“O capitalismo é feito de crises e aproveita essas situações para a sua reprodução”. Entrevista com Jorge Alemán

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21 Abril 2020

De sua casa na Espanha, onde vive desde seu exílio, em 1976, Jorge Alemán reflete. Utiliza a videochamada, um dos poucos recursos que as medidas de quarentena deixaram para o contato visual.

Em tempos de COVID-19, para o psicanalista e escritor argentino, as coisas mudaram muito nos vínculos e, talvez, também no sentido comum neoliberal. Mas o horizonte ainda não é nem claro, nem auspicioso. E a oportunidade de fazer do mundo que será deixado por essa pandemia um lugar melhor, depende de muito mais coisas que um vírus.

A entrevista é de Gladys Stagno, publicada por Canal Abierto, 17-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

A convivência com a incerteza é, para você, uma das questões que moldam a subjetividade no mundo neoliberal. Mas como uma incerteza das dimensões de uma pandemia afeta um sujeito neoliberal?

Essa é uma incerteza nova, porque os neoliberais falavam de uma sociedade de risco. Até chegou a haver um ministro na Argentina que disse que os argentinos tinham que se acostumar à incerteza, e fazia referência ao modo como o neoliberalismo corroía todas as instituições, fazia desaparecer o trabalho, a produção, tornava precário todo o mundo do trabalho. Essa incerteza é de outra ordem, porque afeta a própria vida. Faz referência à possibilidade da morte de cada um. Portanto, são aceitas condições que seriam inaceitáveis em outra época. Todo o mundo se autoconfinou e se inscreveu em uma espécie de cárcere virtual. Aceitou se blindar em nome da proteção.

E quais serão as consequências disso?

Veremos se isso, além de ser eficaz para nos proteger, acabará sendo uma nova ordem de disciplinamento e de controle. É algo que será necessário observar em nível civilizatório.

Há muitos filósofos arriscando que é um momento divisor, e alguns, como Zizek, imaginam uma nova ordem, uma espécie de comunismo. Você se aventura em que existe uma oportunidade de repensar o sistema ou o capitalismo irá se reinventar?

O capitalismo é feito de crises. O capitalismo não é uma economia, é um modo de se reproduzir. A todo tempo aproveita essas situações para sempre encontrar a via de sua própria reprodução. Que a vida se torne terrível, ou caótica, ou que ocorra um colapso econômico mundial, não indica em absoluto que seja provocada uma transformação do capitalismo e um acesso a algo emancipatório. Isso exigiria previamente uma construção política, e a construção de um sujeito político, e empreender uma nova aventura coletiva.

Mas algumas coisas foram colocadas em avaliação...

Sim, é verdade que aparecem sinais em alguns lugares de um novo tipo de sensibilidade social, que começa a surgir uma intuição de que o capitalismo tornou o mundo insustentável e que, sob suas condições, não é possível continuar vivendo. Mas eu não acredito que isso seja o suficiente para pensar que será derrubado. Será necessário ver, nesse meio, o que acontece com os grupos de poder, com o controle hegemônico dos meios de comunicação, com as diferentes batalhas culturais, com nossas próprias forças. Jamais vimos algo semelhante.

Poderia, contingentemente, surgir algum tipo de projeto político diferente, mas isso seria em escala internacional e essa escala internacional hoje em dia não existe. Todos os organismos foram destruídos: não há o Mercosul, a União Europeia está a ponto de se fraturar. Estamos em uma situação onde não há instâncias internacionais que possam nos acompanhar bem. Os passos que temos que dar precisam estar muito bem consolidados.

Em uma entrevista recente, você argumentou que um grande desafio histórico é que, lentamente, se conjugue um Estado acompanhado tanto pela militância social como pelas Forças Armadas. Por que considera importante incorporá-las?

Porque se irá ocorrer uma catástrofe econômica de tal magnitude, se não houver uma condução política popular, de esquerda, progressista, que consiga se articular com as Forças Armadas, irá emergir o fascismo. Portanto, penso que é fundamental amarrá-las a um projeto popular e de esquerda. Porque penso que, daqui a um ano - quando verdadeiramente aparecerem os outros aspectos da pandemia, os aspectos impiedosos das desigualdades econômicas -, será muito importante que o projeto que queira assumir a igualdade e a distribuição também tenha ao seu lado as forças da ordem. Caso contrário, estaremos em uma situação muito frágil.

Pensando nesta ideia que vem com a pandemia, que “nos salvamos todos ou não se salva ninguém”, considera que isso afeta o senso comum neoliberal?

Precisaremos ver. Essa sensibilidade está presente, isso se diz e se percebe. Mas também existem – e já as conhecemos – as tendências à xenofobia, ao racismo, à discriminação, a expulsar os que estão contaminados. Acabo de escutar a quantidade de violências de gênero que ocorreram nesses dias, na Espanha, dentro da quarentena. Temos que ser muito precisos em separar a análise da realidade de nossos desejos.

Na Espanha, onde há muito mais casos do que na Argentina, como as relações estão se conformando na quarentena? Que lugar o medo ocupa nessas relações?

Acaba de sair um estudo dizendo que até 2022 será necessário continuar o distanciamento social, ninguém poderá se abraçar, beijar. Por um lado, está sendo dito que não é possível sair sozinho desta situação, mas, por sua vez, será necessário aceitar em nome da proteção e a segurança algumas medidas de distância, isolamento e introspecção inéditas. Isso vai sendo sentido: há um montão de tempo que já não nos encontramos face a face.

O que deveríamos fazer, na perspectiva do progressismo, para capitalizar esse momento, para construir esse novo sujeito, mais coletivo e menos individual, no futuro?

Isso que estamos tentando fazer por todos os lados: que circule a palavra, que continuemos nos encontrando, que continuemos pensando, que comecemos a entender que o capitalismo tem muitos recursos, que não demos a disputa como determinada, que não digamos tão rápido que vencemos o neoliberalismo porque já dissemos isso muitas vezes e, depois, acontece que retorna com muito mais força. Que sejamos exigentes com a análise.

E a partir dos vínculos, há algo para fazer? A partir da quarentena, aprender outra forma de sociabilidade?

Eu espero que o sujeito não se esqueça do que era o encontro, do que era tocar alguém, do que era escutar diretamente a palavra de alguém, do que era olhar nos olhos de alguém. Que essa memória da experiência não se empobreça. Porque caso esse núcleo seja tocado, perderemos muitíssimo.

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