O Papa construtor para o mundo de uma nova consciência econômica e social

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28 Fevereiro 2020

Agradecemos ao Padre Enzo Fortunato, diretor da Sala de Imprensa do Sagrado Convento de Assis, por ter colhido o testemunho do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, no final do encontro com o Papa Francisco, em 13 de fevereiro passado, em que também falaram sobre o evento A Economia de Francisco. Lula, na juventude, quando era sindicalista, durante a ditadura militar, ficou escondido por um mês em um convento de frades franciscanos conventuais. Depois, anos mais tarde, esteve duas vezes em Assis.

O depoimento é publicado por Il Sole 24 Ore, 23-02-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto.

Uma nova economia que derrube as desigualdades e crie comunhão e participação - o tema no centro do encontro em Assis, almejado pelo Papa -, acho que seja uma temática prioritária para a humanidade. Estamos no século XXI, após tantos séculos de experiência em que a desigualdade reinou em nível mundial. Chegou a hora de acabar com isso. O problema da produção de alimentos não existe. Existem alimentos para todas as pessoas no mundo, mas mais de um milhão de pessoas vivem em situação de fome. Sem dinheiro para garantir-lhes a oportunidade de consumir as proteínas e as calorias necessárias para sobreviver. A ideia do Papa Francisco é crucial, muito importante. Espero que toda a humanidade comece a se preocupar, a construir uma sociedade mais harmoniosa e solidária, na qual todos tenham o direito de comer três vezes ao dia, estudar e viver de maneira digna. Ao longo dos anos do meu governo no Brasil, mostramos que isso é possível. Colocamos a luta contra a pobreza dentro do orçamento do estado. Devemos garantir que todos os governos considerem a desigualdade como um problema político: decisões políticas devem ser tomadas para combater a desigualdade. O estado deve estar a serviço da humanidade. Deve estar a serviço dos pobres. Infelizmente, porém, agora a pobreza e a miséria predominam no Brasil. Precisamente porque as políticas sociais foram eliminadas. Por isso, estou feliz que o Papa, através da Economia de Francisco, possa tentar construir uma nova consciência econômica, política e social para o mundo. Isso deve servir de exemplo para o movimento sindical, para outras igrejas e para partidos políticos em todo o mundo.

Com o Papa Francisco, conversamos sobre um mundo mais justo e fraterno. Parece-me que os atuais governantes não se preocupam com a qualidade de vida das pessoas, nem com o meio ambiente. Para acumular riqueza, está sendo destruído. Conversei com o papa sobre a experiência de sucesso que tivemos no Brasil no combate à fome, criando mais empregos e aumentando o salário mínimo. E de outros assuntos, como a reforma agrária e política ambiental. 80% da energia no Brasil vem de fontes limpas. Mas ainda precisamos fazer um esforço extra, usar mais energia eólica e solar, que não destrua a qualidade de vida do planeta.

O Papa Francisco mostrou-se aberto a essas temáticas. Eu acho que isso pode dar um grande impulso para uma discussão em nível global. Espero que, após a iniciativa em Assis, outros líderes assumam suas responsabilidades sobre essas questões. Estamos pensando no protocolo de Kyoto, da COP-21 em Paris. Algumas pessoas não têm vontade de respeitar esses acordos. Preocupamo-nos em chegar à lua para escapar da poluição, mas vivemos na Terra. Espero que este problema da economia possa ser discutido naquela oportunidade, mas com o coração. Como se fosse o coração de uma mãe que cuida de seus filhos com carinho, que dá mais leite quando eles precisam. É isso, os governantes deveriam dar mais aos que mais precisam. A mensagem de São Francisco que nos deixou é a ideia de abrir mão de bens pessoais, tentar viver a vida de maneira mais humana e cuidar do lugar onde se mora. Acredito que São Francisco transmite essa ideia de renúncia em nível pessoal e colaboração e empenho com toda a comunidade. O Santo de Assis reflete a boa intenção que reside em todos os seres humanos de melhorar: acredito que todos que estão deitados em sua cama pensam que deveriam fazer mais pela Terra e por sua família. Não consigo entender que, apesar da ideia do Bem, que é humana e, portanto, dentro de nós, existem tantas pessoas ricas no mundo que têm bilhões e bilhões e nem serão capazes de gastá-los durante toda a vida e mesmo assim guardam tudo para si. Por que eles não dão uma parte para os pobres, para aqueles que não têm o que comer? Esta é a única maneira de viver: ser mais humano, mais solidário. São Francisco deu um exemplo que deveria ser seguido por todos.

 

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