As petrolíferas estão com problemas e seu plano é inundar a África com plástico

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03 Setembro 2020

Diante de uma crise climática que ameaça a indústria de combustíveis fósseis, as empresas de petróleo se apressaram em fabricar mais plástico.

A reportagem é de Hiroko Tabuchi, Michael Corkery e Carlos Mureithi, publicada por Clarín, 31-08-2020. A tradução é do Cepat.

Essa estratégia tem dois problemas: muitos mercados já têm plástico de sobra e poucos países estão dispostos a ser o lixão que recebe o lixo plástico do mundo. A indústria acredita ter encontrado uma solução para ambos os problemas na África.

De acordo com documentos revisados pelo The New York Times, um grupo da indústria que representa os maiores produtores de produtos químicos e empresas de combustíveis fósseis do mundo está fazendo lobby para influenciar as negociações comerciais entre os Estados Unidos e o Quênia, uma das maiores economias da África.

O objetivo é reverter os rigorosos limites que o país impôs aos plásticos (incluindo uma proibição rigorosa das sacolas plásticas). Também está fazendo lobby para que o Quênia continue importando lixo plástico do exterior, uma prática que se comprometeu em reduzir.

Os fabricantes de plásticos têm seus olhos voltados para além das fronteiras do Quênia. "Esperamos que o Quênia funcione no futuro como um centro de fornecimento de produtos químicos e plásticos de fabricação estadunidense para outros mercados africanos, graças a este acordo comercial", escreveu Ed Brzytwa, diretor de comércio internacional do Conselho Estadunidense de Química, em uma carta datada de 28 de abril, dirigida ao Escritório do representante comercial dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos e o Quênia estão em negociações comerciais plenas, e o presidente queniano, Uhuru Kenyatta, deixou bem claro que está muito interessado em chegar a um acordo.

No entanto, o lobby por trás dos bastidores das empresas de petróleo aumentou a preocupação entre grupos ambientais no Quênia e em outros países que se engajaram em atividades para reduzir o uso e o desperdício de plásticos.

O Quênia, assim como muitos países, luta contra a proliferação do plástico. Promulgou uma lei rígida contra as sacolas plásticas, em 2017, e no ano passado foi um dos muitos países do mundo que assinou um acordo global para suspender a importação de resíduos plásticos (uma convenção fortemente contestada pela indústria química).

Uma consequência inevitável da proposta do Conselho de Química sobre os plásticos “implicará em uma maior presença de plásticos e produtos químicos no meio ambiente", explicou Griffins Ochieng, diretor executivo do grupo sem fins lucrativos para Justiça e Ambiental e Desenvolvimento, com escritórios em Nairobi, que se dedica a resolver o problema do lixo plástico no Quênia. "É alarmante”.

A proposta dos plásticos reflete o fato de que a indústria do petróleo vê seu declínio inevitável devido ao combate global à mudança climática. As receitas despencaram em meio à pandemia do coronavírus e a indústria teme que a mudança climática force o mundo a evitar a queima de combustíveis fósseis.

Os produtores estão fazendo o possível para encontrar novos usos para a superprodução de petróleo e gás. As energias eólica e solar estão se tornando mais acessíveis e os governos estão considerando novas políticas para combater a mudança climática que incluem menos queima de combustíveis fósseis.

Na mudança para os plásticos, a indústria gastou mais de 200 bilhões de dólares em indústrias químicas e de fabricação, nos Estados Unidos, na última década. O problema é que os Estados Unidos já consomem 16 vezes mais plástico do que muitos países pobres, e as medidas para evitar os plásticos de uso único tornaram ainda mais difícil vender um maior volume em casa.

Em 2019, os exportadores estadunidenses enviaram mais de 500.000 toneladas de lixo plástico para 96 países, entre eles o Quênia, supostamente para reciclagem, de acordo com estatísticas comerciais. Infelizmente, a realidade é que grande parte do lixo, que geralmente contém os plásticos mais difíceis de reciclar, acaba nos rios e oceanos.

Para piorar a situação, depois que a China fechou seus portos para a maior parte do lixo plástico, em 2018, os exportadores têm procurado novos aterros. As exportações para a África mais do que quadruplicaram, em 2019, em relação ao ano anterior.

Ryan Baldwin, porta-voz do Conselho Estadunidense de Química, disse que as propostas do grupo abordam a importância global da gestão de resíduos.

A declaração aponta que há "uma necessidade global de apoiar o desenvolvimento de infraestrutura para coletar, classificar, reciclar e processar plásticos usados, particularmente em países em desenvolvimento como o Quênia”.

Essa associação industrial inclui as divisões de operações petroquímicas da Exxon Mobil, Chevron e Shell, bem como as principais empresas químicas, como a Dow.

As negociações estão em seus estágios iniciais e não está claro se os negociadores comerciais adotam as propostas da indústria.

Mesmo assim, as indústrias costumam exercer grande influência na formulação da política comercial, e os lobistas já conquistaram concessões semelhantes no passado.

Em negociações com o México e o Canadá, em 2018, por exemplo, fabricantes de produtos químicos e pesticidas fizeram lobby para que fossem adotados termos que dificultariam a regulamentação das indústrias por esses países, e obtiveram essas concessões.

Nas mesmas conversas, os negociadores, a pedido das empresas estadunidenses do setor de alimentos, também tentaram impor restrições ao México e ao Canadá em relação às advertências ao consumidor sobre os perigos da comida lixo contida no rótulo, mas desistiram do plano frente ao clamor público.

A proposta para o Quênia “realmente causa alarma”, disse Sharon Treat, advogado sênior do Instituto de Política Agrícola e Comercial, um grupo apartidário com mais de 10 anos de experiência em assessoria em negociações comerciais, tanto no governo de Trump como no de Obama. Os lobistas corporativos "geralmente oferecem propostas muito específicas que o governo aceita", comentou.

As propostas da indústria de plásticos também podem dificultar a regulamentação dos plásticos nos Estados Unidos, já que um acordo comercial se aplicaria a ambas as partes.

O Escritório do representante comercial dos Estados Unidos não respondeu aos nossos pedidos de entrevista, nem as listas detalhadas de perguntas enviadas por escrito, tampouco os servidores do Ministério do Comércio do Quênia.

No ano passado, o Quênia foi um dos muitos países do mundo que assinou um acordo global com o objetivo de impedir a importação de resíduos plásticos, convenção fortemente contestada pela indústria química.

E-mails analisados pelo Times mostram que os representantes da indústria, muitos deles ex-servidores do comércio, colaboraram com negociadores dos Estados Unidos, no ano passado, com a intenção de impedir o uso dessas regras.

Da região dos Apalaches a Nairobi

A fábrica de plástico da Royal Dutch Shell, localizada em uma área de mais de 1,5 quilômetros quadrados nas redondezas de Pittsburgh, é considerada a base de um novo centro petroquímico na região dos Apalaches, afetada pelo colapso da indústria do carvão.

Instalações como esta revolucionaram a indústria do plástico ao converter o gás natural do fraturamento hidráulico em material de fabricação de milhões de itens plásticos, como garrafas, sacolas, recipientes descartáveis e canudos, entre tantos outros, aproveitando um suprimento quase ilimitado de gás de xisto barato dos florescentes campos de petróleo e gás dos Estados Unidos.

Entre as comunidades locais, as instalações levantaram preocupações sobre a poluição do ar. Na região dos Apalaches, Texas, e em todo o país, há cerca de 350 novas fábricas de produtos químicos em construção, de acordo com uma contagem da indústria, que juntas representam a aposta de vida ou morte das empresas de petróleo a favor de que os plásticos sejam o futuro da indústria.

Lamentavelmente, agora, a pandemia de coronavírus fez com que não apenas os preços do petróleo e do gás caíssem, mas também dos plásticos. No mês passado, gigantes do petróleo como Shell, Exxon Mobil e Chevron apresentaram alguns de seus piores demonstrativos financeiros da história, por isso alguns analistas questionam se as novas fábricas de plástico atingirão as receitas que as empresas esperam.

Um porta-voz da Shell apontou que enquanto "o horizonte de curto prazo para o setor é complicado", no longo prazo, "os derivados petroquímicos continuarão crescendo e proporcionando retornos atraentes".

Um porta-voz da Exxon Mobil informou que a empresa "compartilha a preocupação da sociedade com o lixo plástico" e planeja investir mais em soluções para acabar com isso.

A Dow disse que qualquer dúvida deve ser encaminhada ao Conselho Estadunidense de Química. A Chevron não respondeu aos nossos pedidos de comentários.

Nesse contexto, Kenyatta visitou a Casa Branca, em fevereiro, mais do que disposto a iniciar negociações comerciais.

No momento, o Quênia pode enviar a maior parte de suas exportações para os Estados Unidos com isenção de impostos, de acordo com um programa regional que, infelizmente, expira em 2025.

A indústria petroquímica percebeu uma abertura.

A Exxon Mobil previu que a demanda global por produtos petroquímicos pode aumentar quase 45% na próxima década, significativamente mais rápido do que o crescimento econômico global e a demanda por energia. Espera-se que a maioria provenha dos mercados emergentes.

Daniel Maina, fundador da Rede de Conservação Kisiwani, em Mombasa, Quênia, observou que as negociações comerciais começaram em um momento especialmente vulnerável, quando o Quênia estava começando a sentir os efeitos econômicos da pandemia. "Se tentarem nos forçar a aceitar esse tipo de acordo, temo que seremos presas fáceis", disse.

 

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