Covid-19 revela uma crise de fé e também de dúvida, afirma filósofo francês

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11 Abril 2020

O professor francês Camille Riquier afirma que o súbito interesse de algumas pessoas pela fé e pela crença foi despertado ao serem pegas de surpresa.

A pandemia do coronavírus desorientou muitas pessoas em todo o mundo, especialmente em relação àquilo que elas acreditam e pensam que podem confiar.

Pelo menos essa é a opinião de Riquier, professor de filosofia do Institut Catholique de Paris.

A reportagem é de Élodie Maurot, publicada em La Croix International, 09-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Qual é o nosso provável “estado espiritual” durante a crise do coronavírus?

Ela nos surpreende e nos deixa em um estado de grande desarranjo e de desorientação geral quanto à fé, mas também quanto ao saber e à dúvida. Estamos em um período de fé fraca e de dúvida fraca, que tem semelhanças com o período francês do século XVI, o de Montaigne. As gerações que nos precederam ainda haviam conhecido uma fé forte e uma dúvida forte, que era a de um ateísmo convencido. Hoje, não sabemos mais nem crer nem duvidar...

Essa crise da saúde nos lembra que todos respiramos o mesmo ar. Isso também é verdade do ponto de vista espiritual?

Sim. Em tempos comuns, temos a impressão de que a linha divisória passa entre crentes e não crentes. De fato, estou convencido de que crentes e não crentes são muito mais parecidos do que pensamos. Compartilhamos uma mesma respiração do ar dos tempos, uma mesma ambiência em que a fé, em sentido amplo, é proibida para nós. O agnosticismo em que estamos imersos está se espalhando por toda parte, não apenas em matéria de religião: ele também afeta a própria ciência e as áreas do saber em que éramos mais confiantes.

Como essa “fé fraca” se caracteriza?

Em matéria religiosa, perdemos uma relação natural, espontânea e óbvia com a fé. Hoje, crer é uma questão e uma dificuldade, e o retorno das crenças religiosas à vanguarda é um sintoma disso. Só se fala na fé e na crença porque hoje somos pegos de surpresa. Como disse Péguy: “Você nunca pede mais do que aquilo de que mais sente falta”. Somente quem está com sede tem água na boca e clama por ela.

Estou impressionado com o número dos nossos contemporâneos que “gostariam de crer”, dizem eles, mas que não têm sucesso (ou apenas o têm por pouco tempo) e cujo desejo de crer acaba desaparecendo. A trajetória de Emmanuel Carrère me parece reveladora dessa aspiração que acaba fracassando. Não é o fim que falta, mas sim os meios. É como se, em matéria de fé, tivéssemos sido “adultos antes que crianças”, para inverter a célebre frase de Descartes. Fico surpreso ao ver até que ponto precisamos reaprender tudo, redescobrir tudo...

Mas crer não foi sempre difícil?

Sem dúvida, mas hoje existe algo como uma esquizofrenia universal nascida nos tempos modernos, que afeta tanto a quanto a dúvida. Nós cremos pela metade e duvidamos pela metade. Nós sabemos as coisas sem podermos realmente crer nelas.

A maneira pela qual Agnès Buzyn, ex-ministra da Saúde da França, relata como ela experimentou a chegada da pandemia parece-me típica de um saber em que não acreditamos. Isso também se aplica ao aquecimento global: podemos ver como é difícil acreditar nele, enquanto os conhecimentos científicos sobre a realidade dele se acumulam.

Atualmente, a dúvida é reivindicada a respeito de quase tudo...

Essa é uma das características do nosso tempo. O homem pós-moderno não duvida até reivindicar um direito à dúvida. Ele instila a dúvida sem que haja um motivo para duvidar.

É uma dúvida que não é forte, que não ocupa uma posição clara que ele gostaria de defender. É por isso que a própria racionalidade está sendo prejudicada. Como duvidamos de tudo, perdemos o nosso verdadeiro espírito crítico.

É por isso que a nossa época torna-se tão crédula. Vemos em nossas sociedades um aumento espetacular no número dos preconceitos e das superstições mais fantasiosos. As crenças se conectam diretamente ao impulso: cremos naquilo que gostamos; cremos naquilo que tememos...

Que caminhos ainda estão abertos à fé?

A crise da saúde pela qual estamos passando abre possibilidades. Estávamos em um tempo em que as religiões haviam sido reinvestidas na criação de tensão identitária e de um recuo comunitário. Talvez vamos deixar de nos relacionar com a religião por essas más razões. Somos convidados a redescobrir a verdadeira natureza da religião, que é fazer um vínculo, recriar um vínculo.

Na situação de crise geral que estamos vivendo, as fronteiras religiosas estão desaparecendo. As questões identitárias, pela primeira vez, estão suspensas. Elas parecem irrelevantes. Este é um momento precioso para ir às fontes da fé, pois é como se fôssemos compelidos a fazer isso. Mas não pode ser um retorno ao passado.

As formas religiosas não críticas são impasses. Não voltaremos à fé por meio de uma fé forçada e obstinada, mas sim por um questionamento da própria fé. Se não sabemos mais crer, resta em nossa memória o testemunho daqueles que creram. Seguindo esse fio, por mais tênue que seja, ainda manteremos a fé.

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