Os caçadores da “arca perdida” em Trisulti na sombra de Bannon

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04 Setembro 2020

O que está acontecendo na Cartuxa de Trisulti depois da prisão por fraude e lavagem de dinheiro de Steve Bannon – liberado após o pagamento de uma fiança de “apenas” 5 milhões de dólares?

A reportagem é de Paola Rolletta, publicada em Il Manifesto, 29-08-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Benjamin Harnwell, cada vez mais sitiado dentro da Cartuxa de Trisulti, após a prisão de seu mentor, Steve Bannon, líder supremacista-soberanista, está preocupado. “É claro – admite – que se trata de um duro golpe contra a sua reputação, mas também estou firmemente convencido da sua inocência.”

“É evidente – acrescenta – que nos encontramos diante de uma montagem, de um ataque político, como aquele desferido contra mim pela esquerda na Itália. Eles querem fazer perder tempo, dinheiro e energia para responder nos tribunais pelas nossas ideias políticas.”

Quem está em apuros não é apenas Bannon. O seu “encarregado” nas terras da cartuxa, com o objetivo de criar uma base para a propaganda das suas teorias soberanistas – que têm em Giorgia Meloni e em Matteo Salvini os corifeus italianos –, tem os seus próprios problemas judiciais, como se sabe.

A adjudicação da disputa pela gestão da cartuxa, esplêndido e prestigioso complexo de abadias situado no coração dos montes Ernici, a 70 quilômetros de Roma, solicitada pelo Ministério dos Bens Culturais, após o abandono dos monges cistercienses de Casamari, só lhe trouxe problemas e corre o risco de se transformar em uma vitória de Pirro.

De fato, Harnwell, representante legal do Instituto Dignitatis Humanae, de Bannon, a associação fundamentalista católica vencedora do anúncio ministerial em 2016, foi chamado a responder perante os magistrados por dois crimes penais, falsidade ideológica e impedimento licitatório, e a se defender da acusação, por parte do Tribunal de Contas, de prejuízo ao erário público por não ter pago a anuidade prometida pelo uso da cartuxa.

Enquanto isso, aproxima-se a decisão do Conselho de Estado sobre a anulação da concessão solicitada pelo ministério, convencido por denúncias jornalísticas detalhadas a refazer os seus passos devido às inúmeras irregularidades que surgiram na documentação enviada à comissão julgadora.

À espera do que vai acontecer, a cartuxa, após a conclusão do confinamento, foi reaberta para as visitas guiadas e voltou a receber os turistas que, por 5 euros o bilhete, visitam as belezas deslumbrantes desse patrimônio do Estado italiano.

Uma mão foi dada pelo vice-prefeito de Collepardo, que – “triste” com as portas trancadas da abadia, mas apesar dos acontecimentos judiciais e dos desígnios políticos cada vez mais descobertos que estão sendo jogados em Trisulti – achou por bem se armar com cortador de grama e vassoura, para dar apresentabilidade ao lugar, fazendo as vezes de “Beniamino”, como todos chamam familiarmente na região o aluno de Bannon, que, sobre o assunto da manutenção, muda de assunto, preferindo lembrar a sua paixão pelo estudo do grego antigo e do hebraico no qual ele afirma ter imergido.

Mas não pagaram o bilhete os seis frades Franciscanos da Imaculada que, no domingo passado, celebraram a missa com o rito tridentino na capela da cartuxa, autorizados por Harnwell sem consultar – como apuramos – o bispo local, a única autoridade religiosa que tem o poder de permitir a celebração da missa na diocese. Um desafio de contornos preocupantes.

A carteira de identidade dos seis frades, com seu hábito cinza, revela, de fato, outro aspecto inquietante da história e oferece mais uma prova da “manobra” contra o Papa Francisco (e não só) da qual o Instituto Dignitiatis Humanae pretendia lançar as bases nas grandes salas da antiga abadia.

Trata-se, de fato, de frades que saíram do Instituto dos Frades Franciscanos da Imaculada, uma congregação comissionada desde 2013 sobre a qual pesam investigações por escândalos financeiros, práticas de pouca ortodoxia e vínculos com grupos de tradicionalistas católicos, os mesmos que sitiam a Igreja de Francisco.

O cardeal Raymond Leo Burke era um convidado regular da congregação fundada em Frigento (Avellino), assim como o cardeal Walter Brandmüller. Burke, além de ser um dos principais expoentes da ala ultraconservadora da Igreja, é também um dos principais opositores do atual pontífice. Em 2016, ele foi um dos quatro cardeais que assinaram as “dubia”, o documento no qual é contestada a decisão do papa sobre a legitimidade da comunhão para os casais divorciados e recasados.

Junto com o cardeal alemão Walter Brandmüller, ele escreveu uma carta aberta aos presidentes dos episcopados por ocasião do congresso sobre pedofilia, criticando a escolha do Papa Francisco de focar o debate apenas na pedofilia e não na homossexualidade presente na Igreja.

Por fim, não devemos esquecer os ataques frontais contra o Papa Bergoglio também por ocasião do Sínodo da Amazônia, considerado “herético”.

Nenhum político da direita italiana fez comentários sobre o caso de Trisulti. Nem mesmo hoje, à luz da prisão de Bannon por causa do iate do dissidente bilionário chinês Guo Wengui. A mesma pessoa que, poucas semanas após o fim do prazo do acordo provisório sino-vaticano (21 de setembro), acusou a Santa Sé de aceitar subornos de Pequim. Nenhuma palavra de apoio a Steve Bannon, no qual muitos acreditavam, devido ao seu sonho de uma Internacional soberanista-supremacista.

A sua prisão representa o fracasso de uma trama, e, por conveniência política, todos se distanciam de Trisulti ou se calam. Talvez porque ela se tornou a encruzilhada da estratégia de fogo cruzado dentro e fora dos muros vaticanos, apesar do calibre duvidoso do personagem a quem o Estado italiano a entregou, descuidadamente.

É claro que todos se lembram do que acontece no fim do filme “Indiana Jones e os caçadores da arca perdida” com os soldados nazistas: em Trisulti, como uma metáfora, os rostos desses personagens de baixo nível estão se derretendo como os rostos dos nazistas quando lamentavelmente descobriram a Arca da Aliança.

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