Bispos da América Latina lidam com o confinamento pelo coronavírus

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29 Abril 2020

Depois de um vídeo com fiéis pedindo aos bispos que “devolvam-nos a missa” após celebrações religiosas públicas serem suspensas em decorrência da pandemia de coronavírus Covid-19, vários prelados argentinos responderam, com um deles dizendo que considerava a campanha “barulhenta”.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 28-04-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Quando os pedidos de reabertura das igrejas se multiplicam na América Latina, muitos bispos insistem em que “a Igreja não está fechada”, mas discordam sobre a melhor maneira de proceder, com a maioria simplesmente seguindo as autoridades civis.

Dom Eduardo Garcia, bispo da Diocese de San Justo, na Argentina, diz que o vídeo “fez barulho, muito barulho”.

Em um artigo publicado no Diario Clarin, um dos principais jornais do país, ele afirma que, nestes tempos de Covid-19, “a Igreja e os cristãos devem dar o testemunho daquela dedicação generosa movida pelo amor aos que mais sofrem, criando ambientes de calma, serviço e esperança”.

“Com relação ao coronavírus, parece que a suspensão de atividades, incluindo as celebrações religiosas públicas, não da missa em si”, para impedir a possível infecção da congregação, é vista por uns como “arbitrária, quando não é”, ele escreveu.

“Nesse momento, mais do que nunca, aplicam-se as palavras do papa Francisco: ‘a Igreja como hospital de campanha’. Talvez porque eu esteja olhando a questão a partir da realidade social de minha diocese, localizada em La Matanza, onde, embora os casos de coronavírus ainda sejam poucos, tivemos de assumir e executar a quarentena em nossos bairros mais vulneráveis da melhor maneira possível ”, afirmou Garcia.

La Matanza é uma cidade da Grande Buenos Aires, a segunda maior cidade da região e lar de muitas favelas da Argentina.

García defendeu que, embora respeite a “angústia vivida por muitas pessoas por não poderem receber a Comunhão”, ele também se mostrou impressionado e se perguntou se essas mesmas pessoas sentem também alguma angústia semelhante por “não poderem sair para prestar ajuda em um serviço de primeiros socorros, ou auxiliar alguém idoso que se encontra isolado”.

“Também ouvi dizer que estes fiéis sentem que sua fé está enfraquecida por não poderem receber a Comunhão. Então eu me pergunto: os mártires encarcerados do século passado e deste século que não podiam acessar a missa em seus cativeiros e que deram suas vidas, como eles faziam? A fé deles era robusta a ponto de aceitarem os açoites, a fome, a humilhação e a morte ”, afirmou. ‘Deus nunca nos abandona”.

García escreveu também que acredita firmemente na presença de Deus na Eucaristia, “centro e culminação da vida cristã”, mas também em uma comunidade que “celebra e se fortalece para viver a vida a serviço dos demais”, sem enxergar os sacramentos como “serviços de autoatendimento da graça ou como uma vitamina C da vida espiritual”.

“Reabrir aos poucos os templos será de pouca utilidade se não houver uma reabertura radical da Igreja diante da realidade, sem a complacência pseudorreligiosa egocêntrica”, disse ele.

No Brasil, país que ainda vê crescer o número de mortes diárias devido ao coronavírus, o governo decidiu que, em alguns estados, as igrejas podem reabrir e as missas podem ser retomadas. Mas, nesses casos, uma série de medidas devem ser seguidas. Embora sejam diferentes nas várias regiões, todas incluem o uso obrigatório de uma máscara facial, um limite de 30% da capacidade e o uso obrigatório de desinfetante para as mãos.

Enquanto isso, no México, o secretário-geral da conferência episcopal, dom Alfonso Miranda, recomendou, no Twitter, um artigo publicado no periódico Vida Nueva, escrito por Antonio Gómez Cantero, de Teruel e Albarracín, na Espanha.

No texto, intitulado “Prudência episcopal medrosa”, o bispo espanhol contesta as declarações vistas nas mídias sociais segundo as quais, ao fechar as igrejas, o governo estaria impondo um “secularismo radical” à comunidade cristã.

“Não se impõe o secularismo”, escreveu ele. “Nem mesmo nos países ditatorialmente ateístas se conseguiu destruir as comunidades cristãs”.

Gómez escreveu que alguns padres pediram a reabertura das paróquias, recusando-se a usar a palavra “igreja”, pois “a Igreja está em cada um de nós e ainda está aberta”.

“Nós somos o Corpo de Cristo! Embora eu não saiba se acreditamos plenamente nisso”, disse Gómez. “Certamente, se orarmos um pouco mais sobre esse mistério, acabaremos mais comunitários, apesar do fato de as nossas paróquias permanecerem fechadas devido a essa imprevisível pandemia”.

“Não tem a ver com uma prudência episcopal medrosa, mas com uma excepcionalidade para preservar a saúde pública, de todos”, escreveu. “Posso dar liberdade ao pároco que deseja abrir o seu templo (e tenho certeza de que alguns, por zelo, o fariam), mas isso foge da minha responsabilidade pastoral. Não quero que pessoas me digam: ‘Se elas [as igrejas] abrirem, Deus ajudará!’ Estaríamos tentando a Deus assim. A nossa responsabilidade é a de cumprir o quinto mandamento: Não matar, não prejudicar nem a si, nem aos outros”.

O bispo também declarou que ficou magoado com o fato de os prédios da Igreja estarem fechados e de que os membros da família não possam se despedir de seus entes queridos, como gostariam. No entanto, segundo ele, estamos vivendo um período de exceção, “um tempo de travessia”.

Os bispos da República Dominicana também garantiram ao povo que a Igreja “não está fechada”.

Em carta divulgada no final da semana passada, a presidência da conferência dos bispos locais pediu aos que vivem no país caribenho que observem as regras de distanciamento social: ficar em casa quando indicado pelas autoridades, usar luvas, lavar as mãos regularmente e usar máscaras.

Enquanto isso, no Paraguai, dom Edmundo Valenzuela, de Assunção, mostrou-se menos cauteloso em relação à Covid-19.

Ao celebrar o Dia da Divina Misericórdia durante o Segundo Domingo da Páscoa, o religioso pediu que os fiéis fossem autorizados a voltar à missa em breve, porque a dimensão comunitária da Igreja não pode ser “vivida por meio de Eucaristias virtuais”.

Segundo ele, a ressurreição de Cristo marca o início de uma história nova que desafia a lógica humana e recorre à fé, para entender a abertura de Deus à humanidade.

“De maneira oposta à confiança na misericórdia divina, esta pandemia e o isolamento levaram a mudanças negativas na população”, disse Valenzuela. “A sociedade se desestabilizou; estamos nos considerando um perigo uns aos outros. Temos nos escondido atrás de um tecido, com desconfiança, impedindo o contágio que poderia vir daqueles que estão ao nosso lado”.

Por esses motivos, o religioso pediu um retorno à celebração pública da missa: “Mais do que nunca, a Igreja precisa recuperar a experiência comunitária. Não podemos viver de Eucaristia virtual”.

“A Igreja tem tanta força para curar quanto os médicos: eles curam o corpo, mas não basta”, argumentou Valenzuela. “A missão da Igreja, que significa comunidade, é reunir o povo para o encontro, para sentirem-se amados, orar e celebrar juntos os mistérios de fé”.

“Devemos voltar, assim que for possível, à celebração dos sacramentos, especialmente a reconciliação e a Eucaristia. Devemos voltar, assim que possível, à vida da Igreja”, falou.

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