Estados Unidos. El Chapo e o fracasso da guerra

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20 Fevereiro 2019

“Desde que se lançou a guerra contra as drogas, as prisões dos Estados Unidos se encheram de jovens pobres afro-estadunidenses, latinos e, sim, brancos, a tal ponto que agora a população estadunidense é a mais encarcerada do mundo (em 2016, 2,2 milhões estavam na prisão), com quase meio milhão por crimes não violentos por droga”, escreve o jornalista David Brooks, em artigo publicado por La Jornada, 18-02-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Após mais de três meses de cobertura do julgamento do século do “traficante mais poderoso do mundo”, culminando com a palavra culpado seguida de grandes proclamações das autoridades e governantes estadunidenses sobre este grande triunfo de sua guerra contra as drogas (afirmou-se que o caso demonstrava que os que duvidam dessa guerra estão equivocados), todos sabemos que isto não muda nada.

Sim, algo, o julgamento El Chapo só comprovou mais uma vez o fracasso da guerra antidrogas impulsionada há quase meio século. Desde que o capo foi preso e encarcerado pela última vez no México, em 2016, e depois extraditado aqui [para os EUA], há mais drogas ilícitas disponíveis nos Estados Unidos e no mundo.

Há mais cocaína que nunca nas ruas deste país e sua produção mundial chegou a um recorde histórico, assim como o ópio, segundo números oficiais dos Estados Unidos e da ONU. Nos Estados Unidos, há uma epidemia oficial que matou por overdose de droga mais de 72.000 estadunidenses, em 2017 (os números oficiais mais recentes), mais que o total de mortes estadunidenses nas guerras do Vietnã, Iraque e Afeganistão combinadas.

Essa epidemia é impulsionada sobretudo por opiáceos responsáveis por umas 50.000 mortes, incluindo a heroína, mas também medicamentos legais obtidos com receita médica. Ou seja, alguns dos Chapos deste negócio estão vestidos de doutores e de executivos de farmacêuticas estadunidenses.

Ao festejar o julgamento exitoso contra El Chapo, tanto os promotores como seus chefes em Washington repetiram que tanto os traficantes estrangeiros, como os mexicanos e os colombianos, envenenam e destroem os cidadãos estadunidenses com suas drogas (aparentemente, os estadunidenses jamais consumiriam tais coisas sem que os homens maus os obriguem).

O próprio bufão perigoso na Casa Branca usa esse mesmo pretexto quase todos os dias como argumento para seu muro e suas políticas anti-imigrantes. E o julgamento de El Chapo serviu para nutrir esta narrativa e para justificar sua guerra fracassada, na qual investem uns 50 bilhões de dólares por ano.

Essa guerra contra as drogas foi primeiro declarada pelo presidente Richard Nixon, em 1971, com propósitos políticos, para criminalizar a crescente onda dissidente contra a guerra e a militância dos afro-estadunidenses, conforme confessou um dos assessores chave do presidente.

Os custos humanos comprovam que esta é uma guerra contra os pobres: do lado mexicano não precisamos repetir as estatísticas insuportáveis que qualquer pessoa um pouco consciente conhece, muitos não só pelo que leem, mas pelo que sofrem. Deste lado, nos Estados Unidos, as estatísticas demonstram algo similar em termos daqueles que são os que pagam os custos: os pobres, os mais vulneráveis.

Desde que se lançou a guerra contra as drogas, as prisões dos Estados Unidos se encheram de jovens pobres afro-estadunidenses, latinos e, sim, brancos, a tal ponto que agora a população estadunidense é a mais encarcerada do mundo (em 2016, 2,2 milhões estavam na prisão), com quase meio milhão por crimes não violentos por droga. Houve 1,6 milhão de prisões por drogas, a grande maioria apenas por posse; 46,9% destes eram afro-estadunidenses ou latinos, apesar de apenas representarem 31,5% da população e de seus índices de consumo ser parecidos aos dos brancos.

Essa guerra é um negócio, assim como todas. Os que não estavam no banco dos acusados neste julgamento são os verdadeiros responsáveis, muito mais que o padrinho de capos sentado aí, pela catástrofe humana que provocou a guerra contra e pelas drogas. Entre os quais estão incluídos políticos e seus comandantes que travaram e planejaram a guerra contra as drogas, tanto aqui como nos países que se envolveram neste esquema made in USA, gerando negócio para os comerciantes de armas, os profissionais de inteligência, os do negócio de segurança, de prisões e os construtores de muros, entre outros empreendedores de tudo o que se necessita para fazer uma guerra.

O caso de El Chapo se torna justificativa para tudo isto, tanto para a retórica como para o negócio político e empresarial da guerra por e contra as drogas. A DEA [Drug Enforcement Administration] o usou para recrutar. Imediatamente após o julgamento, circulou pelo tuíte um anúncio: “Desejam perseguir os maiores traficantes do mundo: ‘capos’ como El Chapo? Desejam fazer uma diferença como um agente especial da DEA?”, e ofereceu um endereço para ver os requisitos.

Mas, como afirmou o próprio Chapo, assim como havia dito seu parceiro El Mayo Zambada: “no dia em que eu não existir, não se reduzirá de maneira alguma... este negócio continuará”.

A guerra contra as drogas e os políticos e especialistas que a impulsionaram são os que deveriam prestar contas, inclusive talvez diante de um tribunal, aos povos dos Estados Unidos e América Latina (entre outros). Esse, sim, seria o julgamento do século.

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