“Pobres são aqueles que não têm o direito de ter direitos”: o Padre Gustavo Gutiérrez em conversa com Andrea Riccardi

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10 Outubro 2019

Andrea Riccardi e o padre Gustavo Gutiérrez, teólogo peruano considerado o pai da "teologia da libertação", deram vida a uma intensa conversa sobre o tema "a Igreja e os pobres", diante de um público numeroso e atento.

Muitos foram os assuntos tratados por aquele que o Papa Francisco definiu recentemente como o "enfante terrible" que nos fez descobrir os pobres, mas acima de tudo uma teologia que desce à concretude da vida das pessoas, especialmente dos pobres.

A reportagem é publicada por Comunidade de Santo Egídio, 09-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Andrea Riccardi iniciou a conversa recordando como a do padre Gutiérrez tenha sido a vida de um pastor entre seu povo e de um estudioso que propôs uma teologia ligada à história, ao seu povo e, em particular, aos pobres. E ele também lembrou citando a obra do padre Gutiérrez como "a teologia não pode ser feita sem contexto e sem a experiência da vida dos outros".

O padre Gutiérrez, respondendo às perguntas de Andrea Riccardi e, posteriormente, também dos participantes, relembrou algumas fases de sua vida, como a participação no Concílio Vaticano II e nas Conferências Episcopais da América Latina (em particular Medellín em 1968), enfatizando também os momentos difíceis passados devido à discussão nascida em torno de seus livros sobre a teologia da libertação. À pergunta direta “o que é a teologia da libertação?", o padre Gustavo respondeu:" é sobretudo a primazia dos pobres. E pobre é aquele não tem o direito de ter direitos".

Gustavo Gutiérrez e Andrea Riccardi | Foto: Comunidade de Santo Egídio

A conversa

Gutiérrez começou com sua própria experiência como estudante de medicina, jovem idealista que sonhava estar próximo do sofrimento humano, mas também das dificuldades sociais. Naqueles anos e naquele contexto é que amadureceu sua vocação, o que o faz escolher o sacerdócio. Sacerdote recém formado de uma igreja "vertical", como a peruana, ele olhou com esperança para o Concílio, em especial ouvindo o papa propor para o encontro o tema dos pobres e da pobreza. Uma ideia que não estaria no centro do Vaticano II, mas teria inspirado e envolvido a conferência episcopal latino-americana em Medellín, Colômbia, em 1968, colocando em crise uma atitude que considerava suficiente ir à missa para ser bons cristãos. Nos anos seguintes p. Gutiérrez trabalhou na teologia da libertação, um caminho que levaria a muitos problemas com setores da Igreja, mas também atraiu muitas pessoas e levou pastores e simples crentes a testemunhar sua fé até o martírio.

"A centralidade do pobre é a afirmação fundamental da teologia da libertação", explicou Gutiérrez. A teologia da libertação nasceu de um envolvimento direto com os pobres - "eu nunca fui professor de teologia", afirmou o idoso dominicano, "eu foi pároco e padre" - do confronto entre fé cristã e pobreza. E, certamente, de tudo isso surgiram dificuldades: “Às vezes foi difícil. Mas a escolha foi trabalhar na Igreja, a partir de dentro. E agora muita coisa mudou", concluiu Gutiérrez.

"A minha foi uma contribuição. Outras contribuições vieram e virão. É a Igreja que caminha e não caminha atrás do livro de um pároco”. Mas era e é necessário olhar para os pobres: "O pobre é aquele que não tem o direito de ter direitos. Em vez disso, trabalhar com os pobres exige que eles percebam que são cristãos - quem o for - e que são seres humanos. A ação das esmolas, que teve um espaço excepcional na história da Igreja, terminou seu tempo, pelo menos em parte. Também porque a pobreza tem causas, a serem enfrentadas, para que as coisas possam mudar. É necessário ser a voz dos sem voz, lutar para que os sem voz comecem a ter uma voz. Uma luta que continua, porque a pobreza ainda está presente no mundo e tem raízes em uma economia cruel, ‘de morte’, como disse o Papa Francisco".

"É claro que se diz 'A Igreja escolheu os pobres, mas os pobres escolheram as seitas". "É verdade", continua Gutiérrez, "mas isso não significa que a escolha pelos pobres não tenha sido correta. E não exclui que a ideia de uma teologia da prosperidade seja um grande engano para os pobres. É que nós mudamos com grande atraso. O atual Papa enfrenta - como deve fazer - a situação confusa que encontrou na Igreja e tenta mudar muitas coisas. Ele foi capaz de seguir o caminho certo e deve ser apoiado nesse caminho".

Quem é Gustavo Gutiérrez Merino

Gustavo Gutiérrez Merino, nasceu em Lima, Peru, em 1928, é um padre dominicano considerado o fundador da "teologia da libertação".

Autor de inúmeros livros e de artigos ainda mais numerosos na revista "Concilium" e em outras, Gutiérrez combinou a atividades acadêmicas e de pesquisa com uma proximidade concreta com as "comunidades eclesiais de base" latino-americanas.
Sua obra fundamental é a "Teologia da Libertação" (1971), que insiste sobre a necessidade de um caminho, fundamentado nas Escrituras, que leve à libertação integral – tanto espiritual como social - dos povos e dos pobres.

Suas teses, que tiveram grande sucesso em vários setores da Igreja latino-americana e mundial, também despertaram ampla oposição, em particular durante o pontificado de João Paulo II.

Em uma entrevista de alguns anos atrás, Gutiérrez disse sobre si mesmo e sobre a teologia em que trabalhou:

"O pobre está à margem, não vale nada. Sem a solidariedade, a fragilidade nunca encontrará resposta. Como no mundo inteiro, o egoísmo e o individualismo estão penetrando no mundo cristão. Por isso solidariedade significa justiça. [...] Nem todos sabe que minha primeira preocupação é o trabalho pastoral: trabalho na mesma paróquia há anos, em uma região antiga e muito pobre de Lima. Em outras palavras, o trabalho intelectual não é minha principal preocupação [...] A teologia da libertação nasceu do confronto entre a fé cristã e a pobreza. A pobreza está presente no mundo e a Bíblia, a fé cristã e a mensagem do evangelho têm uma palavra a dizer sobre isso. O que importante? A opção preferencial pelos pobres. Hoje se chama assim, mas a ideia é muito antiga. Esse é o âmago da teologia da libertação. A preferência de Deus pelos pobres e abandonados se manifesta em toda a Bíblia. A centralidade do pobres é a afirmação fundamental da teologia da libertação. Mas nós não fizemos nada além de lembrar a afirmação da Bíblia. [...] Eu amo a Igreja, porque é o meu povo, é a minha vida. Para mim, escrever sobre a teologia da libertação é escrever uma carta de amor ao Deus em que acredito, à Igreja que amo, ao povo ao qual pertenço. As cartas não podem ser todas iguais, mas o amor é o mesmo".

 

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