“Eu não sou Boris Johnson”. Artigo de Yanis Varoufakis

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29 Agosto 2019

“Aqueles que acreditam que se opor à elite da União Europeia é axiomaticamente antieuropeu, não entendem que a condescendência ociosa em relação a essa elite é o melhor aliado dos falcões do Brexit”, diz o economista Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças grego, em artigo publicado por El Tiempo, 27-08-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Desde que Boris Johnson se mudou para a 10 Downing Street, jurando renegociar o acordo de retirada do Reino Unido da União Europeia, muitos opositores do Brexit disseram que o novo primeiro-ministro britânico está "fazendo como Varoufakis" e que da mesma forma terminará derrotado.

Katya Adler, da BBC, relatou em Bruxelas que funcionários da UE falam de "Varoufakis: a sequela". Concretamente, preveem "muitas reuniões sem nenhum sentido" com o primeiro-ministro Johnson, como acham que aconteceu com o controverso ministro das Finanças da Grécia, no pior momento da crise da dívida grega.

Andrew Adonis, ex-secretário do Transporte e ministro da Educação trabalhista, acrescentou, em sua comparação, a admiração pela chanceler alemã: tuitou que "(Angela) Merkel está tratando o Reino Unido como a Grécia, e Johnson como Varoufakis".

Certamente, para Johnson tudo isso deve ser muito engraçado. Ele sabe que na fase prévia ao referendo de junho de 2016, para o Brexit, estávamos em campos opostos. Enquanto viajava no Reino Unido em seu infame ônibus liderando a campanha pela saída da UE, passei por ele indo e vindo pelo país com políticos como John McDonnell (trabalhista) e Caroline Lucas (do Partido Verde), para pedir aos eleitores que resistissem aos cantos da sereia do Brexit.

Mas, Johnson é esperto demais para se importar. Ele, sua mão direita Dominic Cummings e Michael Gove (um membro veterano do gabinete e um partidário extremo do Brexit) sabem como dividir e conquistar seus oponentes, o que confirma que os falcões do Brexit são muito mais experientes em estratégia do que os partidários da permanência na UE.

Em um artigo para o Times, publicado dois meses antes do referendo para o Brexit, em 2016, Gove despejou elogios a um livro de minha autoria, em que resumo a evolução da UE, de mercado comum a união monetária rígida e antidemocrática, mas omitiu convenientemente mencionar o fato de que eu me opus ao Brexit ou a qualquer outra tentativa de romper com a UE e o euro.

Também, há um ano, Johnson (se referindo ao meu livro Adults in the Room) escreveu em sua coluna no Telegraph: “Como explicado (…) Varoufakis, a tragédia dos gregos foi que nunca tiveram a coragem de mandar “ao diabo” seus amos da UE” (e também esquece de mencionar que eu não buscava um Grexit).

Mais recentemente, o Telegraph (jornal 'pró-Brexit') lembrou seus leitores: “No início do processo do Brexit (...), Varoufakis previu que se o Reino Unido entrasse em negociações, Bruxelas tentaria nos intimidar, assim como fizeram com os gregos, e que a melhor coisa que poderíamos fazer era levantar da mesa (...) ”. Depois, acrescentou: "Boris Johnson (...) entendeu a mensagem."

A única lição que Johnson aparentemente aprendeu comigo é que nunca se deve entrar em uma negociação, se não se está disposto a abandoná-la sem um acordo. Mas, é algo que qualquer pessoa sensata sabe, com a triste exceção (evidentemente) da antecessora de Johnson, Theresa May, e do ex-primeiro ministro grego Alexis Tsipras. Agora, a maior lição a ser aprendida é que o confronto entre um Johnson determinado e uma UE constitucionalmente inflexível causará enormes prejuízos à Europa.

Os comentaristas e políticos adoram aproveitar ao máximo o paralelismo Brexit-Grexit (um paralelismo cuja promoção é facilitada pelo fato de ambos os países terem realizado referendos contrários aos desejos da liderança europeia). Mas, é uma comparação inútil, que dificulta a compreensão das questões cruciais que nossos países enfrentam e, pior ainda, pode aproximar um Brexit sem acordo, no qual ambos os lados sairão prejudicados.

Serei claro: nunca defendi um Grexit (e isso me causou a perda de inúmeros amigos de esquerda). Os eleitores gregos nos escolheram em janeiro de 2015 para colocar fim ao sofrimento desnecessário imposto a eles por políticas ridículas que transformaram uma recessão econômica em uma crise humanitária. Nem eles e nem eu, como negociador oficial com a UE, queríamos um conflito com o bloco.

A única coisa que exigíamos eram políticas razoáveis, que nos permitissem permanecer na união monetária de uma forma viável e com um mínimo de dignidade.

Três dias após a minha posse no cargo, o presidente do Eurogrupo de ministros das Finanças da zona do euro, Jeroen Dijsselbloem, me ameaçou com um Grexit, caso insistisse em renegociar a nossa insustentável dívida pública e a contraproducente austeridade que a acompanhava. Minha resposta foi: Façam o que quiserem! E eu não estava apostando em uma carta que não tinha. Eu não queria um Grexit, mas a maioria dos gregos acreditava (e eu ainda acredito) que a escravidão da dívida dentro do euro era pior.

O Grexit, em suma, foi uma arma que a UE criou e usou para forçar sucessivos governos gregos a aceitar a prisão de seu país no equivalente neoliberal de uma workhouse da era vitoriana.

O Brexit, por outro lado, era uma aspiração nascida dentro do Reino Unido, enraizada na incompatibilidade estrutural entre o capitalismo anglo-saxão do laissez-faire e o corporativismo continental, e invocada por uma coalizão formada por setores da aristocracia britânica, que conseguiram cooptar as comunidades da classe trabalhadora arruinadas pela devastação industrial de Margaret Thatcher. Esses eleitores estavam ansiosos em punir as elites cosmopolitas de londrinas por tratá-los como gado sem qualquer valor.

Ironicamente, o tratamento dado pelo establishment da UE à Grécia contribuiu em grande medida à exígua maioria com a qual venceu o Brexit. Nas minhas reuniões "antibrexit", especialmente no norte da Inglaterra, me encontrei com muitas pessoas que, apesar de se simpatizarem com meus argumentos, iriam votar pela saída da UE. Muitos me diziam: "Após ver a forma como a UE tratou o povo grego, não podemos votar para ficar".

De tal modo que colocar no mesmo balaio os dois atos de oposição ao establishment europeu é um absurdo total. Quando os partidários da permanência na UE (como Andrew Adonis e um correspondente da BBC, em Bruxelas) descrevem Johnson como o novo Varoufakis, não favorecem a sua causa. Theodore Roosevelt disse, com razão, que se um presidente estadunidense falhasse com seu país, não se opor a ele era antipatriótico.

Da mesma forma, ceder à ameaça do Grexit lançada pelo Eurogrupo teria sido a coisa mais antieuropeia que eu poderia fazer. Meu objetivo era fortalecer a Europa, passando-a de uma união de austeridade a uma área de prosperidade compartilhada.

Ao contrário do governo Johnson, tivemos um novo mandato democrático e uma grande maioria, como demonstrado pelo referendo de 5 de julho de 2015 em favor de uma estratégia europeísta progressista, que dizia à Europa: não queremos Grexit, mas estamos dispostos a aceitá-lo, se necessário.

Se eu tivesse tido êxito, hoje, a Europa seria mais forte, mais unida e mais capaz de se opor ao aliado natural de Johnson na Casa Branca. Mas, claro, ao contrário de Johnson, eu era um mero ministro das Finanças. Tsipras cedeu, e o resultado foram outros quatro anos de crise, mais brios para o Brexit e uma UE mais fraca, enquanto a austeridade geral contribuía para o fraco desempenho econômico da zona do euro.

Aqueles que acreditam que se opor à elite da UE é axiomaticamente antieuropeu, não entendem que a condescendência ociosa em relação a essa elite é o melhor aliado dos falcões do Brexit. Estão ajudando Johnson a agir como Dijsselbloem, e não como Varoufakis.

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