A segunda onda da Covid-19 em Cuba, na Jamaica, na França e outros países. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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10 Setembro 2020

"Depois de um semestre de grande recessão e aumento do desemprego e das diversas formas de desocupação, a necessidade da retomada das atividades econômicas garante um campo propício para a contaminação do vírus. O fato é que a pandemia continua fazendo vítimas em todos os continentes", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 26-08-2020.

Eis o artigo.

O padrão de uma curva epidemiológica subindo rápido e caindo rápido, como aconteceu com o surto da covid-19 na China, não está ocorrendo na maioria dos países. De modo geral, a parte direita da curva tem sido muito maior do que a parte esquerda. Ou seja, a pandemia cresce rapidamente, mas a queda ocorre de maneira mais lenta.

Mas um outro padrão está começando a se generalizar que é o surgimento de uma segunda onda pandêmica. Os países que fizeram lockdown efetivo (quarentena bem restritiva) conseguiram controlar a propagação do coronavírus. Contudo, o cansaço do isolamento, a confiança excessiva no controle da pandemia e o relaxamento das medidas preventivas possibilitou um novo surto pandêmico em diversos países, de diferentes partes do mundo.

Depois de um semestre de grande recessão e aumento do desemprego e das diversas formas de desocupação, a necessidade da retomada das atividades econômicas garante um campo propício para a contaminação do vírus. O fato é que a pandemia continua fazendo vítimas em todos os continentes.

Na França, o primeiro pico da média móvel de 7 dias do número de pessoas infectadas ocorreu em 31/03 com 4.261 casos. Em seguida, o número de contaminados caiu até uma média de 272 casos em 27/05. O número continuou baixo até o final de julho. Mas a curva voltou a subir em agosto e a média móvel chegou a 6.850 casos em 07 de setembro. Portanto, o segundo pico francês já é bem maior do que o primeiro, conforme mostra o gráfico abaixo.

Na Espanha, o pico da média móvel de casos ocorreu em 20/03, com 8.992 casos. A média caiu para 389 casos em 10/05 e se manteve neste patamar até meados de julho. O pico da segunda onda ocorreu em 26/08 com 7.435 casos. Assim, o segundo pico espanhol foi menor do que o primeiro, mas assim mesmo bastante significativo.

Em Israel, o primeiro pico ocorreu em 03/04 com a média de 628 casos. A média caiu para cerca de 15 casos entre os meados de maio e junho. Voltou a subir e a média móvel teve um segundo pico em 28/07 com 1.750 casos. Os números voltaram a cair até meados de agosto, mas voltaram a subir para um terceiro pico em 07/09 com a média de 2.482 casos. Ou seja, Israel já apresenta um terceiro pico muito maior do que os dois anteriores. No dia 07 de setembro o número de casos chegou ao recorde absoluto de 3.331 casos em 24 horas.

Na Austrália o primeiro pico ocorreu em 30/03 com a média móvel de 368 casos. Nos meses de maio e junho a média ficou em torno de 15 casos. Mas o número de pessoas infectadas voltou a subir e atingiu um segundo pico em 05/08 com 552 casos. Portanto, na Austrália, o segundo pico também foi maior do que o primeiro.

Em Cuba, o primeiro pico ocorreu em 23/04 com média móvel de 54 casos. O surto diminuiu até uma média de somente 2 casos em 21/07. Mas em agosto o número de pessoas infectadas aumentou e ocorreu um segundo pico em 03/09 com 59 casos. O segundo pico foi também maior do que o primeiro em Cuba.

Gráfico: Worldometers/Tradução de José Eustáquio Diniz Alves

Na Jamaica o primeiro pico ocorreu em 01/05 com uma média de apenas 23 casos. Os números caíram para uma média de cerca de 5 casos nos meses de junho e julho. Mas em agosto o surto pandêmico aumentou bastante e atingiu um segundo pico em 04 de setembro com 146 casos. Ou seja, o segundo pico jamaicano foi 6 vezes maior do que o primeiro.

Cuba e Jamaica são os países da América Latina (com mais de 1 milhão de habitantes) menos impactos pela pandemia. Mesmo assim, passam por dificuldades, após imaginar que tudo parecia controlado.

Gráfico: Worldometers/Tradução de José Eustáquio Diniz Alves

O gráfico abaixo, do jornal Financial Times, mostra a média móvel do número de casos dos 6 países analisados, mas ponderado pela dimensão demográfica (novos casos por milhão). Nota-se que em todos os casos houve uma segunda onda, que em geral foi maior do que a primeira.

Gráfico: Financial Times

Estes casos – assim como de outros países – servem de alerta para o Brasil, que tem flexibilizado o isolamento social sem tomar os devidos cuidados de prevenção. Aqui também pode ocorrer um repique do número de casos e um espalhamento ainda maior da pandemia.

Referências

ALVES, JED. A pandemia de Coronavírus e o pandemônio na economia internacional, Ecodebate, 09/03/2020. Disponível aqui.

ALVES, JED. A América Latina responde por mais de 40% das mortes da covid-19 há mais de 2 meses, Ecodebate, 24/08/2020. Disponível aqui.

ALVES, JED. A Argentina ultrapassa o Chile e ocupa o 10º lugar no ranking global dos casos da covid-19, Ecodebate, 31/08/2020. Disponível aqui.

Financial Times. Coronavirus tracked: the latest figures as countries start to reopen. The FT analyses the scale of outbreaks and the number of deaths around the world. Disponível aqui.

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