Brasil vive pior cenário para indígenas desde a redemocratização, diz antropólogo em Paris

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24 Janeiro 2020

O mundo inteiro tem acompanhado com atenção o que se passa na Amazônia. Não só com relação às queimadas, mas também no que diz respeito à sobrevivência e à preservação das populações indígenas. De passagem pela capital francesa para participar de um colóquio de antropologia, o pesquisador paulista Antonio Guerreiro falou à Rádio França Internacional - RFI sobre os desafios e as ameaças enfrentadas pelos povos da floresta.

A reportagem é publicada por Rádio França Internacional - RFI, 23-01-2020.

“O cenário atual é horrível. É o pior cenário político para os povos indígenas no Brasil desde a redemocratização”, lamenta o professor da Universidade Estadual de Campinas. “Eles estão sob ataques em todas as frentes: sofrem ataques midiáticos patrocinados por discursos oficiais, sofrem um desmonte institucional das políticas de proteção ambiental e das políticas específicas direcionadas aos povos indígenas e sofrem com o aumento exponencial da violência. Além disso, sofrem pressões para cederem direitos duramente conquistados”, completa Guerreiro.

Pesquisador visitante da Universidade de Oxford, na Inglaterra, Antonio Guerreiro apresentou em Paris parte do trabalho que desenvolve no Alto Xingu, no Mato Grosso. A região é um complexo sociocultural multiétnico e multilíngue. Desde 2005, Guerreiro trabalha junto à tribo Kalapalo.

“Eu tenho feito uma pesquisa sobre narrativas a respeito do território tradicional Kalapalo e tenho realizado parcerias de documentação cultural para produção de materiais de apoio ao ensino escolar bilingue nas escolas kalapalo”, explica.

Linguagem refinada

Em Paris, Guerreiro integrou o painel de especialistas convidados para participarem de uma jornada intitulada “Líderes e diplomatas – Arte da palavra e políticas autóctones”, no Collège de France. Um dos temas tratados pelo antropólogo foi a questão linguística dos kalapalo, que falam uma variante da língua karib. "São artes verbais indígenas extremamente refinadas, que comportam conceitos e reflexões complexos sobre o mundo, sobre a vida social, as relações com a diversidade humana e com o mundo não humano”, enfatiza.

“Tem um interesse muito grande da academia internacional tanto do ponto de vista acadêmico, quanto do ponto de vista político. No contexto atual, todos os olhos do mundo estão voltados para a Amazônia, para as populações indígenas e para as suas lutas, em um cenário em que direitos conquistados com muita luta por essas populações, nas últimas décadas, estão sob forte ameaça”, observa.

Uma ilha verde cercada de soja

“A situação do Alto Xingu é muito complexa porque a região está completamente cercada por grandes fazendas de soja, gado, milho e arroz. As relações com esse entorno são muito delicadas. As cabeceiras dos rios que formam a bacia do Xingu, por exemplo, estão fora dos limites da terra indígena e isso coloca em sério risco as populações que estão abaixo das cabeceiras e que dependem da pesca para a sua sobrevivência”, alerta.

Segundo o pesquisador, não há como dissociar a problemática indígena da questão ambiental e suas consequências para o aquecimento global.

“Não há a menor possibilidade de preservação da biodiversidade na Amazônia sem o manejo milenar das populações indígenas e dos grupos quilombolas, das populações ribeirinhas e dos povos amazônicos que aprenderam não só a preservar a floresta, mas que possuem tecnologias extremamente refinadas de produção da biodiversidade", afirma.

Um jardim milenar

“Pesquisas em antropologia, em biologia e química têm mostrado com muita clareza que o solo amazônico mais fértil que se conhece, que é a terra preta, é um solo antrópico, ou seja, é o produto direto da ação humana sobre o ambiente. A biodiversidade de plantas e animais é o produto de intervenções humanas sobre a paisagem. Então, isso que muitas vezes se apresenta como uma floresta virgem a ser preservada, na verdade é um grande jardim que vem sendo cultivado, tornado fértil e diverso por tecnologias milenares”, descreve o professor.

Floresta em pé vale mais que madeira

Antonio Guerreiro chama atenção para a importância de políticas públicas de preservação da Amazônia.

“A floresta vale em muitos sentidos. Tanto de um ponto de vista econômico, quanto de um ponto de vista ainda mais significativo que é aquilo que ela representa para uma diversidade enorme de modos de vida. Sem a floresta, a sustentabilidade de uma diversidade gigantesca de modos de vida está colocada em risco”, alerta.

“Vários povos indígenas estão envolvidos em projetos locais de atividades economicamente sustentáveis que não só extraem ou exploram as suas terras, mas também produzem valor a partir da sua preservação e da contínua renovação dos seus recursos”, completa.

“A gente tem experiências no Brasil que mostram que é perfeitamente possível, se for o desejo das populações que habitam essas terras, produzir valor econômico a partir das suas próprias tecnologias e conhecimentos tradicionais, que têm como suposto a preservação e a renovação da capacidade dessas terras e não a sua simples devastação e extração dos seus recursos, que é o que o modelo econômico dominante tenta vender como a única forma possível de produção de valor”, diz.

Movimento indígena ganha força

Eventos recentes mostram que a comunidade indígena vem se tornando mais ativa na sociedade. Novas lideranças estão surgindo, inclusive com representação na política. É o caso da candidatura inédita de Sônia Guajajara à vice-presidência da República e da eleição de Joenia Wapichana (RedeRR) ao cargo de deputada federal.

“O movimento indígena não é novo. Os povos indígenas brasileiros têm um histórico de organização. Foram participantes ativos e fundamentais para o processo Constituinte. Porém, nos últimos anos é notável como o movimento indígena se intensificou, se articulou em uma nova escala”, comemora Guerreiro.

“Novas lideranças têm aparecido e acredito que a candidatura da Sônia Guajajara foi fundamental para o Brasil no momento em que nós vivemos. A atuação da Joenia Wapichana tem sido exemplar e tido uma repercussão importante. O movimento indígena brasileiro, hoje, está na ponta dos debates e atuação sobre que futuro se pode imaginar para o Brasil”, conclui o antropólogo.

 

 

 

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