Pecado ecológico: ideia de atualizar o catecismo gera debate

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07 Janeiro 2020

O anúncio do Papa Francisco de que o Catecismo da Igreja Católica seria atualizado para incluir uma definição de “pecado ecológico” causou um frenesi entre fiéis na internet.

A reportagem é de Junno Arocho Esteves, publicada por Catholic News Service, 03-01-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

As reações foram desde o elogio pela forma séria como a Igreja estava lidando com a obrigação de cuidar da criação até um cinismo ou mesmo indignação pelo envolvimento da instituição naquilo que muitos consideram uma questão altamente politizada.

“Este ‘criar um pecado’ é absurdo”, alguém postou no Twitter.

Um outro tuíte concordava que “fazer mal a pessoas é um pecado, mas não ‘fazer mal à casa comum’ como se o meio ambiente fosse um ser”.

Se este acréscimo no catecismo for “vago e amplo”, continuou o comentário no Twitter, ele não fará outra coisa senão “fomentar interpretações politizadas”.

O pecado ecológico foi debatido extensivamente durante o Sínodo dos Bispos para a Amazônia em outubro passado, e vários participantes do encontro pediram que a Igreja aprofunde a sua teologia de forma a ajudar que as pessoas reconheçam tais pecados.

No documento final do evento, alguns participantes propuseram que a Igreja defina o pecado ecológico como “como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente”.

Três semanas depois da assembleia sinodal, Francisco contou aos membros da Associação Internacional de Direito Penal que havia planos de incluir uma definição de pecado ecológico no Catecismo da Igreja Católica.

O universo do Twitter muitas vezes reage às notícias com certo sarcasmo, e a menção de um “pecado ecológico” não foi exceção. Uma das publicações supôs que este acréscimo no catecismo significaria considerar “quantos rolos de papel higiênico um católico pode usar antes de se tornar um pecado”.

“Abençoe-me, Pai, pois pequei. Já faz duas semanas desde a minha última confissão. Liguei o ar-condicionado por quatro noites, usei nove canudos de plástico, liguei o motor duas vezes, comi fruta importada e não reciclei latas de alumínio em seis casos”, tuitou um outro usuário da rede social.

Em novembro passado, a teóloga Celia Deane-Drummond, diretora do Instituto de Pesquisas Laudato Si’, na Inglaterra, contou ao Catholic News Service que os pecados ecológicos “são, em um sentido, simples de entender, mas, em outro sentido, complexos, já que estão entre as categorias de mal natural e mal moral”.

“Estes desastres naturais que acontecem, por exemplo, com maior frequência devido à mudança climática, podem, pelo menos em parte, ser atribuídos à atividade humana”, explicou Deane-Drummond.

Embora alguns defendam que os pecados contra a criação em geral não podem ser equiparados com os pecados contra outros seres humanos, Deane-Drummond disse que os pecados ecológicos “unem o sofrimento humano com aquele de outras criaturas”, baseado teologicamente na “doutrina da criação”.

“O relato do Gênesis retrata a queda da humanidade como um rompimento das relações entre Deus, o homem e o mundo natural. Tudo, como já foi dito dezenas de vezes pelo Papa Francisco, está interconectado”, contou a teóloga ao Catholic News Service.

“Portanto não é surpresa e está em plena harmonia com muitos séculos de pensamento cristão pensar os pecados ecológicos como parte e parcela daquilo que significa pecar”, acrescentou. “Ou seja, que prejudicar direta e indiretamente outras criaturas e outras pessoas tem relação com as atividades humanas”.

Falar em pecado ecológico não é novidade, explicou também Deane-Drummond, apontando para a Declaração Conjunta do Patriarca Ecumênico Bartolomeu I e do Papa João Paulo II sobre fé e o meio ambiente, documento conjunto assinado em 2002.

A degradação do meio ambiente e dos seus recursos naturais, diz o seu texto, não é um problema “meramente econômico e tecnológico, mas moral e espiritual”.

“Uma solução a níveis econômico e tecnológico só é possível se experimentarmos, da maneira mais radical, uma íntima mudança do coração, que leve a uma transformação do estilo de vida e dos modelos insustentáveis de consumo e de produção. Só uma conversão autêntica a Cristo nos permitirá transformar o nosso modo de pensar e de agir”, lê-se no texto.

“Essa ideia já existe faz algum tempo”, observou Deane-Drummond. “O que o Papa Francisco está fazendo é encontrar um modo de incorporá-la com mais firmeza na Igreja”.

Deane-Drummond disse ainda que, em um sentido prático, dar a essa ideia uma definição no catecismo ajudará os fiéis a terem uma maior consciência de práticas nocivas como o consumo excessivo dos recursos, estilos de vida que promovem uma cultura do desperdício, indiferença ao sofrimento de pessoas impactadas pelas mudanças climáticas e ações que levam à extinção de espécies.

“Ao chamar de pecado ecológico estas coisas, o texto torna mais visíveis as nossas ações”, disse. “O problema com o desafio enfrentado hoje é que mudanças como estas são, ao mesmo tempo, cumulativas e, muitas vezes, invisíveis: é difícil assumir uma responsabilidade moral por elas na medida em que não ‘vemos’ visivelmente o que está acontecendo”.

 

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