Mão visível e mão invisível do mercado

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17 Outubro 2020

"A teoria do liberalismo entra em rota de colisão com o voluntarismo cego e incerto, indefinido e autoritário. Daí o bate-boca ruidoso, as contradições escancaradas e o vaivém sem fim da área econômica para fabricar o tal “renda cidadã”. Mais do que nunca se vê dilacerada entre uma teoria de escola e uma prática oportunista", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais e vice-presidente do SPM – São Paulo.

Eis o artigo.

O conceito de “mão invisível” do mercado foi cunhado por Adam Smith em seu livro Teoria dos Sentimentos Morais, escrito em 1759. Por mais religiosamente liberais ou neoliberais que sejam as autoridades de plantão, essa “mão invisível”, se necessário, não dispensa a mão visível do intervencionismo político ou o punho de ferro do autoritarismo e da ditadura. No curso da tradição democrática ocidental, o economista britânico John M. Keynes, recorre às políticas públicas do chamado “Welfare State” (estado de bem-estar social), na tentativa de encontrar caminhos viáveis para a crise que devastou a década de 1930, desencadeada pelo crash da bolsa de Wall Street (outubro de 1929). O Estado teve de intervir pesadamente na economia, evitando não poucas falências ou declarações de bancarrota.

Por outro lado, os estudos de Keynes constituem a base teórica de uma escola de pensamento econômico que leva o seu nome, o keynesianismo. A política econômica da escola keynesiana, além dos anos 30, viria a ser retomada pelos países centrais em meados dos anos 1940, logo após a Segunda Guerra Mundial. Tratava-se então de reerguer as economias destruídas pela grande conflagração, tirando-as literalmente das cinzas, das ruínas e dos escombros. Entretanto, com os reveses repetidos e prolongados da economia globalizada, especialmente a partir do início da década de 1970 (Crise do Petróleo, entre outros fatores), os trabalhos de Keynes serão substituídos pelo pensamento do também economista norte-americano Milton Friedman, cujos trabalhos irão fundamentar a teoria econômica da escola de Chicago. Neste caso, a economia deve ser deixada ao humor oscilante e irregular do mercado. O Estado deve diminuir na exata proporção da liberdade deixada à “mão invisível”.

Ocorre que o Ministro da Economia Paulo Guedes é aluno de carteirinha da escola de Chicago, ao passo que o presidente Jair Bolsonaro, embora teoricamente tenha sido eleito desfraldando a bandeira do neoliberalismo, nega-o na prática. Sobretudo agora, embalado pela descoberta de que o “auxílio emergencial” devido à pandemia do Covid-19 é fonte de votos entre os extratos mais pobres da nação, o capitão mantém-se de olho nas recentes pesquisas que o dão como favorito para as eleições de 2022. De resto, isso vale também para outros políticos de extrema direita que, orientados pela linha do populismo nacionalista, não hesitam em apelar para a prática intervencionista do ideário keynesiano. Fazem isso não em função de um projeto de bem-estar social, com políticas públicas estruturais e em benefício permanente da população de baixa renda, e sim em vista de um projeto imediato de poder. Em semelhantes posturas, tortas, sinuosas e distorcidas, a teoria do liberalismo entra em rota de colisão com o voluntarismo cego e incerto, indefinido e autoritário. Daí o bate-boca ruidoso, as contradições escancaradas e o vaivém sem fim da área econômica para fabricar o tal “renda cidadã”. Mais do que nunca se vê dilacerada entre uma teoria de escola e uma prática oportunista.

O resultado é que, enquanto o presidente segue surfando irresponsavelmente nas ondas de um sucesso que, cedo ou tarde, pode se revelar efêmero, precoce e ilusório, seus subordinados dos mais altos escalões quebram a cabeça para fechar as contas públicas sem furar o teto de gastos. É o que sempre fez, aliás, em sua larga carreira de deputado. E no final das contas, se tudo der errado, o ônus pode facilmente ser transferido para os “puxadinhos” do Palácio do Planalto. E inversamente, se tudo der certo, o bônus deverá engrossar a lista de seus eleitores. Se, por uma parte, o lava-pés de Jesus, na quinta-feira santa, segue sendo lembrado e celebrado entre os cristãos, por outra, não será exagero afirmar que o lavar-mãos de Pilatos, na sexta-feira santa, segue encontrando bem mais praticantes. Para o bem ou para o mal, na saúde ou na doença, a responsabilidade é o preço da liderança.

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