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17 Abril 2020

"Podemos vivenciar este momento como um tempo “kayrológico”, como uma realidade agraciada e de aprendizados profundos, mas há aqueles que estão desejando que tudo volte a ser como antes, que a cotidianidade de antes da pandemia e de sua quarentena regresse às nossas práticas. Como o ser humano é um ser marcadamente ritual e repetitivo, consideravelmente rotineiro e reincidente, a dificuldade de lidar com o novo de modo novo até é compreensível, mas não é simplesmente justificável", escreve Elvis Rezende Messias, Mestre em Educação, Licenciado em Filosofia e Bacharelando em Teologia. Desenvolve pesquisa de doutoramento em Ciências da Religião. Professor efetivo na UEMG (Unidade Campanha) e convidado no Instituto Filosófico São José (Diocese da Campanha), escritor e pesquisador.

Eis o artigo.

Estamos vivendo um contexto – e em uma conjuntura – marcadamente desafiantes. Acredito que todos sabemos disso! Embora haja aqueles que ainda não compreenderam – ou não concordam – que o momento é delicado e querem fazer com que as coisas continuem acontecendo “com normalidade”, evidencia-se a excepcionalidade do nosso hoje.

O tempo atual é desafiante e, como tal, traz consigo uma ocasião oportuna de ressignificações e de reconsiderações de nossas pretensas rotinas e normalidades. Entretanto, sempre tivemos sinais de que não são muitas as pessoas que gostam – ou que sabem ou que dão conta – de fazer esse exercício de autoexame de modo dedicado e sistemático. Podemos vivenciar este momento como um tempo “kayrológico”, como uma realidade agraciada e de aprendizados profundos, mas há aqueles que estão desejando que tudo volte a ser como antes, que a cotidianidade de antes da pandemia e de sua quarentena regresse às nossas práticas. Como o ser humano é um ser marcadamente ritual e repetitivo, consideravelmente rotineiro e reincidente, a dificuldade de lidar com o novo de modo novo até é compreensível, mas não é simplesmente justificável.

“A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. [...] Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”. Estas foram palavras do papa Francisco em sua homilia no momento de oração e de bênção que ele conduziu no Vaticano no dia 27 de março de 2020.

É aí que entra o trabalho especial das pessoas e das instituições que, ao menos tradicionalmente, exercem um papel de promover a criticidade e a provocação ao pensamento na coletividade. Pensadores, cientistas, professores, pesquisadores, Igrejas, místicos, poetas, artistas etc. são especialmente chamados a contribuírem para que este momento seja vivido com maior reflexibilidade e consciência, analisando fatos, questionando sistemas já arraigados de funcionamento, convidando as pessoas ao pensar e, especialmente, fazendo a experiência das reconsiderações de suas próprias posturas e convicções. Mas, quantos estão dando conta de fazer isso com excelência neste momento? É provocativa a fala de Paulo VI dirigida aos pensadores, ainda no ano de 1967: “Se é verdade que o mundo sofre por falta de convicções, nós convocamos os pensadores e os sábios, católicos, cristãos, os que honram a Deus, os que estão sedentos de absoluto, de justiça e de verdade: todos os homens de boa vontade. [...] abri os caminhos que levam pelo auxílio mútuo a um aprofundamento do saber, a ter um coração grande, a uma vida mais fraterna numa comunidade humana verdadeiramente universal” (Populorum progressio = PP, 85).

É bom reconhecermos que vivemos um longo período anteriormente a esta pandemia em que a classe pensante já sofria um intenso descrédito; em que a ciência era ironizada como coisa desnecessária para o “progresso”, especialmente, mas não exclusivamente, as ciências humanas; em que professores já estavam sendo apresentados como ideólogos atacadores da “tradição”, da “moral” e dos “bons costumes”; em que pesquisadores já estavam sendo obrigados à mendicância para darem conta de desenvolverem suas pesquisas sem incentivos governamentais e sem investimentos financeiros; em que Igrejas e místicos eram relegados ao crivo do trabalho subjetivo e ao confinamento em seus “templos”; em que poetas e artistas já eram tratados como comediógrafos cujas sátiras não faziam outro sentido a não ser afrontar o “bom senso” do “consciente coletivo”. Ora, o nosso hoje tem precedentes, nossa atualidade não é tão atual assim: seus prelúdios já estavam sendo tocados, mas, parafraseando Nietzsche, para quem não dava conta de ouvir a “música tocada” só restava o indigno papel de chamar de loucos aqueles aos quais viam “dançando”.

Mas – pensemos todos! – como está a vivência do árduo ofício reflexivo a desempenharmos? Seguiremos com nosso “modus operandi”? E é justo segui-lo? E é justo deixá-lo? O que fazer? O que não fazer? Sugiro – apenas sugiro – pensarmos que não há a obrigação de acompanharmos as ondas do momento, assim como a educação, que deveria ser espaço de criticidade e de transformação do conhecimento, e não somente espaço de transmissão e de reprodução do “modus vivendi”, também não deve exaurir-se no anseio de querer corresponder a todos os modismos e tecnicismos do momento. Mas o que fazer com o que há para fazer? E o que há de querer com o que se há de querer?

Para exemplificar a reflexão aqui, faço uma pequena partilha a partir do campo religioso, realidade que tem sido objeto de muitas de minhas pesquisas ultimamente, cujas provocações reflexivas poderão ser estendidas a outros setores: tem me causado certo incômodo a inconsistência teológica de muitos líderes pastorais comunidades religiosas afora. Diante de um contexto e de uma conjuntura que têm se manifestado tão complexos em seus mais variados cenários (econômico, político, cultural, social, educacional, espiritual, pessoal etc.), o apelo para soluções e propostas de cunho excessivamente devocional e espiritualista está mais forte do que eu imaginava serem capazes os cleros, em geral, de muitas denominações. Vivemos um tempo propício para uma boa catequese de teologia de princípios, com uma pastoralidade consistente, mas a coisa parece não estar indo muito por essa linha. Convoca-se muito para a oração, e, muitas vezes, para uma oração intimista, sentimentalista, devocionista, mas têm aparecido poucos líderes com consistência na análise de conjuntura e dos fenômenos cotidianos à luz de uma sólida teologia. O rubricismo casuísta frequente e rapidamente aparece, o pode não pode litúrgico não tarda, mas uma boa reflexão de base tem andado escassa. O tempo atual é propício para a ressignificação de nossas cotidianeidades mesmo! Mas, os líderes religiosos estão dando conta de se aprofundarem em seus conhecimentos teológicos, humanistas, filosóficos e sociológicos para, consequentemente, darem conta de auxiliar os fieis de suas igrejas a um aprofundamento também? Eis uma oportunidade ímpar para revisitar os tratados de Teologia Pastoral que alguns – nem todos – chegaram a estudar em seus seminários e institutos formativos – se é que todos chegaram a frequentar um.

E o mesmo tipo de questionamento cabe aos demais: pensadores, cientistas, professores, pesquisadores, místicos, poetas, artistas etc. O que há de novo em nossas práticas atuais além do resgate de alguns velhos costumes? O que há de cômodo nisso?

A atual conjuntura impõe a urgência de uma intensa transformação também na atividade pastoral das Igrejas. Tal prática pastoral não deve ser vista apenas sob o viés do anúncio da , mas também se situa na perspectiva da denúncia dos anti-humanismos da conjuntura social atual e, sobretudo, da denúncia daqueles métodos das próprias denominações religiosas que, embora tenham prestado um serviço singular a um determinado povo em determinadas épocas, podem estar se manifestando como ineficazes e mesmo como caducos atualmente. Como tem alertado Francisco ao catolicismo especificamente, pelo menos desde o ano de 2013, parece urgente a necessidade de saída de certos esquemas estanques, de certos modelos tradicionais de evangelização, a fim de que seja desenvolvida “a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (Evangelii Gaudium = EG, 20); impõe-se a urgência de uma atividade pastoral em conversão (cf. EG, 25-33). E, para exemplificar bem como este é um momento propício, especialmente, para uma autoanálise profunda, Francisco chega a falar, inclusive, até mesmo da necessidade de uma “conversão do papado” (EG, 32), reconhecendo que “também o papado e as estruturas centrais da Igreja universal precisam de ouvir este apelo a uma conversão pastoral”. Mas tem gente dentro da própria Igreja Católica que, para dar descrédito também ao papa, além do descrédito que já dão aos pensadores, cientistas, professores, místicos, poetas, artistas etc., prefere chamá-lo de “comunista” e rotulá-lo como um verdadeiro “herege” que atua afrontando a “tradição”, a “moral” e os “bons costumes”. Sim, até na Igreja essas coisas acontecem e esses discursos se repetem.

Enfim, para não mais me alongar, os desafios estão aí, para todos. O emblema da nova conjuntura está aí. A necessidade de novos métodos está aí. Estamos tendo a oportunidade de reconhecer que realmente fomos bons naquilo que fazíamos cotidianamente, mas não sei se temos a oportunidade de afirmar que aquilo que temos feito nos últimos anos é, realmente, aquilo que tínhamos de fazer. É comum que estejamos um pouco confusos com tudo o que está acontecendo, mas é bom refletir! Aproveitemos o tempo que este tempo nos deu para isso! É um momento especial de ressignificação, sobretudo para quem estiver disposto a isso. Que nada mais seja como antes! Que seja melhor daqui pra frente!

 

Referências:

FRANCISCO. Evangelii gaudium (24 nov. 2013). São Paulo: Loyola, 2013. (Documentos do Magistério).

FRANCISCO. Homilia no Momento Extraordinário de Oração em Tempo de Pandemia. 2020. Disponível em aqui.

PAULO VI. Populorum Progressio (26 mar. 1967). São Paulo: Paulinas, 1990 (Voz do Papa).

 

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