Onde está Deus agora? Entrevista com Heiner Wilmer

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05 Abril 2020

Dom Heiner Wilmer, bispo de Hildesheim (Alemanha), foi até 2018 superior geral dos dehonianos. Atualmente, é também presidente da Comissão Justiça e Paz da Conferência dos Bispos da Alemanha.

Nesta entrevista, concedida a Joachim Franck e publicada no jornal Kölner Stadt Anzeiger, 30-03-2020, ele aborda problemas cruciais relacionados à pandemia do coronavírus: em particular, o eterno problema da dor e do silêncio de Deus, e o problema referente à Igreja neste momento dramático.

A tradução da versão em italiano é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Senhor bispo, como se sentiu ao ser mudado pela crise do coronavírus?

O que o meu ex-secretário, natural de Bérgamo, me conta sobre a situação na Itália é terrível. O bispo local suspendeu todas as cerimônias fúnebres, porque não é possível acompanhá-las pelo grande número de mortes. Um padre franciscano idoso, Frei Aquilino, antes da cremação, coloca o seu celular sobre os caixões e o conecta com os familiares do falecido, para que possam se despedir pelo menos dessa maneira. Somente depois, quando tudo acabar, é que se poderá rezar juntos um Réquiem por todos os mortos da diocese. É algo dilacerador que me comove profundamente.

Isso acontece para todos aqueles que têm coração. O que o perturba como pessoa de fé?

De fato, eu me pergunto: até que ponto a fé, a Igreja também sustentam a nossa teologia? O que elas perdem desse pilar? As afirmações da Igreja são postas à prova sobre a presença de Deus. O Concílio Vaticano II ensina que Deus está presente nas várias circunstâncias: sobretudo na celebração da missa, nos sacramentos e também na palavra da Escritura e, por fim, “onde dois ou mais estiverem reunidos em nome de Jesus”. Eu percebo que nos concentramos muito na missa e nos sacramentos. Agora que as igrejas estão fechadas, a Bíblia e as pequenas comunidades de fiéis se tornam importantes como “Igrejas domésticas”.

Para as reuniões com três pessoas, já é difícil.

Mas duas são permitidas. E mesmo sozinho eu posso ler as Escrituras e me beneficiar delas para a minha vida. Isso é relevante. Agora, entra em jogo novamente a grande interrogação de Martinho Lutero: como posso encontrar um Deus misericordioso? Não só em alguma modalidade atribuída à mediação da Igreja, mas diretamente, através de um contato direto. E aqui eu volto novamente à promessa de Jesus retomada pelo Vaticano II: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles”.

O meu lema para este tempo é o seguinte: a ausência das missas nos leva a pensar em outras formas de comunicação recíproca que estão presentes na tradição cristã. A celebração da missa – a eucaristia – é muito importante. Mas agora se sentem! Leiam a Bíblia, conversem entre vocês em dois ou três, através de uma teleconferência ou do Skype, pouco importa. Acima de tudo: falem com Deus! Eu também poderia dizer: partam o pão e dividam-no entre vocês, como os primeiros cristãos, sem sacerdote? Eu não iria tão longe.

Gostaria de voltar atrás e dizer: a Palavra da Bíblia também é um alimento nutritivo. A interrogação sobre a presença de Deus deve ser posta ainda mais profundamente: onde está Deus diante de um inimigo invisível que se difunde por todo o mundo e mata? Eu tenho uma grande estima pela teóloga protestante Dorothee Sölle, que viveu em Colônia por muito tempo, uma mulher polêmica, mas grande, que orienta o nosso olhar de maneira inexorável e sem compromissos sobre o sofrimento. O sofrimento, afirma ela, do ponto de vista cristão não é um destino que as pessoas devem suportar. O sofrimento leva ao grito, ao protesto, a um choque existencial: como isso pôde acontecer conosco, como comunidade mundial do século XXI? Na Itália, as pessoas se lembram do famoso romance de Alessandro Manzoni, “Os noivos”, em que se fala da peste durante a Guerra dos Trinta Anos justamente na região de Bérgamo.

Com isso, a interrogação sobre Deus é posta de modo ainda mais afiado, pois os vestígios do sofrimento e da morte são indeléveis e serpenteiam sem fim ao longo dos séculos.

Não podemos derrotar o sofrimento. Talvez o coronavírus, sim, esperamos, mas não o sofrimento em si. Esta também é a crença dramática de Dorothee Sölle. Em vez disso, trata-se de como enfrentamos o sofrimento. Como afirma Sölle, é uma forma de mudança, de transformação. Mas sem uma falsa consolação, sem esperar no depois fantástico que só existe na minha projeção. Levantar novamente esse problema pode ser uma tarefa das Igrejas. E falar do fato de que Deus está presente em quem sofre: nos doentes de coronavírus, nos enfermos que, como em Bérgamo, não se infectaram sozinhos e não podem ser tratados pela escassez de recursos e morrem sem analgésicos. Estou convencido de que Deus também está presente naqueles que ajudam todas essas pessoas, de todas as formas possíveis.

A sua confiança em Deus foi abalada?

Não. Eu me apego a um versículo do Novo Testamento: “Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de força, de amor e de moderação” (2Tm 1,7). No entanto, essa crise me abala e me mostra que Deus é mais uma vez totalmente diferente de como nós imaginávamos.

Muitas pessoas pensam na imagem de um Deus que castiga: a humanidade recebe o pagamento pela sua arrogância...

Esse pensamento é terrível e totalmente não cristão. A crise do coronavírus não é um castigo de Deus. É uma catástrofe natural.

O senhor falou do papel das Igrejas. Não acha que, na crise, as Igrejas são praticamente aniquiladas, por assim dizer? As igrejas foram fechadas, as celebrações, canceladas. Tudo está silencioso e mudo. Tal coisa não aconteceu sequer em tempos de guerra.

Nós, na Diocese de Hildesheim, mantemos as igrejas abertas. Com uma condição clara: não para reuniões de pessoas, apenas para a oração pessoal e como local de retiro e de descanso. Quem quiser pode vir aqui repousar, acender uma vela. É também o que vemos. Do meu escritório, eu tenho uma vista da catedral e continuo observando a porta que se abre e se fecha. As pessoas vêm e vão. Mas recolhidas. Parece-me como se, sobre a cidade e o campo, impôs-se um tempo de contemplação, uma espécie de exercícios coletivos silenciosos. Quanto à presença pública das Igrejas: é verdade. Neste momento, todos olham para os cientistas e os políticos. Esperamos ter notícias sobre vacinas ou remédios. Esperamos decisões que garantam os empregos e mantenham a sociedade unida. As Igrejas não aparecem em primeiro plano. No entanto, noto que agora somos interpelados de um modo que talvez sequer imaginaríamos antes.

Interpelados sobre o quê?

A Igreja como advogada que vem em socorro. Isso ocorre com o comprometimento, não com declarações; com palavras de conforto, não com pretensões. Eu acho que é isso que entra em jogo claramente agora. Surge espontaneamente a pergunta: o que acontece quando a “normalidade tranquila” se desordena? Quando aquilo que considerávamos seguro de repente não se sustenta mais? Quando os fundamentos sobre os quais baseamos a nossa vida ameaçam desmoronar? O cálculo racional chega ao limite, e sentimos que precisamos de algo que vá além. Você sabia que Jesus tem um apelido? Qual você acha que é? O Salvador. Isso requer que se estique o ouvido e se escute. Jesus é o médico. Todos iam ao encontro dele e queriam que ele os curasse no corpo e no espírito, e ele sabia como unir os fragmentos de uma existência quebrada. A religião cristã e a Igreja devem ser julgadas sobre essa atitude.

O que isso significa?

Como Igreja, a crise do coronavírus nos força a nos perguntar novamente: de que modo nós podemos dar razão a Jesus, o Salvador? Particularmente mediante a proximidade com as pessoas. Nenhuma proximidade mata. Nestes dias, isso significa naturalmente uma proximidade com uma distância física. A crise é uma experiência-chave para nós: a Igreja não existe para si mesma, mas para a sociedade.

Os debates internos sobre a reforma na Igreja desapareceram, por enquanto.

Para alguns, é a prova de que se concentrar exclusivamente em si mesmo é irrelevante. Pelo contrário. A crise me mostra que as reformas são necessárias, mas não suficientes. Precisamos de algo mais. Temos uma crise da Igreja, mas também uma crise da fé, no sentido de que não está claro para nós como funciona a relação entre o ser humano e Deus, o grande e insondável segredo.

O senhor foi superior de um instituto internacionalmente ativo. Percebemos que os muros das fronteira desmoronam, e que os países se preocupam em se autodefender. O coronavírus é o fim da ideia da comunidade dos povos?

Seria um problema. Naturalmente, também devemos nos proteger como comunidade, observar regras, manter as distâncias. Mas seria uma catástrofe ainda maior se nos isolássemos e não víssemos os outros. “Salve-se quem puder” é um lema fatal tanto para os indivíduos, quanto para um povo. Mas estou certo de que o egoísmo não vencerá e vejo que já existem sinais muito encorajadores.

Qual, por exemplo?

Lembre-se de que, nos primeiros dias da crise aguda, se falava continuamente de profissões relevantes para o sistema. Tratava-se de médicos, cientistas, políticos, sem esquecer os jornalistas. Até que, de repente, ficou claro que o importante para o sistema era também a jovem com formação em migração, que não fala alemão, mas senta no caixa do supermercado ou enche as prateleiras.

O senhor já cancelou a Páscoa de 2020?

Nesta semana – pela primeira vez na história da Diocese de Hildesheim – a nossa comissão de gestão se reuniu em videoconferência, e estabelecemos que os ritos litúrgicos da Quinta-Feira Santa, da Sexta-Feira e também a Vigília Pascal sejam realizados na catedral, com um pequeno círculo de participantes. No Domingo de Páscoa, eu celebro a missa nas rádios NDR (Norddeutscher Runfunk) e WDR (Westdeutscher Rundfunk). A bênção da revolução digital – e eu a chamo deliberadamente de “bênção” – agora fica clara. As pessoas podem se conectar virtualmente não só para reuniões e conferências, mas também para rezar e para a missa. Isso é de grande ajuda.

No entanto, a Páscoa, a maior festa do cristianismo em uma catedral vazia, sem uma comunidade que festeja, não lhe parece uma contradição?

Pelo menos é um espetáculo muito, muito insólito. Mas talvez corresponda à situação das origens da Páscoa. Olhemos para o túmulo vazio e nos perguntemos: “Onde está o Senhor agora?”.

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