Raymond Leo Burke: um cardeal rebelde?

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18 Fevereiro 2015

Desde o inicio do pontificado do Papa Francisco, o cardeal Raymond Leo Burke se tornou – voluntariamente ou não – o representante dos Bergoglio-céticos, pronunciando de modo inédito para um prelado de seu nível críticas abertas ao soberano Pontífice. A recente entrevista concedida a France 2 pelo cardeal americano desencadeou reais interrogações e provocou certo mal-estar, enquanto a língua dos opositores a Francisco se dissolve pouco a pouco.

A reportagem é de Marie Malzac, publicada pela sítio da revista francesa La Vie, 13-02-2015.

Mas, o que disse exatamente o alto prelado ao jornalista do programa 13h15 de domingo na TV France 2?

A entrevista é realizada em Roma nos apartamentos do cardeal.

“Devo agora habituar-me a um novo Papa...”, sublinha acima de tudo o cardeal americano, depois de ter feito o elogio de Bento XVI. Depois chega o problema controverso.

“Eu não posso aceitar que se dê a comunhão a casais que não sejam casados na Igreja. Porque sua união irregular é um adultério”, corta curto o cardeal Burke.

“Quanto aos homossexuais, prossegue, eles não têm nada a ver com o matrimônio. É um sofrimento ser atraídos por uma pessoa do mesmo sexo. É contra a natureza”.

E se o Papa devesse prosseguir numa linha de abertura? Pergunta então a jornalista.

“Resistirei. Não posso agir de outra forma”, deixa escapar o alto prelado com ar resignado, antes de acrescentar: “É um período difícil, sem dúvida alguma. Mas, o Senhor nos assegurou, como assegurou a Pedro no Evangelho, que as forças do mal não prevalecerão”, sublinha o cardeal Burke, sem precisar quem sejam as forças do mal evocadas.

“É em todo o caso um amigo seu o Papa?”, pergunta enfim a jornalista.

“Não quereria que se tornasse meu inimigo”, responde o alto prelado com um sorriso.

No Sínodo, líder da oposição,

Não é a primeira vez que o cardeal Burke se mostra crítico ante o Papa Francisco.

Certamente, France 2 acrescentou algo seu: os cortes da transmissão e a montagem fazem com que esta oposição declarada apareça de modo quase caricatural. Mas, o alto prelado americano conhece bem o funcionamento da mídia.

Já há tempo o alto prelado se tinha feito notar declarando que o Papa Francisco era demasiado pouco atento aos temas da vida. Em seguida à publicação da Evangelii Gaudium, o cardeal Burke havia declarado ao canal americano EWTN:

“Tem-se um pouco a impressão, ou então é interpretado neste sentido pela mídia, que o Papa pense que falamos demais de aborto e da integridade do matrimônio entre um homem e uma mulher. Mas jamais poderemos falar o suficiente destes problemas!”

Mais recentemente, durante o Sínodo dos bispos sobre a família, o cardeal Burke se colocou em evidência, fazendo-se líder da oposição à mudança de tom sobre certos temas sensíveis, do debate sobre a comunhão aos divorciados redesposados à acolhida das pessoas homossexuais na igreja.

Elevado ao símbolo dos mais conservadores. Já excluído pelo Papa da potente Congregação dos bispos, o cardeal Burke tinha sido recuado ao mesmo tempo de prefeito do Tribunal da Subscrição Apostólico ao papel de cardeal patrono da Ordem de Malta, uma posição que alguns consideram como um acantonamento. No ambiente felpudo do Vaticano, esta saída de cena havia suscitado muita tagarelice.

Para uma parte dos católicos, a liberdade de expressão de um cardeal é embaraçosa, porque parece recolocar em discussão a força da hierarquia e o papel de referimento absoluto do Pontífice. Mas outros se reconhecem nas dúvidas expressas pelo alto prelado. O Sínodo e suas confusões midiáticas, depois a famosa frase sobre os “coelhos” pronunciada pelo Papa no avião na viagem de retorno de Manila, acabaram por semear turbamentos no ânimo de alguns fiéis. Das “quedas de tom”, para o abade Pierre Amar, um dos autores do blog muito seguido Padreblog, mas que não recolocam por nada em discussão o conteúdo da mensagem da Igreja.

No interior da Cúria, a lealdade proíbe a muitos de formularem qualquer crítica, enquanto para outros, a palavra é liberada. Alguns prelados não hesitam mais em confiar as próprias dúvidas e as próprias irritações ao exterior, aos jornalistas.

Para Patrice de Plunkett, jornalista e atento observador do catolicismo francês e dos temas vaticanos, “círculos integralistas extremistas cavalgam a onda deste mal-estar para adquirir ascendência sobre uma parte do ambiente católico conservador”. Atribuem-se ao Papa intenções progressistas para afirmar, em seguida, que é preciso salvar a Igreja”, precisa.

“É um fenômeno limitado à França e aos Estados Unidos, considera todavia, onde o Cardeal Burke há vários meses é elevado a símbolo, de modo oblíquo mas perceptível, dos sites e da mídia da corrente “conservadora”, sensíveis às questões litúrgicas e da moral sexual, mas também, pelo menos alguns deles, muito ligados ao liberalismo econômico que o Papa critica.

Falando à TV francesa, o cardeal Burke se dirige entrementes a um público potencialmente receptivo às suas palavras.

Qual o espaço para as opiniões “dissidentes”?

Para Massimo Faggioli, teólogo italiano residente nos Estados Unidos há vários anos, a situação atual constitui um paradoxo.

“Um cardeal deveria ser leal ao Papa e ante toda a igreja, mas parece que o cardeal Burke seja leal somente perante certo tipo de igreja”, sublinha.

Segundo o professor Faggioli, não há verdadeiros antecedentes.

“Durante o Concílio Vaticano II havia, sim, uma ala conservadora resistente a qualquer mudança, mas o tom era diferente, explica ele, como também a qualidade do sistema de informação e da opinião pública no interior da Igreja. Paradoxalmente, esta era mais bem informada em relação aos dias de hoje. A blogosfera católica, a rede, que criou sistemas fechados, favorece o reforço de opiniões já consolidadas, e o cardeal Burke é perfeito para este tipo de sistema de informação”.

Patrice de Plunquett não cai em sutilezas. “As afirmações do cardeal Burke em 2015 são aquelas do Mons. Lefebvre em 1975, antes de sua progressiva ruptura com Roma”, afirma. O cardeal Burke diz que quer resistir, “é o primeiro passo para a derrapagem”. “Mons. Lefebvre não desejava separar-se de Roma: foi progressivamente impelido a isso pelo ambiente que o havia colocado como líder. Constata-se que os mesmos elementos se estão cristalizando em torno do cardeal Burke”, sintetiza.

Outros procuram mitigar. Para Andrea Tornielli, vaticanista referencial na Itália, é “de todo exagerado” falar de um “novo Mons. Lefebvre”. “O cardeal Burke procura evidentemente tomar distância do Papa Francisco, é provavelmente solicitado neste sentido, mas isto é tudo”, sublinha o jornalista.

Mesmo tom nas palavras do abade Amar. O cardeal “simplesmente disse diante das telecâmeras que teria defendido a doutrina da Igreja, o que é o mínimo, mas não disse que se teria oposto pessoalmente ao Papa”, sustenta o jovem padre muito influente na “cattosfera”.

Não obstante tudo, aos olhos de Andrea Tornielli, “o risco de um cisma silencioso não é uma novidade; sempre houve oposições subterrâneas na história do papado”.

Esta "fronda", inédita pela forma, coloca o problema do espaço para as opiniões “dissidentes” no interior da Igreja, mas também do respeito filial e da obediência devida ao Pontífice. Essa é também certamente sintomática de uma mudança de estilo pontifício. Com seu modo de falar muito direto, o Papa Francisco encorajou a liberdade de palavra, que também pode retorcer-se contra ele. Os seus predecessores não tinham por certo menos inimigos, mas eram menos identificáveis e mais silenciosos.

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