O sociólogo, o padre e ex-seminarista

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06 Agosto 2019

"Sabemos bem que houve um processo de renovação na formação seminarística no pós-concílio. Mas experiências interessantes foram interrompidas sem maiores reflexões. “Visitadores Apostólicos” impediram que pudéssemos vislumbrar um caminho mais condizente com a realidade atual. Nos últimos trinta anos, mesmo tentando manter uma eclesiologia a partir da Lumen Gentium, foram continuados processos em perspectiva centralizadora e autoritária na formação".

O comentário é de Celso Pinto Carias, doutor em Teologia pela PUC- Rio e assessor do setor CEBs da CNBB.

Eis o artigo. 

Seminaristas de várias dioceses e congregações religiosas se reuniram no mês de julho de 2019 para um encontro específico entre eles. Alguns dias depois o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, um católico que reconhecidamente vem prestando um grande serviço a Igreja no Brasil, fez uma breve reflexão a partir da carta que os mesmos seminaristas publicitaram após o encontro. O titulo dado por Pedro foi: “Seminaristas: batalha perdida?” No dia 31 de julho o padre Kauê Antonioli, de Porto Alegre, RS, publica uma resposta na qual procura contextualizar os seminaristas na perspectiva de uma juventude que, segundo ele, não está mais entre os extremos.

Ora, entro na conversa não para polemizar, mas para oferecer um olhar que considero fundamental se queremos, de fato, levar a sério o processo de formação dos presbíteros na Igreja Católica. É muito comum, em processos como este, “jogar a poeira para o fundo do tapete”, e não enfrentar os desafios de frente. Como a Igreja Católica é hegemônica e tem condições econômicas para manter formação de seminaristas, podem-se negligenciar questões chaves que irão repercutir negativamente no futuro, e futuro próximo.

Sou católico. Teólogo, casado, dois filhos, 57. Sou da diocese de Duque de Caxias, RJ. Fui seminarista por cinco anos. Fui colega de muitos seminaristas na graduação feita na PUC-Rio. Dei aula em seminário por doze anos e em um instituto teológico religioso por dez. Ainda hoje, de alguma forma, pela inserção pastoral, tenho contato com este universo.

Mas sem delongas, vamos ao ponto chave. Sabemos bem que houve um processo de renovação na formação seminarística no pós-concílio. Mas experiências interessantes foram interrompidas sem maiores reflexões. “Visitadores Apostólicos” impediram que pudéssemos vislumbrar um caminho mais condizente com a realidade atual. Nos últimos trinta anos, mesmo tentando manter uma eclesiologia a partir da Lumen Gentium, foram continuados processos em perspectiva centralizadora e autoritária na formação. Seminários fechados, seminaristas tratados com bajulação, critérios fracos na recepção de candidatos, pois a “necessidade” falava mais alto que a qualidade. Evidentemente com exceções. Porém, tal caminho acabou por reforçar, como o Papa Francisco tem insistido veementemente, o clericalismo.

Muitas vezes, seis ou sete anos de seminários não altera em nada, ou pouco, aquilo que está nas pretensões do candidato a presbítero. Os grandes formadores são os padres midiáticos. Encontrei formadores com excelente qualificação, mas se a Igreja como um todo não vive uma realidade de maior participação laical, se não aprofunda a eclesiologia de uma Igreja como Povo de Deus, se privilegia quase que exclusivamente o Código de Direito Canônico, o trabalho dos bons formadores vai pelo ralo. Sem falar no fato que hoje entram muitos seminaristas sem uma boa ou nenhuma iniciação cristã, que é uma questão fundamental. Naturalmente o seminário não dará conta disso.

Torna-se presbítero e na primeira reunião com o Conselho Pastoral, coloca o Código de Direito Canônico na mesa e diz: “eu mando aqui, este conselho é meramente consultivo”. Ou seja, tudo gira em torno de uma ESTRUTURA DE PODER. Assim, a batina, que não considero uma veste necessária para o nosso tempo, torna-se não um instrumento de desprendimento, serviço ao sagrado, mas sim um símbolo de vaidade e poder. Pelo poder sagrado pode se esconder uma série de situações.

Portanto, não se trata de generalizar ou culpar a juventude, mas de colocar, honestamente, as questões que estão em jogo no processo formativo. Questões de ordem psíquica, econômica, pastoral, enfim tudo que pode contribuir para ajudar no processo. E pelo amor de Deus, certas comparações são completamente fora de propósito. Comparar a qualidade teológica de Leonardo Boff com a do Pe. Paulo Ricardo, por exemplo. Os chavões de que não existe espiritualidade naqueles e naquelas que procuram refletir a teologia a partir da libertação, de que não existe santidade entre tais escolhas é um absurdo. Poderíamos listar aqui muitos exemplos de dedicação, desprendimento, pobreza a serviço do Reino de Deus, mas basta falar em martírio. Muitos deram a vida por causa do Evangelho.

Podemos dizer que existe até certo clericalismo na chamada “Igreja da Libertação”, pois quantos leigos e leigas estão em processo de canonização? Agora, já existem muitos, começando por Dom Oscar Romero, que entraram para a Ladainha. Nada contra Dom Romero, Dom Helder, Irmã Dulce, muito pelo contrário. Porém, por aí se pode perceber que existe uma crítica completamente superficial em torno da espiritualidade e santidade do caminho da libertação. Pode-se falar também do estilo de vida, como por exemplo, Dom Pedro Casaldáliga, doente e idoso vive na simplicidade da Prelazia de São Feliz do Araguaia/MT.

Assim sendo, o caminho é ter “cheiro de ovelha”, coragem de entrar na lama e correr risco de ficar enfermo com os que precisam (EG 49). É extremamente preocupante que a Evangelli Gaudim se torne um texto esquecido quando Francisco passar, como ficou esquecida a Evangelli Nuntiandi de São Paulo VI.

Não dá, não dá para depositar nas costas de candidatos jovens um poder sagrado que ele mal consegue elaborar na própria vida. Escrevi um artigo ainda em 2003, publicado na REB, no qual afirmo ser muito arriscado “impor as mãos” (gesto do rito de ordenação) na cabeça de alguém com menos de 30 anos. Hoje mudo para 35. Há exceções, sim há. Mas elas não fazem a regra, muito pelo contrário. Precisamos listar aqui os escândalos?

Enfim, nossa colocação se dá em vista de um novo contexto, de uma mudança de época, como afirma Aparecida, e que setores consideráveis não querem reconhecer. É preciso enfrentar com serenidade tudo que está em jogo. Celibato, participação das mulheres, uma igreja toda ela ministerial, maior transparência econômica, para citar outras situações. Se, como tanto deseja o Papa Francisco, estas questões não forem enfrentadas, aí sim será uma batalha perdida. É preciso uma profunda reformulação estrutural. Se nada for feito nesta direção, se estará “enxugando gelo”.

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