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16 Outubro 2019

"O fenômeno não afeta apenas a Polônia. A questão religiosa voltou ao centro das atenções em países com tradições muito diferentes entre si, dos EUA à Rússia, da sempre citada Hungria à Bulgária. O tema afeta países que construíram sua identidade histórica no secularismo do estado, como França e Turquia, e em países que, embora reconhecendo amplos privilégios às igrejas, adotaram uma narrativa nacional inteiramente baseada na liberdade dos comportamento individual, como a Holanda", escrevem Jan Zielonka e Stefania Bernini em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 13-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Jan Zielonka, ensina Políticas Europeias na Universidade de Oxford: seu último livro é “Controrivoluzione. La sfida all’Europa liberale” (Contrarrevolução. O desafio para a Europa liberal, em tradução livre, Laterza 2018).

Stefania Bernini ensina no Collegium Civitas em Varsóvia e na Universidade Ca 'Foscari de Veneza.

Eis o artigo. 

A gente costumava considerar os nacionalismos que reinam em Varsóvia ou Budapeste como fenômenos diferentes de nós, sistemas inacabados. Mas agora a questão religiosa, e dos símbolos, está se espalhando em mais países europeus. Estamos caminhando para o cato-fascismo". As palavras do escritor Jacek Dehnel na capa da edição polonesa da Newsweek não deixam dúvidas e resumem os medos e questões suscitadas pelas iminentes eleições na Polônia. É um exagero? E se não for, como o extremismo religioso polonês nos afeta?

Apesar do dinamismo econômico e social da Europa Central e Oriental, permanece forte a ideia de que países como Polônia e Hungria são diferentes de nós: países em perene transição, não plenamente europeus e com sistemas políticos de alguma forma ainda inacabados. Um mundo exótico, de difícil interpretação. Os bárbaros no jardim, para citar o poeta polonês Zbigniew Herbert. Essa ideia de "exceção" leva muitos observadores ocidentais a interpretar a política polonesa usando as lentes do passado, associando-a a um catolicismo visceral que acorrentaria uma sociedade economicamente brilhante a esquemas culturais atrasados. A questão é mais complexa.

A importância dos símbolos

Para começar, os dados sobre o comportamento dos poloneses indicam um processo de secularização muito rápido, especialmente entre a faixa abaixo dos 40 anos. Com um fenômeno bem conhecido na Itália, diminuem na Polônia não apenas as vocações e a participação nos sacramentos, mas principalmente o número daqueles que seguem as prescrições da Igreja em sua conduta privada, começando por sua vida sexual e reprodutiva. Apesar disso, a religião está cada vez mais presente na retórica política do partido Direito e Justiça (Prawo i Sprawiedliwosc - PiS). A campanha eleitoral de 2015 foi dominada pela questão da migração. Hoje, a discussão é toda centrada sobre símbolos e valores religiosos.

O fenômeno não afeta apenas a Polônia. A questão religiosa voltou ao centro das atenções em países com tradições muito diferentes entre si, dos EUA à Rússia, da sempre citada Hungria à Bulgária. O tema afeta países que construíram sua identidade histórica no secularismo do estado, como França e Turquia, e em países que, embora reconhecendo amplos privilégios às igrejas, adotaram uma narrativa nacional inteiramente baseada na liberdade dos comportamento individual, como a Holanda.

Os soberanistas poloneses dizem não à "imigração islâmica" porque colocaria em risco as raízes cristãs da Polônia; os populistas holandeses, porque limitaria a liberdade de costumes dos Países Baixos.

A intensificação da questão religiosa em diferentes contextos nos lembra que a reação antiliberal é em primeiro lugar uma contrarrevolução ideológica, que não diz respeito a essa ou aquela política, mas a própria definição de normalidade. É dentro desse confronto que símbolos que nos acostumamos a considerar alheios à esfera política se tornaram instrumentos privilegiados de contraposição. Os soberanistas, mais do que os liberais, entenderam que a midiatização da ação e do discurso político contemporâneo não reduz o poder dos símbolos, mas o amplia de maneira desmedida.

O líder do PiS, Jarosław Kaczynski, entendeu isso perfeitamente, pois fez das referências religiosas uma ferramenta central de retórica política. Na Polônia, os símbolos religiosos tornaram-se, assim, sinais totalizantes de pertencimento. Uma falha intransponível entre aqueles que acreditam que uma sociedade moderna possa e deva estar aberta à diversidade e à multiplicidade de autoidentificação (não importa se sexual, cultural, política ou religiosa), e aqueles que se reconhecem em um "nós" rígido, feito de cultura e tradição. Estão em jogo os direitos individuais que envolvem as esferas mais íntimas da vida: da liberdade de amar quem você quiser àquela de escolher como, se e quando conceber um filho.

Para as mulheres, a pergunta é se seria possível proteger a própria saúde, mesmo quando quem a coloca em discussão for um feto. Para as minorias sexuais, se seria lícito declarar e ver reconhecida a própria identidade. Para todos os cidadãos, se as normas de vida dependam do pacto civil em que o estado se baseia ou dos valores estabelecidos pela Igreja.

Acostumados a associar modernidade e secularismo, tendemos a ler o ressurgimento de referências religiosas como um sinal de atraso. Tranquiliza-nos a pensar nos poloneses ou nos húngaros como alguém diferente de nós. No contexto italiano, somos tentados a reduzir os rosários de Salvini a bugiganga propagandística, a ser condenada, mas sem levar isso muito a sério. Se o que nos preocupa é a defesa do estado laico, seria melhor não subestimar a importância dos símbolos na política, por mais bizarros ou ofensivos que possam nos parecer.

Na contrarrevolução antiliberal, os valores religiosos servem sobretudo para evocar um suposto sentimento comum, a ser contraposto a uma minoria liberal/cosmopolita, apresentada como estranha por visão e experiência do mundo. Aos liberais que falam sobre a complexidade do presente, os soberanistas respondem com poucas imagens simplificadas, muitas vezes nostálgicas, e justamente por isso extremamente poderosas. Entre estas destaca-se a evocação da família chamada "normal" (mãe, pai e dois filhos, de acordo com uma recente definição de Kaczynski) e a redução de todas as outras formas de convivência como sinal de egoísmo, inaturalidade e perversão.

O dilema católico

Se a virada cato-fascista profetizada por Dehnel for realizada, os católicos poloneses terão que escolher entre o chamado identitário e a defesa de uma concepção plural da sociedade e do papel do Estado. Kaczynski afirmou recentemente que fora da igreja há apenas o niilismo.

A chamada "ideologia de gênero" tornou-se o inimigo público número um. Alguns efeitos já são evidentes. Os ataques verbais e físicos às manifestações de Orgulho Gay e contra membros das comunidades LGBTQ tornaram-se mais brutais; uma série de municípios poloneses liderados pelo PiS declarou seu território "zona livre da ideologia LGBTQ".

No discurso cato-fascista, aquele que não se identifica com a Igreja não é verdadeiramente polonês e, como tal, deve ser isolado, humilhado e excluído. Se o PiS vencer e seguir os componentes mais radicais, a polarização ideológica que já está dominando a Polônia será ainda mais exacerbada, fazendo com que precipite em uma contraposição que exclui qualquer possibilidade de compromisso.

Tal contraposição já é evidente não apenas entre católicos e leigos, mas também entre católicos extremistas e moderados, entre aqueles que aceitam uma sociedade plural e aqueles que esperam uma sociedade baseada em uma única, irrefutável verdade. Entre os que defendem a democracia liberal e os que aspiram a uma teocracia.

A Polônia nos lembra que uma sociedade construída sobre o nós-contra-eles jamais produzirá apenas uma reafirmação do nós-nação contra as elites cosmopolitas ou contra os migrantes, extremos de fortuns e desventura estranhamente unidos no ódio populista. A ser questionada será inevitavelmente a maneira com que conduzimos a vida do dia-a-dia. Seria bom ter em mente que o soberanismo é principalmente um projeto ideológico, baseado na proposta de uma definição iliberal de normalidade. Indiferentemente se italiana ou polonesa.

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