A questão por trás do Sínodo: como a mudança pode e deve acontecer na Igreja?

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07 Novembro 2019

Na segunda-feira, eu analisei como uma parte da cobertura do Sínodo da Amazônia refletia uma miopia cultural. Hoje, proponho olhar para a questão que está por trás do Sínodo, de fato, a questão que está por trás de grande parte deste pontificado. Ela é simples: como a mudança pode e deve ocorrer na Igreja Católica? A pergunta é simples, mas a resposta não.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 06-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Primeiro, a ideia conservadora de que toda doutrina e prática eclesiais foi fixada desde toda a eternidade – e que o modo ocidental de expressar essa doutrina e prática é o único modo legítimo, especialmente como foi expressado nos anos 1950 ou no pontificado do Papa São João Paulo II – é, para usar um termo teológico técnico, “bobagem”...

Na introdução do Código de Direito Canônico, promulgado por João Paulo II em 1983, lemos o seguinte:

“Como é óbvio, ao divulgar-se a primeira notícia da revisão do Código, o Concílio ainda pertencia inteiramente ao futuro. Além disso, os atos de seu magistério, e principalmente sua doutrina sobre a Igreja, só se completariam nos anos de 1962 a 1965. A ninguém, porém, escapa ter sido acertadissíma a intuição de João XXIII, devendo sua decisão ser reconhecida como atendendo de antemão, com muita antecedência, ao bem da Igreja.”

A frase “os atos de seu magistério, e principalmente sua doutrina sobre a Igreja, só se completariam nos anos de 1962 a 1965” salta da página. O Papa São João XXIII havia anunciado a sua intenção de reformar o direito canônico, mas isso não pôde ser feito antes porque ainda havia uma “doutrina a ser completada”. Ou seja, para usar um verbo que associamos a São John Henry Newman, a doutrina precisava ser desenvolvida. É crucial para entender a oposição a Francisco reconhecer que grande parte disso se baseia em uma compreensão de João Paulo II que é distorcida ou, pior, de fato, uma grave falta de conhecimento da história da Igreja.

É tão deprimente para mim, no entanto, ver os liberais católicos vendo a mudança na Igreja através das mesmas lentes das guerra culturais que os conservadores católicos.

O subtítulo de um artigo de Sara McDougall, no The New York Times – “O esforço para permitir que homens casados atuem como padres não é progresso. É outra forma de misoginia” –, aponta para o problema da esquerda com a cobertura do Sínodo: a suposição de que a mudança eclesial olha para uma certa direção, e que essa direção deve ser semelhante às normas culturais modernas e ocidentais. E não foi apenas o subtítulo: o artigo de McDougall contém estas frases:

“De acordo com as leis da Igreja Católica, conhecidas como direito canônico, o fato de os padres poderem ou não se casar é uma lei humana, e portanto mutável, enquanto a exclusão das mulheres é divinamente ordenada. Mas o sacerdócio em si mesmo é uma invenção humana, um amálgama da tradição judaico-romana e de outras tradições, refinado e também apenas tardiamente vinculado à missa, uma performance ritual que reencena e celebra os mais importantes princípios da fé católica.”

O link indicado no texto de McDougall é a artigo de Gary Macy publicado no NCR [disponível aqui, em inglês], um teólogo da Universidade de Santa Clara. Macy examina os desdobramentos históricos e como alguns desses desdobramentos refletiram desdobramentos mais amplos no ambiente cultural, mas em nenhum lugar ele diz que a ordenação é “uma invenção humana”.

Nós, católicos, acreditamos que o Espírito Santo guiou a Igreja no século I, no século VIII e no século XII, assim como o Espírito a guia hoje. Há erros na história da Igreja Católica, sem dúvida. A presença do Espírito Santo não garante tudo, mas, na fé, acreditamos que não existem “invenções exclusivamente humanas”.

Para dar outro exemplo, o NCR publicou recentemente um editorial sobre a questão dos católicos LGBTQ. O texto se concluía com estas palavras: “Vamos nos alegrar com os incrementos, mas apenas com o entendimento sóbrio de que, enquanto os católicos LGBTQ estiverem à margem, e enquanto o ensino da Igreja sobre a sexualidade em tantas áreas permanecer inalterado, embora possa ser mudado pelos papas, há muito mais trabalho a ser feito”.

Eu não duvido de que mais trabalho precise ser feito. A nossa teologia católica sobre a questão da homossexualidade é lamentavelmente inadequada, mas eu também acho que uma boa leitura do testemunho do Novo Testamento indica que a libertação sexual de qualquer tipo não estava na lista das prioridades de Jesus.

Mas o que este editorial realmente contesta é a ideia de que nós, católicos liberais, realmente sabemos o fim do desenvolvimento teológico e esperamos que a Igreja universal suba a bordo. Como uma mudança significativa no ensino da Igreja sobre a sexualidade humana afetaria as relações ecumênicas? Como isso seria recebido no Sul global? Essas são perguntas que os pastores devem se fazer e responder antes de se precipitarem em abraçar as normas da cultura ocidental.

Estou relendo o clássico livro “Cristo e Cultura”, de H. Richard Niebuhr. Eu tinha esquecido o quão brilhante ele é. Ele considera a escola da fé que percebe um “Cristo da cultura” em oposição a um “Cristo contra a cultura”. Naquela época, a multidão do “Cristo da cultura” era formada por protestantes liberais da linha principal, mas cujas visões acompanham de perto os católicos liberais de hoje. Em uma das várias passagens devastadoramente incisivas, ele escreve:

“Assim como seus colegas radicais, os fiéis do ‘Cristo da cultura’ inclinam-se para o lado da lei ao lidarem com a polaridade entre lei e graça. Por obediência às leis de Deus e da razão, especulativas e práticas, os homens são capazes, eles parecem pensar, de alcançar o alto destino dos conhecedores da Verdade e dos cidadãos do Reino. A ação divina da graça é análoga à obra humana; e às vezes parece que o perdão dos pecados, até mesmo as orações de ação de graças, são todos meios para um fim, e um fim humano, além disso.”

Como eu digo, devastadoramente incisivo.

O Papa Francisco ofereceu à Igreja um modo de responder à questão sobre a mudança que, acredito eu, é tão importante e óbvia que às vezes a ignoramos, e se trata da sua ênfase na sinodalidade. O Sínodo da Amazônia envolveu uma ampla consulta antes do evento. Uma vez convocadas, as conversas na sala sinodal e nos pequenos grupos foram surpreendentemente francas, pelo que me disseram. Agora, depois de aprovarem um documento, eles entregam ao Santo Padre a decisão de colocar o seu selo de autoridade sobre as deliberações. Deus amou tanto o mundo que não enviou uma comissão...

O teólogo Massimo Faggioli, da Villanova University, explicou-me que o Concílio Vaticano II discutiu a colegialidade, e não a sinodalidade. Francisco está tentando empregar a sinodalidade como um meio de expressar a colegialidade. “Não temos pensado a sinodalidade há séculos”, destacou Faggioli. Um sínodo pode ser um evento local ou nacional. Os papas devem convocar os concílios, mas não os sínodos. Resta saber como a sinodalidade se desenvolverá. Mas, como um meio para discernir como o Espírito está chamando a Igreja, eu não consigo imaginar um método melhor. Minha única preocupação é que isso possa provocar uma poderosa força centrífuga, mas o nosso ensino sobre o primado papal certamente pode funcionar como uma verificação centrípeta sobre qualquer coisa muito precipitada ou errada.

Eu espero sinceramente que os pessimistas tanto da esquerda quanto da direita observem o que esse papa está fazendo e tenham confiança de que o Espírito está trabalhando na nossa Igreja. Eu espero que as pessoas que acham que a mudança é impossível estudem um pouco de história da Igreja. E eu também espero que aqueles que acham que a mudança eclesial é fácil se lembrem de que alguns de nós podemos não conseguir e de que aquilo que é considerado fácil pode ser difícil.

Aqui está uma boa regra geral que eu uso: se você entrevê Cristo de tal maneira que ele sempre confirma as suas crenças e nunca o faz se contorcer, você está no caminho errado e precisa de alguma orientação espiritual. Isso funciona no nível pessoal. No nível eclesial, a sinodalidade pode ajudar a manter a Igreja no caminho certo, seja qual for o caminho e seja aonde quer que ele conduza.

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