“Sem campo de disputa, entregamos a toalha ao bolsonarismo”, diz pesquisadora

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20 Dezembro 2019

‘Existem muitas contradições na vida das pessoas que precisam ser trabalhadas e disputadas’, diz Rosana Pinheiro-Machado.

A entrevista é de Giovanna Galvani, publicada por CartaCapital, 19-12-2019. 

O jovem negro e periférico que apertou o 17 na urna. A tia do WhatsApp que se coloca em alerta com notícias sobre os perigos das vacinas. O trabalhador precarizado que endossa a reforma da Previdência. Todos esses personagens, muitos e reais, apresentam o que campos progressistas não sabem explicar, e, certamente, não souberam conversar – e convencer – na época das eleições.

Mesmo após quase um ano de Jair Bolsonaro no poder, porém, ainda há muito espaço político para ser debatido. É o que acredita a pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado, cientista social e antropóloga que lançou, em novembro, um novo livro chamado Amanhã vai ser maior.

Com o título esperançoso, a pesquisadora coloca uma proposição de reflexões imediatas para pensar em um Brasil do amanhã, que estará, pelo menos até 2022, sob a égide de Jair Bolsonaro e seu grupo de trabalho. Rosana faz parte da lista de intelectuais que partiram do Brasil, um processo comumente chamado de “fuga de cérebros”, para continuar sua pesquisa do Reino Unido. “Por questões financeiras, acadêmicas, emocionais, de segurança e integridade pessoal, se tornou insustentável ficar no Brasil”, escreveu em uma rede social quando anunciou sua mudança.

Mesmo assim, enfatiza que entrar nos campos de disputa do bolsonarismo é a única maneira de, quem sabe, ter realmente um amanhã mais fortalecido.

Eis a entrevista.

No livro, a senhora fala que há uma imensa energia nos rolezinhos que não foi disputada pela esquerda naquela época. Ainda acha que existe esse vácuo?

Acho que, evidentemente, o cenário piorou. A gente vê o processo de radicalização do bolsonarismo e de uma parte que se aliou às igrejas evangélicas, então a gente tem uma maior parte da população que a gente não consegue disputar. Mas justamente por isso que se torna mais importante ainda dialogar com quem não fez essa virada. É disputar o futuro do país.

Há nesse meio campo os motoristas uberizados, que estão trabalhando em regime intensivo de trabalho, sem direito algum. A gente vê que existem manifestações de motoristas de aplicativos que também trabalham 15h por dia, quase colapsando. Existe muita revolta dessas pessoas em relação à perda do poder de compra e à injustiça que estão sujeitos.

É possível trabalhar com essa revolta, que é legítima. Muitos dos participantes dos rolezinhos viraram bolsonaristas, mas continuavam dizendo: “A polícia bate em mim porque sou pobre”. Existem muitas contradições na vida das pessoas que precisam ser trabalhadas e disputadas. Se não tiver campo a ser disputado, a gente simplesmente entrega a toalha e o futuro do Brasil para os bolsonaristas.

Ao longo do livro, a senhora menciona que é necessário entender algumas “ambiguidades”. Poderia explicar melhor o que quis dizer com isso?

Entender as ambiguidades é entender o jovem que volta no Bolsonaro porque acha que as feministas estão em evidência, mas que eles também apanham da polícia. A gente vê contradições e ambiguidades porque não existe um trabalhador que vem ideologicamente pronto e polido. Ele vem com vieses autoritários, às vezes, por conta da religião e da família, mas por outro lado se indigna com o Estado que não chega na periferia. E isso é legítimo.

Estava falando esses dias com uma diarista que disse que odiava o Bolsonaro, que o achava machista e agressivo por querer liberar as armas, mas a única coisa que ela concordava com ele é em relação a estar preocupada com a filha de 12 anos, que achava que era lésbica. Quantas ambiguidades acontecem nas pessoas comuns?

A senhora citou a questão da uberização, e no livro diz que, em algum momento, isso vai explodir de maneira mais enfática como manifestações. Acha que a perda da sindicalização, que era vista como uma forma de formação política, teve um efeito sobre a classe trabalhadora?

Aconteceu um processo de desidratação do sindicalismo e, ao mesmo tempo, houve uma grande disputa por redes sociais. Essas categorias trabalham com o ideal do empreendedor, que precisa trabalhar mil vezes mais que todo mundo e vai se dar bem. São categorias muito pouco sindicalizadas em plena era de redes sociais, onde há também um processo de anti-esquerda muito grande, em que sindicalista é visto como vagabundo.

A flexibilização do trabalho favorece isso. Os sujeitos estão desagregados, sozinhos, e estão muito abertos a narrativa mítica do empreendedor. Hoje, como a natureza do trabalho mudou radicalmente, os sindicatos não falam para a maioria da população, e a esquerda precisa discutir como chegar nesses trabalhadores, seja via redes sociais ou cara a cara. Como é que a gente vai falar com esse trabalhador? O que temos a oferecer para ele? A esquerda ainda não tem uma narrativa que fale com esse público.

Isso também se relaciona com como a senhora discute o neoliberalismo e a forma de protestar. Pode explicar um pouco mais sobre como ambos se relacionam?

O neoliberalismo é tratado como uma força desagregadora do coletivo, segundo a literatura dos movimentos sociais. O trabalhador passa 15h por dia totalmente isolado, sem a natureza coletiva do trabalho, em um processo extremamente alienante. Ir para as ruas e ocupar é uma antítese do neoliberalismo. É no sentido de dizer que, por um lado, se o neoliberalismo desagrega, é importante romper com isso nos protestos. É reconstruir a possibilidade de viver no coletivo novamente. É um reverso do movimento de alienação.

As ocupações, por exemplo, são a antítese de trabalhar horas sozinho no Uber. É lembrar que precisamos cozinhar, cuidar da própria saúde e da saúde do outro. O neoliberalismo também se relaciona pela apropriação da cidade, porque muitos protestos se caracterizam como uma forma de reocupar o espaço público em um momento que ele é dominado pelo grande capital. A gente teve uma onda inicial de reinventar o urbano: ocupar ruas e praças.

Depois de 2008, nós entramos em uma crise do capital que desencadeou políticas de austeridade no mundo todo, e isso vai fazer as pessoas irem às ruas em resposta a esse mundo que não cabe mais no bolso. Elas não conseguem mais comprar, tudo fica mais difícil.

A gênese dos protestos em 2013 era contra essa sensação que era tudo dado para o 1% e nada para os 99%. Essa era uma pauta extremamente de esquerda, dessa relação corrupta das corporações com os Estados. Infelizmente, em vários países, quem abocanhou e se apropriou dessa pauta foi a extrema-direita de uma forma – às avessas, claro, culpando a globalização.

A senhora apresenta a esperança e os movimentos feministas como correlacionados. Acha que é a questão de avançar na política institucional ou de se fortalecer, primeiramente, nas ruas?

Não vejo como um ou outro. Vejo que é fundamental estar em todos os campos. Há a importância das mulheres confrontarem esse cenário no Congresso, como é o caso das deputadas Talíria Petrone e Fernanda Melchionna, do PSOL. Esses lugares definem uma boa parte das nossas vidas. Esse movimento entre as ruas e o movimento da rotina institucional tem que ser um todo. A luta contra o neoliberalismo será puxada pelas mulheres.

Quando critico a esquerda, vejo que quem está desorganizada é a esquerda velha e tradicional. A luta das mulheres tem sido organizada e está fazendo a disputa em todos os lugares. Se você for em uma periferia, vai ter ao menos uma feminista em algum lugar e isso é uma vitória das mulheres das redes. O sucesso do Ele Não também demonstrou que as mulheres estão articuladas há muito tempo.

A senhora comenta sobre a extrema-direita embasar várias de suas críticas em um academicismo próprio, citado por muitos políticos, como Eduardo Bolsonaro. Qual que deve ser a resposta para esse movimento que é acadêmico, mas ao mesmo tempo, negacionista de conhecimento?

Eles se sustentam pelo anti-establishment da academia e do jornalismo, e acho muito interessante que todo mundo riu do Olavo de Carvalho, o Bolsonaro foi o candidato que mais foi a programas de TV na história do Brasil, e, quando saíram artigos decifrando o Olavo, foram todos no dia após a eleição, no estilo de “quem é o guru de Bolsonaro”.

A esquerda não pode subestimar um campo de conhecimento que cresce nas franjas e que vai abocanhando tudo. O mundo acadêmico é muito pequeno e elitista ainda, apesar de todas as transformações dos últimos anos. É fundamental, agora, que os cientistas reajam.

Nunca é tarde demais. Tivemos que esperar o Bolsonaro ganhar para sair dos muros da academia? Infelizmente. Se tem algo positivo nisso, é que os cientistas brasileiros, num lugar desigual como o Brasil, saiam da redoma dos muros acadêmicos em direção às ruas.

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