.

Vários eventos do mês de maio oferecem uma chave para entender a visão de Francisco e a interpretação do momento atual.

Em um importante discurso no dia 2 de maio aos membros da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, o papa defendeu o conceito católico do Estado, incluindo a sua clara rejeição ao nacionalismo.

Duas viagens papais em maio têm o objetivo de enviar uma mensagem clara sobre o papel que a Igreja é chamada a desempenhar na Europa, diferente da dos católicos e de outros cristãos que estão tentando manipular o atual momento em vistas a ganhos políticos.

Primeiro, foi a visita à Bulgária e ao norte da Macedônia, de 5 a 7 de maio. Depois, no fim de maio e início de junho, haverá uma viagem papal à Romênia, que incluirá uma visita a uma área do país que abriga uma grande população étnica húngara.

Mas Francisco não é a única voz na Igreja institucional que está resistindo abertamente ao nacionalismo.

A Secretaria de Estado da Santa Sé e seu corpo diplomático, assim como muitas ordens religiosas, ainda são uma voz de sanidade em um momento que está testemunhando um reavivamento do nacionalismo dentro de alguns círculos intelectuais católicos, especialmente nos Estados Unidos.

O arcebispo de Luxemburgo, Jean-Claude Hollerich SJ, que é presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (Comece), recentemente tomou uma posição firme contra o ressurgimento do nacionalismo.

“Um cristianismo autorreferencial corre o risco de ver emergir pontos comuns com essa negação da realidade e corre o risco de criar dinâmicas que, no fim, devorarão o próprio cristianismo”, disse ele na última edição da revista jesuíta La Civiltà Cattolica, examinada pelo Vaticano [disponível aqui, em italiano].

Hollerich, que é presidente de uma organização que inclui bispos dos 28 Estados membros da União Europeia, disse: “Steve Bannon e Aleksandr Dugin são os sacerdotes de tais populismos que evocam uma falsa realidade pseudorreligiosa e pseudomística, que nega o centro da teologia ocidental, que é o amor de Deus e o amor ao próximo”.

O artigo de Hollerich está entre os posicionamentos mais importantes que um representante da Igreja Católica assumiu na União Europeia em décadas.

Ele se posiciona em unidade com a tentativa do Papa Francisco de reavivar a intuição espiritual que Angelo Giuseppe Roncalli expressou em sua famosa homilia de Pentecostes de 1944 como delegado apostólico na Turquia durante a Segunda Guerra Mundial.

Palavras proféticas de 1944 que são tão oportunas como nunca

“Gostamos de nos distinguir daqueles que não professam a nossa fé ou não praticam as nossas tradições e liturgias: irmãos ortodoxos, protestantes, judeus, muçulmanos e crentes ou não crentes de outras religiões”, começou o futuro papa.

“Meus queridos irmãos e filhos, devo dizer-lhes que, à luz do Evangelho e do princípio católico, essa lógica é falsa”, advertiu.

“Jesus veio para derrubar os muros. Ele morreu a fim de proclamar a fraternidade universal. Seu ensinamento central é a caridade.”

“Vocês acham que podem se entrincheirar atrás das suas portas e dizer: “Sou católico, penso em mim mesmo e não me importo com o que os outros fazem’?”

“Somos chamados a viver em uma era da destruição e do ódio, quando o egoísmo individual é superado pelo egoísmo nacionalista, com métodos tão brutais que desonram a raça humana. Cada um de nós deve pensar sobre como contribuir para a reconstrução moral deste mundo”, disse Roncalli.

Tornou-se lugar-comum dizer que a situação política internacional pode estar deslizando para um cenário semelhante à da década de 1930.

Quer isso seja verdade ou não, o atual pontificado tentou evitar que a Igreja repetisse os erros daquela época, quando o medo do comunismo e da desordem social levou as hierarquias eclesiásticas aos braços dos regimes políticos nacionalistas, autoritários e racistas.

É por isso que a oposição tanto a João XXIII quanto a Francisco não é apenas teológica, mas também política. O Vaticano II continua sendo o inimigo de qualquer nova forma de nacionalismo católico, teológica e politicamente.

Há o perigo de retornar ao “longo século XIX” que começou com a Revolução Francesa, na qual o ensino da Igreja se recusou a reconhecer a modernidade e a se engajar com o mundo secular. Foi uma paralisia teológica e espiritual que teve custos enormes.

Assim como ocorreu naquela época, a Igreja deve novamente fazer uma escolha entre seguir o Evangelho ou as ideologias atuais da ordem política, econômica e social. É uma lição que o papado romano aprendeu melhor do que outros.

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