Universidade de Georgetown compromete-se com pleno desinvestimento em combustíveis fósseis em uma década

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11 Fevereiro 2020

A Universidade de Georgetown se comprometeu em acabar, dentro de uma década, com os investimentos em combustíveis fósseis com base em seus fundos de doações (endowment), ao mesmo tempo em que irá acelerar os investimentos em energia limpa. Este grande passo da universidade jesuíta teve como motivação preocupações com os riscos apresentados pela mudança climática à saúde humana, biológica e financeira.

A reportagem é de Brian Roewe, publicada por National Catholic Reporter, 07-02-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em um comunicado divulgado em 6 de fevereiro deste ano, o conselho universitário adotou uma política de desinvestimento, num prazo de cinco anos, em empresas de combustíveis fósseis de capital aberto, e de desinvestindo nos demais empreendimentos privados existentes em um prazo de dez anos. O próximo passo da universidade será não mais investir em empresas cujos negócios envolvem a exploração e extração de carvão, petróleo e gás natural. Ela irá também intensificar os investimentos em fontes de energia renovável e na eficiência energética.

Com a nova política, a universidade passa a ser a instituição acadêmica americana de mais destacada privada até o momento a se comprometer com o desinvestimento pleno em combustíveis fósseis. É a mais recente instituição, em uma campanha de nível mundial, que já realocou trilhões de dólares que seriam investidos em empresas de carvão, petróleo e gás, e que os apoiadores vêm comparando com o movimento de desinvestimento internacional realizado contra o apartheid na África do Sul na década de 1980.

O reitor da Georgetown, John DeGioia, disse em mensagem à universidade que a decisão de desinvestir em combustíveis fósseis reflete o esforço para “continuar integrando o compromisso da instituição com a justiça social, com a proteção da vida e da dignidade humana, com a administração do planeta e com a promoção do bem comum para dentro de suas práticas gestoras de investimentos”.

E continuou: “A nossa busca pela construção de um futuro mais sustentável guia-se pela nossa identidade como instituição católica e jesuíta, e através da inspiração do Papa Francisco, que articulou uma visão ambiciosa para todos nós em sua encíclica de 2015, Laudato Si’: Sobre o cuidado da casa comum. As suas palavras dão forma e fortalecem o nosso compromisso com o meio ambiente, e uns com os outros, certificando-se de que, na medida em que avançarmos, o façamos em um espírito de respeito e colaboração mútuos”.

Foi uma colaboração entre o Comitê para Investimentos e Responsabilidade Social da Georgetown e a organização estudantil GU Fossil Free o que, em última instância, levou a essa nova política de desinvestimento. Durante oito anos, os alunos pressionaram a instituição para não mais investir em fontes de combustíveis que emitem gás carbônico a partir de seus fundos de doações. A última proposta submetida pelos acadêmicos foi em março de 2019. Em 10 de janeiro, o comitê citado recomendou, por unanimidade, o investimento em fontes renováveis, ao mesmo tempo que recomendou o desinvestimento em combustíveis fósseis.

Em entrevista no dia 7 de fevereiro ao National Catholic Reporter, o coordenador de investimentos da universidade, Michael Barry, considerou o GU Fossil Free um “grande parceiro”, creditando ao grupo o mérito de terem chamado a atenção da universidade para a questão do desinvestimento em empresas de combustíveis fósseis e para a questão das mudanças climáticas.

“Desde o começo, embora não perfeita, decidimos ter uma relação de colaboração. Acho que isso fez toda a diferença”, disse Barry.

Ao mesmo tempo que o conselho universitário anunciava a sua decisão na quinta-feira passada, o organismo estudantil votava um referendo que pedia o desinvestimento, que foi aprovado com 90% dos votos favoráveis.

“Estamos muito felizes que a nossa universidade deu este passo importante no apoio à justiça climática, às vozes dos alunos e à responsabilidade financeira”, disse o grupo em um comunicado postado na internet.

Victoria Boatwright, acadêmica de física biológica, falou que entrou “em êxtase” quando ficou sabendo da notícia. Desde então, ela tem compartilhado lágrimas de alegria com amigos e telefonado para ex-alunos que fizeram parte da entidade nestes últimos anos. A notícia foi recebida com choque, segundo ela, acrescentando que a maior parte dos membros do GU Fossil Free não imaginava que a universidade tomaria esta decisão este ano.

“Foi um momento extremamente marcante, um grande avanço”, contou ela ao National Catholic Reporter.

A acadêmica disse ainda que o GU Fossil Free, que conta com cerca de quinze membros ativos, gostou que a administração alertou o grupo antes de fazer o anúncio público.

Em nota explicando a nova política de investimento, Barry informou que “este desinvestimento nos permite alocar mais capital para financiar o desenvolvimento de projetos de energia renovável que desempenharão um papel vital no distanciamento da dependência dos combustíveis fósseis – parte da solução de longo prazo exigido para evitar os efeitos mais perigosos das mudanças climáticas”.

Barry acrescentou que os investimentos em fontes de energias renováveis já produziram lucros para o fundo de doações, e que a busca por novas oportunidades continuará.

“Além da ameaça ao nosso planeta, as mudanças climáticas aumentam o risco de investimento em empresas petrolíferas e de gás, na medida em que esperamos um leque mais volátil de resultados financeiros”, disse o coordenador de investimentos. “Continuaremos avaliando os esforços destas companhias, e temos a esperança de que muitos também buscarão alternativas no sentido de contribuir para um futuro sustentável”.

Falando ao National Catholic Reporter, Barry disse que a universidade, inspirada em Laudato Si’, tem ciência do impacto das mudanças climáticas sobre as comunidades mais carentes do mundo, e que a instituição sentiu a responsabilidade de não só desinvestir, mas também investir em soluções climáticas.

Perguntado sobre qual a mensagem que achava que a política agora adotada pela universidade pode enviar a outras instituições católicas, ele respondeu:

“Esperamos que outros vejam com seriedade a questão, como nós vimos, contemplem todo o impacto, os prós e contras, que cheguem à conclusão semelhante de que é possível buscar esta implementação e mover os ativos financeiros no sentido da sustentabilidade”.

No Twitter, a Iniciativa Kalmanovitz para a Mão de Obra e os Pobres Trabalhadores da Georgetown chamou a decisão “um passo histórico para a alinhar as políticas de investimento da instituição com a missão de promover o bem comum através do cuidado da criação”.

A Georgetown passa a ser a terceira universidade católica a desinvestir em combustíveis fósseis, seguindo a Universidade de Dayton, em 2014, e a Universidade de Seattle, em 2018.

Fundada pelos jesuítas em Washington, DC, a Universidade de Georgetown é amplamente vista como um dos principais centros acadêmicos do país. Como muitas faculdades e universidades, há anos ela vem sofrendo pressão de alunos para deixar de investir em combustíveis fósseis, como parte de uma campanha iniciada pelo cofundador da ONG 350.org, Bill McKibben, de enviar a mensagem financeira e moral à economia mundial de que os combustíveis fósseis devem permanecer na natureza a fim de limitar o aquecimento global, evitando as suas consequências catastróficas, o que inclui o aumento do nível dos mares, secas mais intensas, ondas de calor e mais tempestades destrutivas.

Até o momento, a campanha Go Fossil Free já mobilizou mais de U$ 14 trilhões em promessas de desinvestimento, com o setor das organizações religiosas representando 30% do total das instituições aderentes.

O ativista ambiental McKibben tuitou elogiando o trabalho dos alunos da Georgetown, bem como o Papa Francisco, dizendo que a “Laudato Si’ é um convite inequívoco à ação, especialmente para os seus companheiros jesuítas”.

O caminho para o pleno desinvestimento na Georgetown foi sinuoso. Após a criação, em 2012, do grupo GU Fossil Free, os estudantes propuseram que a instituição congelasse todos os novos investimentos em combustíveis fósseis e que se comprometesse com um plano de desinvestimento de cinco anos. Três anos mais tarde, a Georgetown anunciou que eliminaria o carvão de seu portfólio de investimentos. Em 2018, acrescentou o petróleo de areias betuminosas à lista. Estas duas diretrizes, no entanto, não silenciaram os pedidos dos alunos por um desinvestimento pleno.

Um momento-chave foi em 2017, em que o conselho universitário aprovou uma política de investimentos socialmente responsável. Desde a sua implementação, universidade tem afirmado que não investirá em petróleo de areias betuminosas – considerado uma das fontes de combustível que mais emitem gás carbono – bem como evitará investir em prisões privadas.
Esta decisão anunciada há pouco pela Georgetown vem em meio a sinais de que o mundo financeiro está mais perto de considerar o modo como as mudanças no clima impactarão na economia global.

Em meados de janeiro, a Blackrock, a maior administradora de recursos financeiros do mundo, anunciou que tornaria a sustentabilidade e os riscos climáticos componentes centrais de suas estratégias de investimento. Um mês antes, as Irmãs da Misericórdia das Américas apresentaram uma moção conjunta feita por acionistas pedindo que a maior empresa de investimentos do mundo, que lida com valores na casa dos U$ 7 trilhões, use o seu status para pressionar outras companhias a abordarem, com maior rapidez, a questão das mudanças climáticas. E na semana passada senadores democratas escreveram a onze bancos pedindo-lhes que não financiem projetos petrolíferos e de gás natural no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Ártico (Alasca), que o presidente Donald Trump abrira para a mineração.

Nos últimos dois anos, o Papa Francisco recebeu executivos do setor energético e investidores financeiros no Vaticano para discutir uma transição energética mundial à luz da mudança climática causada pela atividade humana, o que os cientistas atribuem predominantemente à queima de combustíveis fósseis. Em todas as ocasiões, o papa repetiu a sua mensagem de que a hora é agora para o mundo se afastar da dependência dos combustíveis fósseis.

Em março, o Vaticano realizará um congresso de três dias chamado Economia de Francisco, chamando jovens economistas a desenvolverem uma economia que seja “justa, sustentável e inclusiva”. Embora o Vaticano não assuma uma postura no tema do desinvestimento no setor, Francisco diz, em Laudato Si’, que “a tecnologia baseada nos combustíveis fósseis – altamente poluentes, sobretudo o carvão mas também o petróleo e, em menor medida, o gás – deve ser, progressivamente e sem demora, substituída”, o que se transformou em um mote aos que defendem o desinvestimento. Até o momento, quase 160 instituições católicas já se comprometeram publicamente em deixar de investir no setor, de acordo com o Movimento Católico Global pelo Clima.

“É hora de abandonar a dependência dos combustíveis fósseis, empreendendo rápida e decididamente transições para formas de energia limpa e de economia sustentável e circular”, disse Francisco em mensagem, de 2019, para Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação.

Boatwright, integrante do GU Fossil Free, disse que muitos alunos apoiam o desinvestimento não só como uma resposta à crise climática, mas também como uma maneira de viver os valores jesuítas da universidade.

“Parece que estamos no lugar perfeito para que a nossa universidade diga não apenas que isso é financeiramente errado, mas também que é moralmente errado. Podemos dizer que é verdade, que a nossa universidade pode apoiar, porque temos como base os nossos princípios”, disse ela.

A jovem também se mostra esperançosa com o movimento da Georgetown no sentido de que este seu desinvestimento ajude a promover a causa entre outros grupos de alunos de outros campi católicos na defesa do desinvestimento. Segundo ela, uma das lições importantes aprendidas foi a de manter uma comunicação com a administração da universidade, construir um engajamento estudantil e, acima de tudo, praticar a paciência.

“Não desistir nunca, porque um trabalho desses leva realmente muito tempo. Acho que tivemos muita sorte de ter uma administração que se dispôs a se comunicar com a gente e nos ouvir”.

 

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