“No jardim que Deus nos oferece, somos chamados a viver em harmonia na justiça, na paz e na fraternidade”, afirma o Papa Francisco

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04 Setembro 2020

“Se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais” (LS, n. 119). Portanto, não haverá nenhuma nova relação com a natureza sem um ser humano novo, e é curando o coração do homem que podemos esperar curar o mundo das suas desordens, tanto sociais como ambientais", afirma o Papa Francisco no discurso que entregou em mãos às personalidades francesas que colaboram com a Conferência Episcopal da França no estudo e implementação da Laudato Si'. A audiência realizou-se no dia 03-09-2020.

O discurso é publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, 03-09-2020. A tradução é de André Langer.

 

Eis o discurso do Papa Francisco.

 

Excelência,

Senhoras e senhores,

Sinto-me feliz em vos receber e desejo-vos as cordiais boas-vindas a Roma. E agradeço-lhe, dom Éric de Moulins Beaufort, por ter tomado a iniciativa deste encontro na sequência das reflexões que a Conferência dos Bispos da França fez em torno da Encíclica Laudato Si’, reflexões das quais participaram muitos oradores empenhados na causa ecológica.

Fazemos parte de uma única família humana, chamados a viver em uma casa comum, cuja degradação perturbadora nós observamos juntos. A atual crise sanitária da humanidade nos recorda a nossa fragilidade. Compreendemos o quanto estamos ligados uns aos outros, inseridos em um mundo cujo futuro compartilhamos, e que maltratá-lo só pode ter consequências graves, não somente ambientais, mas também sociais e humanas.

É uma sorte que a consciência da urgência da situação esteja agora emergindo em todos os lugares, que o tema da ecologia permeie cada vez mais as mentalidades em todos os níveis e comece a influenciar as escolhas políticas e econômicas, mesmo que ainda haja muito por fazer e se assistimos a muita lentidão e até retrocessos. A Igreja Católica, por sua vez, quer ser participante plena do compromisso de salvaguardar a casa comum. Ela não tem soluções prontas a oferecer e não ignora as dificuldades das questões técnicas, econômicas e políticas, nem todos os esforços que este compromisso implica. Mas ela quer agir de forma concreta onde é possível e, sobretudo, educar a consciência para promover uma conversão ecológica profunda e duradoura, a única capaz de responder aos importantes desafios que se apresentam.

Sobre esta questão da conversão ecológica, gostaria de compartilhar com vocês como as convicções da fé oferecem aos cristãos grandes motivações para a proteção da natureza, assim como dos irmãos mais frágeis, porque estou certo de que a ciência e a fé, que oferecem diferentes abordagens da realidade, podem entrar em um diálogo intenso e frutuoso (cf. Laudato Si’, n. 62).

A Bíblia nos ensina que o mundo não nasceu do caos ou do acaso, mas de uma decisão de Deus que o chamou e ainda chama à existência, por amor. O universo é belo e bom, sua contemplação nos permite vislumbrar a infinita beleza e bondade de seu Autor. Cada criatura, mesmo a mais efêmera, é objeto da ternura do Pai, que lhe dá um lugar no mundo. O cristão só pode respeitar a obra que seu Pai lhe confiou como um jardim para cultivar, proteger e desenvolver em suas potencialidades. E se o homem tem o direito de usar a natureza para seus próprios fins, ele não pode de forma alguma acreditar ser o proprietário ou o déspota, mas apenas o administrador que será responsável por sua administração. Neste jardim que Deus nos oferece, os homens são chamados a viver em harmonia na justiça, na paz e na fraternidade, ideal evangélico proposto por Jesus (cf. LS, 82). E quando se considera a natureza apenas como um objeto de lucro e de juros – visão que consolida a arbitrariedade dos mais fortes –, então se rompe a harmonia e surgem graves desigualdades, injustiças e sofrimentos.

São João Paulo II afirmou: “Não só a terra foi dada por Deus ao homem, que a deve usar respeitando a intenção originária de bem, mas o homem, também ele é doado a si mesmo por Deus e, devendo por isso respeitar a estrutura natural e moral de que foi dotado” (Enc. Centesimus Annus, 38). Tudo está, portanto, ligado. É a mesma indiferença, o mesmo egoísmo, a mesma ganância, o mesmo orgulho, a mesma pretensão de se acreditar senhor e déspota do mundo, que conduzem os homens: por um lado, a destruir as espécies e saquear os recursos naturais, e, por outro, a explorar a pobreza, abusar do trabalho de mulheres e crianças, derrubar as leis da célula familiar, deixar de respeitar o direito à vida humana desde a sua concepção até a sua realização natural.

Assim, “se a crise ecológica é uma expressão ou uma manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não podemos iludir-nos de sanar a nossa relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais” (LS, n. 119). Portanto, não haverá nenhuma nova relação com a natureza sem um ser humano novo, e é curando o coração do homem que podemos esperar curar o mundo das suas desordens, tanto sociais como ambientais.

Queridos amigos, renovo meu encorajamento a vós em seus esforços para salvar o meio ambiente. Embora o estado do planeta possa parecer catastrófico e algumas situações até mesmo irreversíveis, nós, cristãos, sempre nos apegamos à esperança, porque nossos olhos estão em Jesus Cristo. Ele é Deus, o Criador em pessoa, que veio visitar a sua criação e morar conosco (cf. LS nn. 96-100), para nos curar, para nos devolver à harmonia que perdemos, harmonia com os irmãos e harmonia com a natureza. “Ele não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente à nossa terra, e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos” (LS, n. 245).

Peço a Deus que os abençoe e, por favor, peço que rezem por mim.

 

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