Na Índia, a batalha solitária de algumas religiosas contra o silêncio

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30 Janeiro 2020

O processo de monsenhor Franco Mulakkal, bispo de Jalandhar, preso em setembro de 2018 pelo estupro de uma religiosa, previsto para 25 de janeiro, foi novamente adiado. Em Kerala, algumas religiosas indianas, isoladas de sua comunidade, vivem sob proteção policial depois de defenderem suas coirmãs. O bispo, indagado por La Croix, nega os fatos.

A reportagem é de Constance Vilanova, publicada por La Croix, 29-01-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Os dois policiais de uniforme bege na entrada da Casa São Francisco dão uma ideia da situação. Depois de percorrer uma estrada longa e estreita, para encontrar o que a imprensa indiana chama de "as Cinco", é preciso mostrar as credenciais, declarar os dados pessoais e assinar um formulário. Sob o calor sufocante de janeiro na costa de Malabar, esse pequeno convento com arquitetura colonial emerge cercado por sua moldura de vegetação tropical. A poucos quilômetros de Kuravilangad, no coração de Kerala, no sudoeste da península, cinco freiras da congregação das Missionárias de Jesus resistem ao silêncio da hierarquia católica desde setembro de 2018.

Enquanto uma franciscana atravessa a sala comunal com as persianas fechadas sem olhar para ninguém, a irmã Anupama, que se tornou a porta-voz das cinco rebeldes, explica, com um sorriso levemente irônico: "As outras religiosas que moram aqui nos ignoram há dois anos, não deem atenção" . Logo depois, a irmã Alphy, a irmã Neena Rose e a irmã Joséphine sentam-se ao lado dela. A irmã Ancitta, a quinta, está ausente. Todas estão sob proteção policial. A irmã Anupama, que deixou seu convento em Penjab (no norte do país) para se estabelecer aqui e apoiar a amiga vítima de estupro, relata o terremoto que um pequeno grupo de religiosas causou na Igreja indiana em setembro de 2018. No início de 2017, uma franciscana de sua comunidade, a superior da Casa da Missão de São Francisco, agora com 46 anos, e que optou por ficar em seu quarto durante a nossa conversa, confidencia a elas que foi abusada pelo monsenhor Franco Mulakkal, que na época era bispo siro-malabar de Jalandhar, no norte do país, e responsável por aquela congregação. Os estupros teriam ocorrido 13 vezes, entre 2014 e 2016, por ocasião de várias visitas do bispo de 55 anos.

"Em janeiro de 2017, alertamos os superiores, mas, não recebendo resposta deles, escrevemos a Roma. O silêncio se torna ensurdecedor. Em 28 de junho de 2018, acompanhamos nossa irmã para apresentar denúncia à polícia", lembra a irmã Anupama. Várias semanas após a apresentação da denúncia, a investigação ainda não está sendo iniciada. Em 8 de setembro de 2018, para pedir justiça, as cinco religiosas se manifestam pacificamente em frente ao Tribunal Superior de Kerala em Kochi, apoiadas por representantes de outros cultos e pelo padre Augustine Vattoli, padre de Kerala que funda com elas o movimento Save Our Sisters (SOS, salve nossas irmãs). Manhã e noite por quinze dias: a mesma viagem de ônibus, uma hora e meia de estrada. "Não tínhamos outra solução para transmitir a dor da vítima, exceto nos manifestar na rua", diz a irmã Alphy, com palavras parcialmente cobertas pelo som do ventilador no teto da sala. Essa religiosa, que é a irmã mais nova da vítima, decide deixar o convento de que é superiora a 2500 km dali. Após quinze dias de protestos e intervenções obstinadas midiáticas na Praça Vanchi, a Mons. Franco Mulakkal, são revogadas suas funções em 20 de setembro pela Conferência episcopal católica da Índia. No dia seguinte, ele é preso pela polícia. Liberado sob fiança, vinte e cinco dias depois, o ex-bispo de Jalandhar retorna a Punjab, livre.

“Fiéis fizeram fila para visitá-lo durante a detenção. Ele foi recebido como um herói. Seu julgamento é continuamente adiado por razões técnicas", afirma a irmã Anupama, indignada. “Nós somos abandonadas pela igreja. Nenhum padre ousa vir aqui para celebrar”, lamenta a irmã Alphy. Em janeiro de 2019, a madre superiora das Missionárias de Jesus, irmã Regina Kadamthouttu, enviou-lhes uma carta, pedindo que retornassem aos seus respectivos conventos e denunciando falsas acusações. Elas recebem muitas ameaças, que estão longe de serem insignificantes. Em outubro de 2018, o padre Kuriakose Kattuthara, 61, foi encontrado morto em seu quarto. Aquele padre de Punjab testemunhou contra Franco Mulakkal em agosto de 2018. As irmãs lhe teriam relatado sobre a "conduta imoral" do bispo. A polícia afirma não ter encontrado nenhum sinal, enquanto pessoas próximas a ele atestam que ele estava sob pressão desde que havia dado o depoimento.

A poucos quilômetros das "Cinco", na cidade de Muvattupuzha, a irmã Lissy Vadakkel, uma franciscana clarissa de 56 anos, afeita por uma doença crônica, tem um objetivo: "permanecer viva para testemunhar contra Franco Mulakkal". Para encontrá-la, o mesmo procedimento que em Kuravilangad. Também é preciso declarar os próprios dados diante de duas policiais que a protegem dia e noite. No início de 2019, a franciscana contribuiu para a investigação e recebeu ameaças de morte. Desde então, ela está confinada em um lar por sua congregação. Uma segurança de "categoria A", máxima e inédita na Índia.

Em fevereiro de 2019, a provincial de sua comunidade e três de suas auxiliares foram acusadas de impedi-la de acessar tratamento médico. Para se defender dos membros de sua congregação, ela fugiu do convento onde vivia há 14 anos.

Na cama de seu pequeno quarto, guardada por dois policiais imóveis, a irmã Lissy relata sua terrível solidão: “Eu sou a madre espiritual da vítima. Quando ela me pediu para contar sua história à polícia, naturalmente eu aceitei." Assim, ela se tornou a testemunha número dois do crime e murmura que as outras religiosas estão sempre ouvindo à sua porta. Para sua segurança, ela é proibida de sair do perímetro da casa. Libertar a palavra a aprisionou. “Da verdade deve brotar a luz. Por isso luto à custa de tanto sofrimento", ela murmura, emocionada.

"É absolutamente trágico ver essas freiras condenadas ao ostracismo por ter falado", declara o padre Paul Thelakkat, ex-porta-voz da Igreja siro-malabar e atual editor-chefe da revista semanal da Igreja, em seu escritório em Kochi. “A Igreja está passando por uma grande crise de confiança. Não estou dizendo que as irmãs estejam certas ou erradas, mas devem ser ouvidas: a Igreja deve purificar sua casa", afirma. “Os consagrados e os fiéis que fazem perguntas sobre o funcionamento da hierarquia não devem mais ser considerados rebeldes.” Em abril de 2019, Mons. Franco Mulakkal foi formalmente acusado de estuprar a vítima. Corre o risco de prisão perpétua. Depois de muitas tentativas, La Croix conseguiu contatá-lo através de um aplicativo de mensagem. Uma reação inédita, alguns dias antes do julgamento. “Aquela freira apresentou a denúncia imediatamente após minha solicitação de investigação contra ela. Ela tem um relacionamento sexual com seu primo", afirma. Considera que ter sido acusado de estupro 13 vezes "desafia toda a lógica". "Na Índia, 53% das denúncias de estupro são falsas", acrescenta o prelado, com base em um controverso estudo de 2017 de um órgão que depende do governo, publicado depois de uma onda de manifestações feministas em Délhi contra os estupros. "Uma única religiosa católica sozinha é suficiente para enganar toda a mídia, a polícia e o governo", justifica-se o bispo que se considera no centro de uma "guerra armada, sozinho contra todos”.

O atual porta-voz da Igreja siro-malabar fala de um complô da mídia local e de forças contrárias à Igreja. A irmã Lucy, 55 anos, figura de destaque em Délhi, atende diante de uma placa dizendo "Save Sister Lucy". Em dois anos, essa franciscana clarissa tornou-se a figura de ponta da libertação da palavra das religiosas e participou das manifestações pacifistas de Kochi. Em setembro passado, sua autobiografia, Em nome de Cristo [em tradução livre], teve o efeito de um terremoto. Nela denuncia os abusos de autoridade e sexuais que pontuam a vida de mulheres consagradas na Índia. “A Igreja deve humanizar as religiosas e considerar as mulheres. A obediência não precisa mais ser sinônimo de escravidão”, explica ela. Em agosto de 2019, foi expulsa de sua congregação por comprar um carro em seu próprio nome e por não compartilhar seu salário com a comunidade. "Elas me excluíram porque eu falei", responde a franciscana. Em 17 de outubro de 2019, o Vaticano rejeitou seu apelo.

 

Nota da IHU On-Line:

O Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o seu X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos, a ser realizado nos dias 14 e 15 de setembro de 2020, no Campus Unisinos Porto Alegre.

X Colóquio Internacional IHU. Abuso sexual: Vítimas, Contextos, Interfaces, Enfrentamentos

 

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