A impossibilidade provisória e a permanente: reflexão sobre a negação do banquete eucarístico

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16 Abril 2020

“Nas minhas reflexões tenho tentado manter acesa a chama da esperança e quando procurado por alguém que quer e precisa se expressar sobre a falta que a participação na Eucaristia tem lhe feito ou então, quando fico sabendo da corrida desenfreada que muitos colegas tem feito para celebrar a eucaristia com transmissão online ou coisas do tipo, não posso deixar de pensar e relacionar isso com o sofrimento de milhões de cristãos e cristãs no mundo inteiro, mas de modo especial na Amazônia, que ficam anos sem poder participar da Eucaristia”, escreve Antônio Luís Fernandes, padre da Diocese de Limeira, São Paulo, que atua como missionário na Paróquia de Barcelos, Diocese de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas.

Eis o artigo.

Detesto a ideia de que a gente tenha que sofrer para poder aprender. Penso sempre que a melhor forma de aprendizado é aquela que brota da alegria e do prazer. No entanto, lentos e  desatentos que somos, às vezes o sofrimento pelo qual passamos, pode servir de alguma forma para redimensionar nosso chamamento para aquilo que já deveríamos ter aprendido e nos passou despercebido.

Mas seja como for, estamos em tempos de sofrimento e deveria ser de aprendizado, não é mesmo?

Nas minhas reflexões tenho tentado manter acesa a chama da esperança e quando procurado por alguém que quer e precisa se expressar sobre a falta que a participação na Eucaristia tem lhe feito ou então, quando fico sabendo da corrida desenfreada que muitos colegas tem feito para celebrar a eucaristia com transmissão online ou coisas do tipo, não posso deixar de pensar e relacionar isso com o sofrimento de milhões de cristãos e cristãs no mundo inteiro, mas de modo especial na Amazônia, que ficam anos sem poder participar da Eucaristia.

Essa privação, que é assustadora para muitos de nós, deveria ser também orientadora da alteração de nossos conceitos e da preocupação em fazer com que essa distância abismal que existe entre a possibilidade de “eucaristias” ao bel prazer e/ou ao alcance do toque de um controle remoto.

Para muitos (e vejo que se trata de um sentimento verdadeiro e angustiante), ficarem algumas semanas sem poder celebrar a sua fé numa comunidade de crentes parece ser um castigo que não mereciam e, de fato creio nisso, nem Deus gostaria que assim o fosse. Mas, dadas as condições sanitárias e as emergências de saúde, é o que temos para fazer. No entanto, sinto que também, com a mesma verdade, essas pessoas que se angustiam nem imaginam e nem se sentem desafiadas a pensar na realidade desses outros tantos e tantas que sentem a mesma fome há muitos anos e, impossibilitados de preparar a mesa e se sentar com mesma dignidade que nós sentamos sempre, foram obrigados (e vejam que a palavra é essa mesma, obrigados) a se privarem da mesa.

O triste e o dificultoso é que, essas mesmas pessoas que hoje choram e lamentam o distanciamento da participação na eucaristia (são leigos, leigas, religiosos, religiosas, padres e bispos) foram e são os primeiros opositores para que se solucione essa privação do banquete a que são submetidos milhões de irmãos e irmãs na extensa e longínqua Amazônia. Ficam profundamente indignados quando, para fazer chegar o pão da vida, essas comunidades se dispõem a encontrar soluções (viri probati, ordenação feminina e outras) e se sentem desfiadas a falar em nome da Tradição dizendo que isso seria romper com a possibilidade de mantermos a Igreja como quis Jesus.

Esquecem-se ou fingem esquecer que a temporária privação a que estamos submetidos deveria servir como tempo oportuno para também relermos os acontecimentos da fé e, corajosamente, sermos capazes de encontrar novos caminhos para a experiência religiosa num mundo que, cada vez mais e de forma insistente, tem deixado claro que a fé deixou de ser importante para uma sociedade que se digladia entre a vida e a economia.

Deveríamos ter aprendido a nos solidarizar com a mesa vazia desses milhões de cristãos e cristãs que foram ficando esquecidos nas matas, comunidades ribeirinhas, quilombolas, aldeias e até mesmo nas grandes periferias. Enquanto outras comunidades, com poder de mobilização e ajustes financeiros, podiam inclusive escolher os horários em que se sentariam à mesa e se deixariam guiar pelo argumento de que hoje não estava tão a fim de rezar...

Assim como Marcelo no ato 1 da peça de Hamlet de Willian Shakespeare, que afirma ter “algo de podre no Reino da Dinamarca”, deveríamos também nós nos perguntar sobre o que nos deixa tão sensíveis ao poder de chorar pelos parcos dias em que não poderemos nos sentar à mesa e, ao mesmo tempo e com a mesma força, sermos insensíveis a essa multidão de filhos e filhas da Igreja que há muito tempo foram deixados pelo caminho e impedidos de se sentar à mesa com a mesma dignidade com que todos merecemos.

Será preciso ainda quanta dor para tentarmos aprender algo assim também para dentro da Igreja?

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