Leigos e leigas se aliam para pedir a reforma da Igreja

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15 Agosto 2020

Moral sexual, lugar das mulheres, colegialidade no exercício do poder... Os católicos e católicas estão se organizando para colocar essas questões sobre a mesa e, assim, levar a instituição a mudar.

A reportagem é de Cécile Chambraud, publicada por Le Monde, 15-08-2020. A tradução da versão italiana é de Moisés Sbardelotto.

Para alguns católicos, chegou a hora de reformar o governo da sua Igreja. De origens muito diferentes, em grupos ou cada um por conta própria, cada vez mais leigos e leigas pedem uma atualização.

Embora a Igreja tenha sido abalada como nunca antes há cinco anos, pelo acúmulo de revelações sobre as violências sexuais e os abusos de consciência cometidos por eclesiásticos, esses católicos e católicas decidiram agir para levar a instituição à mudança.

Eles estão convencidos de que os abusos têm causas sistêmicas, que o papa Francisco agrupa sob o termo “clericalismo”, um poder desproporcional e quase exclusivo dado ao clero, ou seja, aos homens ordenados.

Lugar das mulheres, papel dos leigos, colegialidade no exercício do poder, natureza dos ministérios, moral sexual: todas essas questões estão sobre a mesa para esses fiéis convencidos de que o status quo não é mais sustentável. Alguns começaram a se organizar para serem ouvidos pelos bispos antes do Sínodo que será realizado em Roma em outubro de 2022.

“Um fechamento propício aos abusos”

Em maio, a teóloga Anne Soupa surpreendeu a muitos ao apresentar a sua candidatura à sucessão do cardeal Philippe Barbarin ao cargo de arcebispo de Lyon, um ministério reservado pelo direito canônico a um homem ordenado.

A biblista chegou à conclusão de que a provocação é o único modo de sacudir uma instituição que custa a abrir espaço ao debate dentro dela. De fato, não existe nenhum órgão nacional para organizar o debate e, ao contrário do que existe, por exemplo, na Alemanha, não há uma representação dos leigos e leigas como tais.

Com o seu gesto, a escritora de 73 anos protestou contra a exclusão das mulheres dos cargos de governo da hierarquia eclesial – padre à frente da paróquia, bispo à frente da diocese. Ela também queria denunciar um “fechamento (masculino) propício aos abusos”.

Trata-se, particularmente, aos quatro bispos sucessivos de Lyon que não denunciaram à Justiça as agressões sexuais contra jovens escoteiros cometidas pelo assistente Bernard Preynat durante 20 anos, nos anos 1970 e 1980. Julgado culpado por um tribunal eclesiástico em julho de 2019, ele foi condenado pela Justiça a cinco anos de prisão em março, mas recorreu.

Seguindo o exemplo de Anne Soupa, em julho, outras sete mulheres apresentaram a sua candidatura para diversas funções reservadas a homens (diácono, padre, pároco, pregador, núncio...).

Outros leigos, horrorizados com essas revelações, escolheram métodos menos veementes, mas, mesmo assim, decidiram agir para reformar o governo da Igreja Católica. Eles se sentiram encorajados para isso a partir de uma carta do papa Francisco dirigida, em agosto de 2018, ao “povo de Deus” – portanto a todos os fiéis – e que tinha como tema as violências sexuais e espirituais.

O pontífice argentino destacou a ligação entre os abusos e “um modo anômalo de entender a autoridade na Igreja”, o “clericalismo”. “É necessário que cada batizado se sinta envolvido na transformação eclesial e social de que tanto necessitamos”, escreveu ele aos fiéis.

Em 2019, uma série de acontecimentos contribuíram para desacreditar a instituição: a demissão do estado clerical do cardeal estadunidense Theodore McCarrick por agressões sexuais contra menores; acusações de assédio sexual contra o núncio da Santa Sé na França; lançamento do filme “Grâce à Dieu”, de François Ozon, sobre as vítimas do Pe. Preynat; publicação do livro “No armário do Vaticano” (Ed. Objetiva, 2019), de Frédéric Martel, sobre a homossexualidade no Vaticano; a transmissão no canal Arte de um documentário sobre os estupros de freiras por padres; a condenação na Austrália do cardeal George Pell, número três do Vaticano, por agressão sexual contra um menor (posteriormente absolvido).

Diante dessa sucessão de fatos desastrosos, alguns fiéis decidiram esclarecer as coisas. O jornal católico La Croix e o semanário Le Pèlerin lançaram uma pesquisa com os seus leitores. O conteúdo das 5.000 respostas foi publicado em um livro, Réparons l’Eglise (Bayard, 130 páginas), publicado em fevereiro.

A Conférence Catholique des Baptisé-es Francophones publicou no seu site a sua própria investigação, intitulada Les cathos face au cléricalisme”.

Correntes diferentes

Grandes associações e movimentos católicos também decidiram se comprometer. Tais organizações, dirigidos por leigos e leigas, certamente contribuem para a influência e o prestígio da Igreja Católica, à qual estão ligados organicamente, mas não fazem parte do seu governo.

Depois da publicação da “Carta ao Povo de Deus”, o Secours Catholique, o CCFD-Terre Solidaire e o DCC-Délégation Catholique pour la Coopération foram os primeiros a se decidirem a passar para a ação, e depois outros se juntaram a eles. Hoje, eles formam um grupo de cerca de 40 movimentos, batizado de Promesses d’Eglise.

“Dentro de várias associações, sentimo-nos interpelados”, afirma Guillaume Nicolas, delegado geral do DCC. “Nas nossas organizações, também enfrentamos essas questões [de governo e de prevenção dos abusos], o que nos permite ter um olhar pertinente sobre a governança da própria Igreja.”

“Partimos das nossas práticas”, insiste Nicolas Truelle, diretor geral da fundação Apprentis de Auteuil, que ajuda jovens em situação de fragilidade. “Não pretendemos dar lições, mas as experiências nas nossas estruturas nos ensinaram a importância de ouvir a palavra dos jovens para evitar os riscos da dominação, do excesso de influência, do abuso. Podemos oferecer um ‘know-how’ para chegar a algo em que a palavra de cada um conte.”

Logo ficou claro aos promotores, muitas vezes inseridos na esfera do catolicismo social, que o seu grupo teria mais peso se incluísse correntes diferentes. “Se quisermos nos mobilizar eficazmente, devemos estar abertos a todas as sensibilidades da Igreja”, resume Dominique Rouyer, secretária nacional do CCFD-Terre Solidaire.

Com efeito, entre os participantes, também se encontram comunidades da Renovação Carismática, como as do Emmanuel ou do CheminNeuf, ou ainda Les Associations Familiales Catholiques, provenientes de horizontes mais conservadores ou tradicionais da geografia católica.

“Nós queremos que o modo como vivemos o nosso grupo seja o sinal da Igreja que queremos, na qual cada um tem o seu espaço”, insiste Dominique Rouyer.

A contrapartida, reconhece a secretária nacional do CCFD-Terre Solidaire, é que o trabalho avança “lentamente, para fazer com que todo o progresso seja feito juntos”.

“É o caminho do reformismo e dos pequenos passos”, retoma Monique Baujard, ex-diretora do Serviço Família e Sociedade da Conferência dos Bispos da França, que faz parte do comitê diretivo da Promesses d’Eglise.

No dia 15 de outubro, uma assembleia plenária deverá permitir a adoção da “carta” do grupo e o lançamento de um site. Outra assembleia, no dia 1º de dezembro, deverá definir o tipo de governança.

Desconfiança

A outra decisão foi trabalhar “de mãos dadas” com o episcopado. “Todos os nossos movimentos estão estruturalmente ligados a um bispo ou a uma congregação”, recorda Nicolas Truelle. “Queremos dar espaço para esse vínculo orgânico com a Igreja.”

Isso não impede que alguns bispos demonstrem falta de confiança e de compreensão para com essa mobilização dos leigos e leigas. O novo presidente dos bispos franceses, Eric de Moulins-Beaufort, convidou dois representantes do grupo a explicarem o seu projeto, em Lourdes, em novembro de 2019. Dois bispos foram delegados a acompanhar os seus trabalhos, François Fonlupt, bispo de Rodez, e Dominique Blancher, vice-presidente da Conferência Episcopal.

“Não estamos tentando tomar o poder”, argumenta Guillaume Nicolas, “mas sim compartilhar o fardo. A Igreja está vivendo uma crise. Hoje, são os bispos que carregam o peso. Nós estamos dizendo a eles: enfrentamos os mesmos problemas que vocês nas nossas organizações. Trabalhemos juntos!”

A iniciativa começou após as graves revelações sobre as violências sexuais, mas pretende abordar todos os aspectos da governança. “O lugar das mulheres na Igreja faz parte do problema mais amplo da participação de todos aqueles que hoje vivem com desconforto na Igreja, jovens, pobres, excluídos. Precisamos dar espaço para todos os que precisam”, afirma Dominique Rouyer. E “permitir que os leigos saiam de uma situação de proteção”, acrescenta Monique Baujard.

Para conseguir isso, os participantes adotaram um conceito central do pontificado de Francisco: a sinodalidade. A palavra não aparece no glossário do site da Conferência dos Bispos da França, mas designa um funcionamento colegiado que permite que todos “caminhem juntos”, como sugere a sua etimologia.

É por isso, por exemplo, que o papa argentino adotou como regra consultar os fiéis de todo o mundo sobre um determinado assunto, antes de reunir os bispos em Roma para discuti-lo. Ele fez isso a respeito da família, dos jovens, da Amazônia. E agora ele convocou em Roma, para outubro de 2022, um Sínodo dos bispos sobre... a sinodalidade. Os membros do Promesses d’Eglise naturalmente têm a intenção de alimentar a consulta que o precederá.

Eles não serão os únicos. Um grupo de fiéis, entre eles o ex-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional, Michel Camdessus (1987-2000), por exemplo, dirigiu aos cerca de 120 bispos franceses, na quarta-feira 12 de agosto um texto intitulado “Transformar a Igreja Católica”. Nesse texto, eles propõem a organização de “Estados gerais” que incluam bispos e leigos, para preparar a Igreja de amanhã, depois da “grande prova” que ela está vivendo.

“Abalados com as notícias sobre os abusos sexuais, quisemos refletir sobre o problema sistêmico do governo da Igreja”, explica um alto funcionário. “É um primeiro gesto para que algo mude, para que os cristãos se desclericalizem. Podemos oferecer as nossas experiências, sobretudo internacionais. O peso da clericalização, que remonta há muito tempo, é tal que os fiéis foram expropriados da sua liberdade e das suas responsabilidades. Mas toda crise tem o seu lado de oportunidade. Devemos aproveitá-lo. A Igreja deve retomar o programa do Vaticano II rumo à colegialidade e à sinodalidade.”

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