O melhor e o pior da Igreja dos EUA em um único dia

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12 Novembro 2019

Foi o melhor da nossa Igreja. Foi o pior da nossa Igreja. Foi um momento de evangelização e um momento para um grosseiro entrincheiramento. Foi um momento para olhar para fora. Foi um momento para olhar para dentro. Foi o espírito do Evangelho e foi o demônio da autopiedade. Foi a “era Francisco”. Foi a era de Pio IX. Tudo isso na quinta-feira passada.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 11-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por volta do meio-dia, eu fiquei sabendo que o NCR havia publicado o texto de um discurso proferido pelo bispo de San Diego, Robert McElroy, na St. Mary’s University, em San Antonio. Convidado a abordar sobre como a Igreja dos EUA deve seguir em frente após o amargo retorno da questão do abuso sexual, McElroy começou lembrando a sua participação no Sínodo da Amazônia no mês passado.

Voltando-se à situação da Igreja dos EUA, ele disse: “A minha sugestão seria a de adotar o tipo de caminho sinodal pelo qual a Igreja na Amazônia está passando – um caminho repleto de consultas profundas e amplas, a disponibilidade de aceitar escolhas árduas, a busca de renovação e de reforma em todos os níveis, e uma fé inabalável na constância da presença de Deus na comunidade”.

McElroy identificou quatro características eclesiais que emergiram a partir do processo sinodal amazônico que poderiam servir de modelo para a renovação da Igreja dos EUA: uma Igreja missionária; uma Igreja corresponsável e participativa; uma Igreja acolhedora; e uma Igreja da harmonia e do diálogo. Ele desenvolveu cada uma dessas quatro características.

As pessoas elogiam McElroy pelo seu intelecto, e esse discurso mostrou por que ele é realmente um dos líderes intelectuais da hierarquia dos EUA. Eu fico continuamente impressionado com a profunda espiritualidade que molda a sua consciência pastoral, como revelado nestas frases, que discutem a necessidade de ser uma Igreja acolhedora:

“Se quisermos construir uma Igreja mais acolhedora nos Estados Unidos, a candente questão do ‘julgamentalismo’ deve ser enfrentada. Não há pecado que Jesus condene mais frequentemente nos Evangelhos do que o do ‘julgamentalismo’. Provavelmente, isso resulta do reconhecimento por parte de Jesus de que este é um pecado em que praticamente todos nós caímos com facilidade e frequência. É um mistério da alma humana o motivo pelo qual as pessoas frequentemente encontram satisfação em apontar para os pecados dos outros, em vez da bondade dos outros. É um mistério da alma humana por que nos sentimos melhor com nós mesmos quando alguém falha.”

Muitas vezes, o chamado para ser uma Igreja acolhedora rapidamente se afoga em banalidades triviais e sentimentais. Mas a abordagem de McElroy tem um impulso agostiniano ao explorar e compartilhar intuições espirituais e também intelectuais.

Sua acusação de clericalismo é uma das mais refinadas que eu já li:

“A questão do clericalismo permanece como uma ruptura dentro da vida da Igreja dos Estados Unidos hoje. É um veneno que protege os abusadores de crianças da detecção e da justiça. É um padrão cultural da vida paroquial que permite os maus tratos aos leigos e leigas e que desculpa palavras e ações que não têm lugar dentro de uma comunidade cristã. Ele distorce padrões efetivos de tomada de decisão nas comunidades eclesiais em todos os níveis. Ele deturpa as almas de padres e bispos e os afasta de Cristo.”

Abrangente e abrasador. A sua discussão sobre a necessidade de reconhecer melhor os dons daquela metade da população mundial que são as mulheres é igualmente direta. Se eu tivesse uma crítica, é de que a esperança dele no sentido de que a sinodalidade poderá curar as divisões dentro da Igreja nos EUA é indevidamente otimista. Eu concordo que vale a pena tentar, e que é uma abordagem melhor do que qualquer outra, mas eu temo que as divisões dentro da Igreja sejam grandes demais, e nós provavelmente testemunharemos um cisma nos próximos anos, do qual a única questão é o seu tamanho.

Na tarde de quinta-feira, os jornalistas receberam um tipo diferente de texto nos seus e-mails, um documento emitido por James Rogers, chefe de comunicações da Conferência dos Bispos dos EUA. Era uma refutação de quatro parágrafos de uma seção do livro recentemente publicado por Austen Ivereigh, no qual ele detalha a oposição ao papa Francisco entre as lideranças da Conferência e, especificamente, o esforço deles do ano passado para forçar o Vaticano a adotar políticas que as lideranças da Conferência sabiam, ou deveriam saber, que o Vaticano não aprovaria. A declaração como um todo sintetizava a “mentalidade de bunker” que McElroy havia repreendido na sua palestra. Foi algo digno do papa Pio IX.

A declaração também revelou a petulância do grupo de guerreiros culturais dos bispos e da equipe que dirigem a Conferência atualmente.

“O novo livro de Austen Ivereigh,Wounded Shepherd’ [Pastor ferido], perpetua um mito infeliz e impreciso de que o Santo Padre encontra resistência entre a liderança e a equipe da Conferência dos Bispos dos EUA”, começa o comunicado. “O autor afronta o secretário geral e um consultor da Comissão de Assuntos Canônicos particularmente ao sugerir que eles elaboraram documentos em outubro que foram deliberadamente excluídos de Roma. Isso é falso e enganoso.”

Pobres dom Brian Bransfield, secretário geral, e monsenhor Ronny Jenkins, consultor e ex-secretário geral. Seus sentimentos foram feridos. Levou semanas para que eles emitissem uma declaração condenando a separação de crianças imigrantes de seus pais por parte do governo Trump, mas alguém afronta o secretário geral, e eles postam uma declaração no mesmo dia. Patético.

Deixando de lado o tom e o conteúdo sensíveis da declaração, a decisão de divulgá-la foi, simplesmente, tonta. O que se conseguiu, exceto vender mais alguns milhares de livros de Ivereigh? Por que relembrar a humilhação do encontro do ano passado, quando o presidente da Conferência, o cardeal Daniel DiNardo, teve que informar o órgão de bispos que a Santa Sé havia exigido que eles não continuassem com a votação de suas propostas para enfrentar o abuso sexual do clero? Ficou óbvio no ano passado que, nas discussões das lideranças da Conferência com Roma antes da plenária de novembro, as autoridades vaticanas acenderam a luz amarela, e as lideranças não a viram ou optaram por ignorá-la. Incompetentes ou truculentas, você decide.

Uma das principais tarefas de liderar a Conferência é conduzir as negociações dos bispos com Roma. As lideranças da Conferência fracassaram miseravelmente no ano passado em fazer isso de forma eficaz e acabaram com um ovo em sua cara. Agora, um ano depois, a incompetência delas brilha novamente, chamando a atenção para o livro que indica as suas falhas, atenção que o livro ainda não havia recebido por conta própria. Bom trabalho. Eu espero que Ivereigh envie flores a Bransfield e Jenkins pelo aumento nas vendas do livro, e a sua editora deveria postar a declaração na Amazon.

Nesta semana, a Conferência elegerá um novo presidente e vice-presidente. É quase certo que os bispos elegerão o arcebispo José Gomez como novo presidente da Conferência dos Bispos dos EUA. Ele deveria começar a busca de novas lideranças para as equipes imediatamente. Bransfield deve ir embora. Rogers, o oficial das comunicações cujo trabalho era jogar o seu corpo na frente desse trem descontrolado, deveria ir embora. Eu poderia citar outros. [...]

O bem e o mal. É a condição humana. Esperamos que, na vida da Igreja, o bem possa brilhar um pouco mais, e o mal, um pouco menos, mas essa é uma esperança que tem sido frustrada ao longo da história. Raramente, porém, você encontra o melhor e o pior da Igreja no mesmo dia, como na quinta-feira passada. Que dia! Que Igreja!

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