Menos perdas e desperdícios, mais direito à alimentação

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09 Outubro 2020

Um terço dos alimentos cultivados é perdido ou desperdiçado todos os anos. Isso equivale ao incrível número de 1,3 bilhão de toneladas de alimentos, o que seria suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas no mundo e afetam negativamente a mudança climática, a pobreza e o comércio. Ao mesmo tempo, têm um impacto importante sobre o direito à alimentação adequada de amplos setores da população”, escreve, Juan Carlos García y Cebolla, líder da Equipe de Direito à Alimentação da Divisão de Transformação Rural Inclusiva e Equidade de Gênero da FAO, em artigo publicado por Rebelión, em 10-08-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A maior parte das culturas criaram tabus e normas que preveniam o desperdício de alimentos. Ao mesmo tempo, os protocolos sociais reservavam às ocasiões de celebração e de hospitalidade um código que associava a abundância de comida, em quantidades muito superiores ao normal, a conceitos como a generosidade e a honorabilidade.

No último século, junto com os avanços técnicos e produtivos e as transformações sociais, os tabus foram aos poucos desaparecendo e perdendo sua eficácia, e a noção de celebração foi se tornando manifestações de opulência e descuidos cada vez mais habituais e inconscientes.

Por outro lado, a cadeia alimentar se transformou, multiplicando o número de operações e atores, tornando-se muito mais complexa. Em muitos casos, a busca subsequente por custos menores se deu reduzindo a mão de obra e assumindo maior percentual de perdas e desperdícios, como ocorre com as frutas danificadas pelo manuseio descuidado no comércio varejista, com autosserviço.

Na última década, cresceu a preocupação com a dimensão que atingiu esse conjunto de comportamentos insustentáveis. Um terço dos alimentos cultivados é perdido ou desperdiçado todos os anos. Isso equivale ao incrível número de 1,3 bilhão de toneladas de alimentos, o que seria suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas no mundo e afetam negativamente a mudança climática, a pobreza e o comércio. Ao mesmo tempo, têm um impacto importante sobre o direito à alimentação adequada de amplos setores da população.

A pandemia de covid-19 perturbou profundamente nossas dinâmicas. Além dos danos que causou no cotidiano, expôs esses problemas sistêmicos e a necessidade de mudanças urgentes na forma como administramos o planeta e seus frutos, incluindo perdas e desperdícios de alimentos.

Embora as interrupções na cadeia alimentar sejam -por ora- relativamente pequenas em seu conjunto, as medidas adotadas pelos Estados para evitar a disseminação do novo coronavírus têm gerado obstáculos típicos de tempos distantes: do cultivo à colheita, passando pelo transporte e o armazenamento, até chegar ao consumo.

A limitação da circulação (fechamento de estradas e fronteiras e atrasos no controle obrigatório) impede e atrasa o transporte e distribuição de mercadorias, resultando em produtos agrícolas que estragam e não são vendidos devido à sua baixa qualidade. Mudanças na demanda reduzem a renda dos produtores, especialmente os pequenos agricultores e aqueles que vivem em áreas rurais remotas.

Do lado dos consumidores, as famílias com menor poder aquisitivo encontram ainda mais dificuldades de acesso a alimentos frescos e perecíveis, como frutas e peixes, com a consequente deterioração de sua alimentação e custos de saúde, a longo prazo.

Durante a pandemia, o acesso aos alimentos não apenas é um problema para os mais pobres, mas, em muitos casos, também para as pessoas com mais recursos, que tradicionalmente têm condições de comprar produtos frescos de alto valor nutricional e dietas saudáveis. Entre estas, a população em situação de risco, ou seja, idosos e portadores de doenças crônicas, que precisam permanecer isolados em casa.

A pandemia nos ensinou que, em situações de crise, não só é fundamental garantir o escoamento dos alimentos não perecíveis, mas também a conexão entre consumidores e produtores. Isso facilita o acesso a alimentos frescos e dietas saudáveis para todos, além de manter a demanda e sustentar a produção local, combatendo a perda e o desperdício de alimentos.

Até o momento, testemunhamos a rápida implementação de iniciativas destinadas a enfrentar esses desafios. Na Espanha, a Prefeitura da cidade de Valladolid ajudou a implantar a entrega segura em domicílio de produtos quilômetro zero e de proximidade.

Em Omã, o governo transformou os mercados atacadistas, onde o pescado é leiloado, de um mercado físico em uma plataforma digital, onde os operadores fazem upload de fotos e os compradores podem verificar o abastecimento diário e fazer seus pedidos por meio de leilões online.

Já antes da pandemia, o programa sul-africano Segunda Colheita, liderado por uma organização sem fins lucrativos, permite que os agricultores canalizem os excedentes para consumidores de baixa renda, por meio de uma rede de frios que preserva sua qualidade e valor nutricional.

A Cúpula sobre os Sistemas Alimentares de 2021, convocada pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas, será uma grande oportunidade para repensar como melhorar o acesso a dietas saudáveis e renda para pequenos produtores, bem como reduzir perdas e desperdícios.

Diante de crises futuras, as respostas não podem ser improvisadas. Temos que estar preparados e incorporar uma visão de prevenção e redução de riscos.

As medidas políticas devem restaurar rapidamente o acesso ao mercado, para que não se rompam os nós da cadeia alimentar. Também devem priorizar o bem-estar e a subsistência das pessoas, especialmente daquelas que vivem em contextos frágeis.

Só assim podemos diminuir o impacto da crise, reduzir as perdas e desperdícios de alimentos e contribuir para a concretização do direito à alimentação.

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