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29 Abril 2020

"O novo coronavírus ceifa vida atrás de vida, devastando lares, cidades e países inteiros. Um surdo clamor se ergue aos céus, mas nuvens pesadas e sombrias escondem o sol. Apesar de tudo isso, é melhor não incomodar o capitão. Ele se encontra ocupadíssimo com a defesa dos filhos que, infelizmente, empurram com a barriga as dívidas com a justiça", escreve pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM. 

Eis o artigo.

Essa é a fórmula democrática do “novo governo” que se instalou no Planalto desde janeiro de 2019. Novo governo que, após quase um ano e meio, acaba por abdicar de seus princípios pétreos, aparentemente tão rígidos e absolutos, para entrar no jogo da “velha política”. Tão velha que, no vórtice do furacão de uma pandemia avassaladora, volta-se para o centrão do Congresso Nacional, e com ele não hesita em abrir o processo tradicional do “toma-lá-dá-cá” ou “balcão de negócios”, tão característicos da prática política brasileira.

Fica provado que nos embates do dia a dia, sobretudo quando abalados pelas tormentas e turbulências de um mandato político, desmascara-se a auréola de um messianismo hipócrita e oportunista. Termina por ajustar-se aos interesses que estão em jogo, por mais nefastos e mesquinhos, obscuros e obtusos que eles sejam. Primeiro, veio a saída tumultuada de dois ministros bem avaliados popularmente – Mandetta, da saúde, e Moro, da justiça e segurança nacional. Não permanece no “meu governo” quem ousa crescer mais do que o capitão, mesmo que seja em prol do país. Seguiu-se a virada abrupta, tanto no discurso quanto na relação com os outros poderes, no sentido de pavimentar a todo custo a via da governabilidade.

A bandeira contra a corrupção, contra a esquerda comunista e contra o pensamento livre, crítico e científico, desfraldada com tanto entusiasmo a partir da campanha eleitoral, agora pode ser enrolada e engavetada. Mais importante neste momento é blindar o clã familiar, para defender-se de CPIs, inquéritos e investigações em curso, seja por parte do legislativo e do judiciário, quanto por parte da Polícia Federal. É preciso neutralizar o assédio da imprensa que, 24 horas por dia e 7 dias por semana, mete por todo lado e a todo momento o nariz e a voz, juntamente com microfones, câmaras e holofotes. Se necessário, acelera-se o ritmo da usina de fake news, sob controle do “gabinete do ódio” e com ampla difusão pelas redes sociais.

Quanto à famigerada “gripezinha”, o novo Ministro da Saúde, avesso a tantas entrevistas e coletivas de imprensa, acabou relegando o “problema” a um segundo plano. Até mesmo o emprego e a retomada da economia, antes defendidos com unhas e dentes e em prejuízo da saúde pública, passam também a uma esfera secundária. Em vez disso, ganha relevância e prioridade absolutas a proteção incondicional da família. Urge barrar com toda força as vozes e os ventos que sopram com redobrada fúria, atentando contra o telhado de vidro do chefe. Daí a busca de pessoas de inteira confiança para os postos nevrálgicos dos processos judiciais, tão tortuosos e labirínticos – gente com quem “eu possa interagir”. A nave chamada Brasil navega sobre mares agitados, seja do ponto de vista sanitário, quanto do ponto de vista socioeconômico. O novo coronavírus ceifa vida atrás de vida, devastando lares, cidades e países inteiros. Um surdo clamor se ergue aos céus, mas nuvens pesadas e sombrias escondem o sol. Apesar de tudo isso, é melhor não incomodar o capitão. Ele se encontra ocupadíssimo com a defesa dos filhos que, infelizmente, empurram com a barriga as dívidas com a justiça.

Emerge naturalmente o conceito de “patrimonialismo”, herdado da Península Ibérica, mas que encontrou terreno fértil nas terras de Santa Cruz. Os clássicos da sociologia e historiografia brasileira – Caio Prado Junior, Roberto da Mata, Celso Furtado, Raymundo Faoro, Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros – se encarregaram de explicar seu significado: apropriação indevida da res publica (coisa pública) em vista de interesses privados, familiares, partidários ou corporativos. Trata-se de administrar a nação como se fosse a própria casa ou fazenda, misturando patrimônio público e privado. Os órgãos e servidores públicos passam a obedecer servilmente ao governante de plantão, como se fossem seus auxiliares domésticos. Tal prática se torna tão comum e corriqueira que acaba sendo naturalizada não somente pelos “donos do poder”, mas também pela própria população. Tudo a ver com o que está acontecendo sob nossos olhos, não raro míopes e cegos diante dos mandos e desmandos do governo.

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