Equador. Fim de ciclo e instabilidade sistêmica. Artigo de Raúl Zibechi

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14 Outubro 2019

“O protesto equatoriano não é apenas uma reação contra o aumento dos preços dos combustíveis. É uma reação ao mau governo de Moreno que se apoiou nos grandes grupos empresariais, financeiros e midiáticos, e é a continuação das resistências ao regime autoritário de Rafael Correa (2007-2017)”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 11-10-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Os episódios vividos pelo Equador demonstram uma profunda instabilidade que vai muito além da conjuntura e afeta toda a região. O governo de Lenín Moreno decidiu impor um pacote de medidas aconselhadas pelo FMI que pressupõe o fim dos subsídios aos combustíveis, com um aumento de 123% no preço do galão do diesel e de 30% no da gasolina, acompanhado de reformas trabalhistas e tributárias para aumentar a arrecadação.

Inicialmente, a mobilização correspondia à associação dos transportadores, mas logo se somaram os maiores movimentos do país, em grande parte, como resposta ao decreto que impõe o estado de exceção, a suspensão das garantias democráticas e a militarização do Equador.

A Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE), a central Frente Unitária dos Trabalhadores, os sindicatos de educadores e a federação de estudantes universitários promoveram mobilizações em todo a nação, especialmente na serra (com 300 bloqueios de estradas), onde os povos originários têm maior presença e, em Quito, o epicentro dos conflitos sociais.

Dezenas de grupos de mulheres, feministas, lésbicas, negras, ecologistas e transexuais lançaram uma declaração intitulada Mujeres contra el Paquetazo (Mulheres contra o Pacotaço), na qual denunciam centenas de detidos e feridos, entre eles o coordenador do Pachakutik, Marlon Santi, e dirigentes juvenis da CONAIE.

O protesto equatoriano não é apenas uma reação contra o aumento dos preços dos combustíveis. É uma reação ao mau governo de Moreno, que se apoiou nos grandes grupos empresariais, financeiros e midiáticos, e é a continuação das resistências ao regime autoritário de Rafael Correa (2007-2017).

De fato, muitos recordam o ciclo de protestos de junho a dezembro de 2015, contra as medidas do governo para abrandar a queda nos preços do petróleo, que representa mais de 40% das exportações. Naquele momento, os níveis de repressão foram muito semelhantes aos atuais, embora Correa não tenha decretado estado de exceção em todo o país.

Para avaliar a crise equatoriana, como uma crise da governabilidade, devemos retornar a seis anos atrás. Em 2013, falamos sobre o fim do consenso lulista, como resultado da onda de mobilizações conhecida como Junho de 2013, que marcou o declínio do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e o início do fim do ciclo progressista na região.

Dois anos depois, com a derrota eleitoral do kirchnerismo na Argentina, ficou evidente que o fim do progressismo se acelerava, pautado por uma nova fase dos movimentos que estão se expandindo, consolidando e modificando suas próprias realidades. Uma das principais características do novo período conservador, ou direitista, é a evaporação da governabilidade e a entrada em um período de instabilidade sistêmica.

Como lembrete, gostaria de destacar algumas características do período em que vivemos na América Latina e que agora surgem de forma transparente no Equador.

A primeira é o protagonismo dos movimentos, ou seja, das pessoas comuns organizadas e mobilizadas. Este é o aspecto central. Se o fim do ciclo progressista foi anunciado pelas gigantescas mobilizações de Junho de 2013, em mais de 350 cidades do Brasil, durante um mês, o ocaso das novas direitas é anunciado pelas mobilizações em torno do Congresso de Buenos Aires contra a reforma previdenciária, em dezembro de 2017, sob o governo de Mauricio Macri.

Após uma fenomenal batalha campal, na qual quase 200 pessoas foram feridas pela polícia em poucas horas, no dia 19 de dezembro, os veículos de comunicação destacaram: a Argentina está demonstrando mais uma vez que é o país da América Latina onde é mais difícil realizar reformas impopulares. Não é por acaso que alguns meses depois começou o aumento do dólar que sepultou o governo macrista.

A segunda é que o fim da governabilidade, própria dos primeiros anos do progressismo, é de caráter estrutural e tem pouca relação com os governos. O ciclo progressista se solidificou nos altos preços das commodities, com grandes superávits comerciais que untaram as políticas sociais. Melhorar a renda dos mais pobres sem tocar na riqueza foi o milagre progressista.

Esse consenso terminou com a crise de 2008 e a guerra comercial Estados Unidos-China não faz mais que aprofundar a instabilidade. Não é possível continuar melhorando a situação dos setores populares sem tocar na riqueza e os governos que se afirmam progressistas não farão outra coisa a não ser aprofundar o extrativismo e a desapropriação dos povos: Andrés Manuel López Obrador e o possível governo de Alberto Fernández são parte dessa realidade.

O panorama dos próximos anos será uma sucessão de governos, progressistas e conservadores, com um cenário de vastas mobilizações populares. Trata-se do fim da estabilidade, de qualquer cor.

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