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08 Novembro 2019

“Pode-se renomear o fascismo, reconhecer o fascismo eterno, dando-lhe o nome de 'egofascismo', um nome que resume toda uma cultura e toda uma história. O egofascismo é colocar-se no centro, em primeiro lugar e no lugar de qualquer outro, e fazer isso com todo e qualquer meio, às custas de toda e qualquer violência, no princípio de todo sacrifício.”

A opinião é de Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado em Chiesa di Tutti, Chiesa dei Poveri, 07-11-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O cardeal Camillo Ruini (ex-presidente da Conferência Episcopal Italiana, CEI, e bispo vigário de Roma nos anos de 1991 a 2008) sugere que se dialogue com Matteo Salvini [senador italiano e líder do partido Liga Norte], que é pensado como futuro: como futuro seu, mas também nosso (“ele tem notáveis perspectivas diante de si”).

Isso significa passar, em relação a ele, da resistência ao viático e remover a tampa que, felizmente, o sistema político italiano colocou para impedir ou pelo menos atrasar a irrupção das águas dos plenos poderes, transbordando de urnas precocemente convocadas. Essa tampa, embora improvisada e desajeitada, é o que dá razão ao governo no cargo e o transforma em um governo da razão.

Passar da resistência ao viático ao líder da Liga Norte significa remover a tampa, privar o governo dessa razão, derrubá-lo. É o que, desde o primeiro dia da sua concepção e do seu nascimento, estão fazendo muitos poderes internos e externos ao governo, que operam até mesmo entre as forças que o conceberam e o habitam.

Entre esses poderes que, dia após dia, minam as frágeis fundações sobre as quais o governo se sustenta, há quase todo o sistema cultural e midiático que age sob a ditadura do dinheiro. Essa é a TV comercial, inteiramente determinada pelo dinheiro, que se revela descaradamente decidindo grades de programação, maratonas e tempos concedidos aos programas nos intervalos entre uma propaganda e outra.

Os sujeitos que fazem os programas tornam-se, desse modo, eles mesmos, objetos. Não é a televisão que faz a publicidade, é a publicidade que faz a televisão. Ou seja, é o mercado, e ainda bem que existe o mercado, porque, desaparecendo o controle humano, pelo menos o mercado, pelas suas razões nem tão misteriosas, tem interesse de que algo de humano continue, de que a convivência se sustente e de que os coros racistas, que ameaçam interromper o espetáculo nos estádios, não existam.

Ora, a TV gerida pelo dinheiro sabe muito bem que, assumindo-se o lucro como fim, a única produção lucrativa é o espetáculo. E os espetáculos custam caro: basta olhar para os Teatros de Ópera, cujas apresentações por causa dos coros, das orquestras, das primeiras-damas e das encenações custam caro demais e, por isso, fecham.

Mas a TV comercial encontrou a galinha dos ovos de ouro, encontrou o espetáculo que não custa nada e, pelo contrário, paga para ser apresentado. Esse programa é a política, que por si só pode cobrir o arco inteiro da programação, quando é de manhã, quando é de tarde, quando é de noite, e depois novamente de manhã.

Mas o espetáculo que dá audiência (sabe-se disto desde o Teatro Grego) é a tragédia e a farsa. E a política é muito boa como espetáculo, contanto que se apresente como tragédia e como farsa. E se, em si mesma, ela não é tragédia nem farsa, a TV faz com que ela se transforme nelas, deve torná-la isso, caso contrário deveria transmitir outras coisas, muito mais caras. Isso significa que, como “médium”, instrumento midiático, a TV deve se tornar mediadora e autora do falso, da fake news por excelência: porque a política é algo completamente diferente daquilo que é mostrado, é a obra do viver juntos, e a verdadeira política não é apenas a disputa por este ou aquele problema determinado, mas sim aquela da qual dependem as condições de vida e o destino dos homens e das mulheres sobre a terra.

É nessa visão mais ampla que a tampa não deve ser removida.

Mas por que existe essa escolha, essa deriva em favor de Salvini? Salvini não apenas tem um futuro, mas também um passado. O passado de Salvini é a cultura e a política do Ocidente após 1989, isto é, desde que se fez a globalização, mas sem uma ideia (uma ideologia!) que a fundamentasse, sem o pensamento de uma unidade humana da qual ela fosse o efeito.

E esse passado, na Itália, é também o passado da Igreja de Ruini, desde os anos 1980 até o Papa Francisco, no longo tempo do eclipse do Concílio. A característica dessa Igreja foi a ideia de que, na sociedade, à medida que a fé diminuía, a Igreja devia se fazer portadora de um “projeto cultural”, de uma cultura com trajes seculares: não de uma política, porque esta, depois de triturado o “catolicismo democrático”, era deixada nas mãos dos políticos, da direita que havia, mas seguida de perto, para que se tornasse “permeável” às demandas católicas e, assim, como reivindica Ruini, trouxesse “frutos” para a Igreja.

Desse modo, a Igreja se incorporou à cultura da modernidade, os fiéis foram entregues para essas pastagens. E é essa mestiçagem cultural (ateísmo e terços) que chegou até nós. É a cultura de uma Igreja como ela foi e que, como tal, está destinada a acabar se o papa Francisco não for continuado e se se quiser fechar as portas para a Igreja que será.

Ora, a velha cultura, hoje endêmica, senão hegemônica, não é apta a salvar a Terra e a fazer a história continuar. Salvini, com razão, se recusa a ser chamado de “fascista” e denuncia quem faz isso, mesmo que o Ministério Público de Milão diga que isso não é crime. O fascismo é um fenômeno histórico nascido do massacre da Primeira Guerra Mundial e do ímpeto de Mussolini, e não é repetível em qualquer outra forma. Mas é próprio do homem nomear as coisas e até “renomeá-las”, quando necessário, como agora o computador nos faz fazer.

Pode-se renomear o fascismo, reconhecer o fascismo eterno, dando-lhe o nome de “egofascismo”, um nome que resume toda uma cultura e toda uma história. O egofascismo é colocar-se no centro, em primeiro lugar e no lugar de qualquer outro, e fazer isso com todo e qualquer meio, às custas de toda e qualquer violência, no princípio de todo sacrifício.

É a moral do Príncipe, a razão de Estado, o núcleo duro da soberania. É dizer “primeiro os italianos” ou “só os italianos” e, por isso, fechar os portos, destinar os migrantes para o inferno, fazer passar a cultura “melhor mortos do que desembarcados”, singular inversão do grito “melhor mortos do que vermelhos” e retomada do mais antigo “não me importa” [me ne frego]: da morte e da perdição do outro. É a cultura da dialética, da contradição, que é, além disso, a cultura do inimigo, de Heráclito a Hitler, até a cultura da maioria, até a ameaça: “Com um voto a mais, governamos sobre todos”.

Se realmente estamos em uma mudança de época, é essa cultura que deve mudar. Existe outra cultura, não da alternativa, mas da troca (o cristianismo, do qual se beijam os símbolos, é a inversão absoluta da dialética, com a sua união entre humano e divino, que até definiu como “consubstanciais”). É a cultura do “I care” (eu me importo), do “primeiro os outros”, “primeiro os pobres, os fracos, os expulsos”, é a cultura da casa de todos e da unidade humana, a cultura pela qual ou nos salvamos todos juntos ou não se salva ninguém.

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