Classe média, o ator perdido. O socialismo liberal na crise da democracia. Artigo de Massimo Cacciari

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04 Julho 2020

É necessário se interrogar se o desígnio do “socialismo liberal” ainda pode valer na ausência daquela cultura política à qual ele se referia explicitamente – isto é, na ausência daquela burguesia que queria ser a sua realização e intérprete. É suficiente olhar ao redor para ver que ela não existe mais. Os atuais Parlamentos – não apenas na Itália – são o espelho clamoroso do seu desaparecimento.

O comentário é de Massimo Cacciari, filósofo italiano e ex-prefeito de Veneza, em artigo publicado por La Repubblica, 03-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

O que indica a expressão “socialismo liberal”? Hoje, é realmente urgente redescobrir o seu significado?

Historicamente, socialismo e democracia liberal absolutamente não formam um casal de convivência pacífica. A expressão rosselliana representa, antes, uma provocação cultural e política, e é preciso estar bem ciente disso.

O movimento socialista nasce a partir de reivindicações de crítica radical à democracia liberal, considerada puramente formal, administração e conservação de intoleráveis desigualdades de fato. O fato de as suas lutas serem o fator fundamental do processo de democratização e da formação dos modernos Parlamentos representativos, com o surgimento das massas metropolitanas como protagonistas da vida dos Estados, não deve ocultar aquele antagonismo original.

Nas suas origens, o movimento socialista avaliou o “parlamentarismo” como um caminho para a superação da “democracia burguesa”. Quando uma parte dele chegou a afirmá-lo como o terreno definitivo do debate e da luta política, em vez disso, a “família” socialista se dividiria irreversivelmente.

A expressão “socialismo liberal”, portanto, significa não uma mediação entre “socialismo” e “liberalismo”, mas sim a superação do seu significado original. Na expressão, o socialismo não é mais socialismo, e o liberalismo não é mais liberalismo. Somente se ambos forem capazes de uma metamorfose interna, é que poderão dar origem a um equilíbrio político efetivamente novo.

O socialismo se “autocritica” no seu aspecto crucial: que, para combater desigualdades de classe e injustiças sociais, o Estado deve desempenhar o papel absolutamente fundamental de programação e governo da vida econômica.

O “socialismo liberal” assume as impiedosas profecias dos grandes liberais entre os séculos XIX e XX: pretender colocar o Estado no comando das potências técnico-econômico-financeiras que decidem sobre a sociedade contemporânea levará à pior das “gaiolas de aço”: a de uma burocracia partidária onipresente e mais autoritária do que o mais obtusa dos patrões.

O pensamento liberal, por sua vez, se “autocritica” sobre a fisiológica utopia ou, melhor, ideologia que a caracterizou: que a racionalidade própria do mercado, da troca econômica, do contrato pode se erguer como modelo ou paradigma da relação social , “desautorizando” pouco a pouco a necessidade da intervenção e da função do político.

Os autênticos liberais devem se tornar protagonistas de uma luta política, para que a democracia assuma cada vez mais o aspecto de uma democracia progressista, superando o perigo, sempre à espreita, representado por um socialismo estatista.

Os socialistas, por sua parte, lutam em concorrência com os liberais, para que estes últimos assumam a plena responsabilidade na construção de uma democracia capaz de remover as raízes históricas das desigualdades, de garantir a mobilidade social, de reconhecer a crescente demanda por direitos, característica, goste-se ou não, da cultura contemporânea, e de tentar corresponder a ela.

Mais do que indicar um programa partidário, o “socialismo liberal” concebe os dois termos, cada um conjugado assim, como sístole e diástole de um único organismo ou, melhor, como o terreno político comum no qual cada concorrente terá que se medir no futuro, se quiser estar à altura da época.

Esse encontro, que absolutamente não exclui, mas implica debate e competição, a possibilidade de que ele ocorra e determine o processo democrático, no entanto, revelam pressupostos formidáveis de ordem cultural e social. O socialismo e o liberalismo de que se fala aqui se apresentam, precisamente no seu dissídio convergente, como o fruto mais maduro de uma grande tradição cultural burguesa, que encontra as suas raízes em um certo Iluminismo, em uma ética do trabalho concebido como profissão, fundado na renúncia a qualquer manifestação egoísta do próprio interesse e maximamente atento aos efeitos gerais de toda ação ou empreendimento.

Essa cultura política é chamada a governar o processo de democratização, para que ele não se afunde no pântano da demagogia e do nacionalismo, e possa ao mesmo tempo manter a sua promessa fundamental: constituir o regime mais favorável ao crescimento econômico e ao bem-estar comum, no sentido mais amplo do termo.

É uma cultura do trabalho, da responsabilidade e dos sacrifícios, dos direitos e dos deveres. Quem for chamado para funções de governo deverá, de acordo com o “socialismo liberal”, ter sido selecionado de acordo com tais princípios. E estes também deverão valer para o empresário-inovador. A democracia funciona e dura, para essa visão, apenas se for regida por uma elite desse tipo. Uma perspectiva exatamente oposta às tendências que se afirmaram ao longo dos últimos 30 anos.

É realista ou, melhor, necessário, portanto, se interrogar se o desígnio do “socialismo liberal” ainda pode valer na ausência daquela cultura política à qual ele se referia explicitamente – isto é, na ausência daquela burguesia que queria ser a sua realização e intérprete. É suficiente olhar ao redor para ver que ela não existe mais. Os atuais Parlamentos – não apenas na Itália – são o espelho clamoroso do seu desaparecimento.

A ideia permanece, mas não há mais ninguém que possa encarná-la. Quem devia encarná-la foram varridos pela recomposição de classe que a globalização impôs e pela prepotente afirmação de um “capitalismo político” dentro dos grandes Impérios, mas, talvez, antes ainda e sobretudo pelo colapso do peso econômico e político da classe média. A cultura do “socialismo liberal” se fundamenta no crescimento constante, não só quantitativo, desta última e apela às esperanças que a animam. É uma geração inteira que as nossas democracias estão indo na direção oposta. A classe média entra em colapso na distribuição de renda e nas suas expectativas de promoção social.

O fato de que tal situação pode produzir vontades políticas e sérios projetos de reforma, de que uma perda geral de status da classe média pode desembocar em novas formas de organização, superando a fase demagógico-protestatária, é uma ilusão piedosa. Ela produz os Trump, não os Brandt, nem os Mitterand, nem mesmo os Kohl.

Para que se possa dar novamente um sentido ao “socialismo liberal”, é necessário, portanto, superar a passagem estreita, passar pelo buraco da agulha – isto é, inverter a impetuosa corrente da proletarização da classe média. A crise pela qual estamos passando – e dentro de cujo vórtice nos encontraremos em alguns meses – acelerou dramaticamente essa tendência. As medidas que forem tomadas nos próximos meses soarão, receio, como o último apelo.

Ou o governo será capaz de pensar neles no contexto histórico que eu tenho me esforçado para indicar, ou não apenas desaparecerá qualquer possibilidade de dar um sentido ao “socialismo liberal”, mas também se tornará irreversível a crise da nossa própria democracia representativa.

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