O impossível golpe de Estado contra Xi Jinping

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26 Fevereiro 2019

"A história do Partido Comunista até agora envolve uma série de golpes - todos vencidos por quem estava no poder", escreve Francesco Sisci, professor da Universidade Renmin, em Pequim, na China, publicado por Settimana News, 21-02-2019. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo. 

Não há nenhum comunicado oficial, mas circulam rumores em Pequim de que o presidente Xi Jinping tenha sido alvo de tentativas de assassinato nos últimos seis anos.

Na China e no exterior, alguns afirmam que seu governo, autoritário demais e contrário aos interesses de muitos no sistema atual, deve ser derrubado. Outros afirmam que o Partido Comunista não deveria governar Pequim, e muitos propõem que a China é muito grande para um só governo e talvez devesse ser dividida em pelo menos uma dúzia de repúblicas menores.

A última hipótese parece bastante forçada. Nos últimos 70 anos, o Estado comunista demonstrou sua resiliência e capacidade de adaptação, e ainda parece estar longe de haver uma revolução (ver China: in the Name of Law. A New Global Order, 2016).
Certamente, cresce a oposição à administração de Xi Jinping. Essa oposição pondera a possibilidade de se livrar do líder de acordo com as regras do sistema: não há como tirá-lo do poder pacificamente pelo foto, então é preciso usar a força - preparar um golpe. Portanto, os atentados à sua vida devem ter sido verdade, e a China comunista tem história de tentativas de golpes. Mas eles alcançaram seus objetivos? E como foram preparados?

Vamos rever os mais famosos e como funcionaram.

A regra de Mao sobre "golpe"

O primeiro verdadeiro choque depois de o Partido Comunista tomar o poder, em 1949, foi o desaparecimento político de Gao Gang. Ele era o procônsul político do nordeste da China - na época, uma das áreas mais importantes do país. Havia boatos de que ele era muito próximo aos soviéticos, e sua queda ocorreu em 1954, apenas um ano após a morte de Stalin. Ele foi apontado por Zhou Enlai e Liu Shaoqi, com aprovação de Mao. Assim, o Partido Comunista Chinês conseguiu ganhar maior poder sobre o nordeste e criar alguma distância da autoritária URSS, que impulsionou a entrada de Pequim na Guerra da Coreia.

O segundo ocorreu em 1957 com o movimento antidireita. Era como se Mao, depois de ter isolado a facção pró-Moscou, quisesse expulsar quem era liberal demais para seu partido. No entanto, entre 1959 e 1961 Liu Shaoqi organizou um "golpe" contra Mao. Primeiro, ele sucedeu Mao na presidência do país em 59 e em 61 foi publicamente anunciado como seu sucessor. Nos anos seguintes, Liu conseguiu tirar o controle do Estado das mãos de Mao, que tinha sido um grande revolucionário, mas um péssimo administrador do Estado.

Começando com a Revolução Cultural, em 1966, Mao reconquistou o controle do país e do partido e eliminou Liu Shaoqi. Em 1971, houve outro atentado a Mao, quando Lin Biao, possível sucessor, tentou mobilizar o exército e capturá-lo. Seu plano foi descoberto, ele teve de fugir para a União Soviética, mas teve um acidente de avião no caminho.

Em todos esses exemplos, Mao Zedong tentou eliminar os inimigos primeiro e depois dois aliados tentaram eliminá-lo, mas não conseguiram, porque Mao manteve todas as alavancas do poder e seus adversários não tinham essa vantagem.

Golpe de Estado e luta por poder com Deng

Com a prisão do Bando dos Quatro em 1976, vê-se um padrão semelhante. O presidente do partido Hua Guofeng, o chefe do exército Ye Jianying e o chefe da segurança Wang Dongxing planejaram prender quatro colegas que eram membros do Politburo e ficaram conhecidos como o “Bando dos Quatro”, recebendo as culpas pelos horrores da Revolução Cultural. Nesse caso, embora nenhum detivesse todo o poder, como Mao, os três principais conspiradores controlavam todos os elementos cruciais: a coordenação do partido, o exército e a segurança pessoal dos presos.

Nos anos seguintes, Ye Jianying trouxe Deng Xiaoping de volta do exílio interno, e, depois de alguns anos de conflitos, um novo grupo, liderado por Deng, conseguiu despistas Hua Guofeng e Wang Dongxing. Os dois não foram presos e não perderam os privilégios do partido, mas tiveram de ceder à pressão do exército em apoiar Deng e seguir Ye.

Depois disso, houve protestos e tumulto público, refletindo as divisões nos círculos internos, como o Muro da Democracia nos anos 80 e o movimento estudantil de Shanghai em 86, que levou à demissão de Hu Yabang do cargo de secretário do partido.

A situação permaneceu pacífica basicamente até 1989, quando o movimento dos estudantes na Praça Tiananmen foi usado na complexa luta por poder entre o secretário do partido Zhao Ziyang e o líder supremo Deng.

Zhao acabou sendo derrotado, porque Deng controlava o exército e, através dele, o partido. Mas o caos e a confusão em Tiananmen foram gerados por uma divisão de poder entre o Partido, o exército e o Estado. Funcionários alegaram que não sabiam quem seguir e a quem obedecer: o Partido, liderado por Zhao, ou o exército, liderado por Deng. A partir daí, foi decidido que um homem, nesse caso, Jiang Zemin, seria o líder de todos. Porém, até o início de 1995, quando teve um ataque cardiovascular, apesar de todos os títulos oficiais, Deng permaneceu sendo o líder supremo da China.

Uma transição de poder "pacífica"

Outro grande choque ao Partido ocorreu em 1999 com o protesto e a repressão do Falun Gong. O movimento foi usado possivelmente como desculpa para se livrar do poderoso Qiao Shi. Sua aposentadoria oficial ocorreu em 1998, mas ele era muito mais influente que seu rival, Jiang, e a falha de segurança que levou às manifestações Falun Gong recaiu sobre Qiao, que tinha sido responsável pelo setor de inteligência. De qualquer forma, Jiang usou a demonstração para impedir grande parte da influência de Qiao no Partido.

A "tranquila transição" de poder entre Jiang para Hu Jintao, de 2002 a 2004, escondeu um novo acordo político na China que colocava Jiang como uma espécie de líder supremo e Hu como gestor da vontade de seu chefe idoso e colega aposentado.
Na década seguinte, o poder foi descentralizado, e ninguém estava no comando. Os membros do Politburo tinham poder de decisão, e as pessoas negociavam quando algo de seu interesse estava sobreposto às crenças de outras pessoas no Politburo. Nesse ambiente confuso, Bo Xilai, líder do partido de Chongqing chegou ao poder entre 2012 e 2013. Aparentemente, o plano era substituir Zhou Yongkang como chefe de segurança, entrar no Comitê Permanente do Politburo e encurralar Xi Jinping, que tinha sido nomeado para o cargo de secretário do partido, mas era cinco anos mais novo que Bo.

A tentativa não teve êxito, e Xi, apoiado por Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao, conseguiu controle completo do partido, como apenas Mao tinha conseguido antes.

Hoje, Xi controla todas as alavancas do poder na China, e desde que assumiu a liderança do partido, seu poder aumentou muito. A campanha contra a corrupção, que certamente tem valor real, também exerce influência política, eliminando e intimidando quem não o segue.

Portanto, a transição de poder de Jiang a Hu foi pacífica, mas não foi uma transição real, a confusão dos poderes antigo e novo levou ao caos e ao impasse, solo fértil para o aumento da corrupção.

Partido Comunista: um histórico de golpes

A história do Partido Comunista até agora envolve uma série de golpes - todos vencidos por quem estava no poder.

Mao, Hua Guofeng, Deng Xiaoping: o segundo mais poderoso nunca conseguiu tomar o lugar do primeiro. Em retrospecto, alguns golpes podem ter sido planejados pelo mais poderoso para se livrar de possíveis adversários.

As únicas exceções foram Liu Shaoqi, que conseguiu tirar Mao Zedong de campo por alguns anos na década de 60, e Xi Jinping, que conseguiu ter o poder nas mãos enquanto havia incertezas sobre o próprio poder. Nesse contexto, é improvável que alguém consiga derrubar Xi Jinping. Ele é muito poderoso, e seus inimigos são atrapalhados e anônimos.

Porém, a situação atual da China é muito diferente do passado. A sociedade, ao contrário da época de Mao ou Deng, é muito complexa. Forças internacionais têm interesse em desenvolvimentos em Pequim, e grande parte dos ricos e poderosos da China opõe-se a Xi e apoia que ele perca o poder.

Além disso, a constante e oculta luta pelo poder, que pode anular decisões anteriores do dia para a noite, prejudica qualquer ambiente de investimento de médio e longo prazo. Como fazer planos a longo prazo para uma empresa quando eles podem cair por terra de repente e quando as formas de fazer negócios são obscuras e mudam dependendo do líder do partido político, que muda sabe-se lá como? Isso se aplica aos estrangeiros, mas também aos investidores chineses, que impulsionaram o crescimento dos últimos 40 anos.

Por fim, nos últimos 70 anos de regime comunista, nenhum líder conseguiu manter seu legado – nem Mao. Ou seja, se Xi não mudar o sistema, não importam suas ações durante o mandato, elas serão anuladas assim que ele perder o poder.

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