Um Manifesto que cria confusão. Artigo de Walter Kasper

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12 Fevereiro 2019

No Manifesto da Fé, do cardeal Gerhard Müller, "há afirmações gerais que não podem se sustentar, como quando é dito que a consciência dos fiéis não está adequadamente formada. A frase formulada nessa forma genérica é ofensiva para muitos crentes. E o que muitos dirão pensando nos padres acusados de violência? Sua consciência está adequadamente formada? O que devem sentir as vítimas dos abusos quando ouvem uma frase expressa de modo indiferenciado como "o sacerdote continua a obra de salvação na terra"? Mas é a distinção correta que forma um teólogo!", escreve o cardeal Walter Kasper, ex-presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, em artigo publicado em 10-02-2019o pelo portal alemão katholisch.de. e reproduzido em italiano por Il Regno, 11-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

O cardeal confessa: "Fiquei totalmente horrorizado quando li sobre o "engano do Anticristo" no final do Manifesto. É uma reminiscência quase literal do argumento de Martin Lutero. Lutero também criticou muitas coisas na Igreja. Mas a acusação do Anticristo era - como reconhecem hoje inclusive nossos parceiros de diálogo luteranos - até mesmo na época inapropriada".

Eis o artigo.

Não há dúvida de que o "Manifesto de fé" publicado pelo cardeal Gerhard Müller contém muitas declarações de fé, que todo católico justo pode aprovar com todo o coração. Algumas das afirmações também podem ser cordialmente compartilhadas por muitos cristãos protestantes. É bom lembrar essas verdades fundamentais, de modo que nos debates atuais aparentemente mais importantes não se percam. E até aqui, tudo bem.

Não vai nada bem, contudo, que algumas verdades sejam expostas com um relevo tal, que a outra metade fica escondida. Apenas um exemplo: é sem dúvida verdade que a confissão de Deus uno e trino significa uma diferença fundamental no crer em Deus e na imagem do homem em comparação com as outras religiões. Mas não há semelhanças na fé no único Deus, especialmente com os judeus e os muçulmanos? E essas semelhanças não são, hoje, fundamentais para a paz no mundo e na sociedade? A meia verdade não é a verdade católica!

Em outros lugares há afirmações gerais que não podem se sustentar, como quando é dito que a consciência dos fiéis não está adequadamente formada. A frase formulada nessa forma genérica é ofensiva para muitos crentes. E o que muitos dirão pensando nos padres acusados de violência? Sua consciência está adequadamente formada? O que devem sentir as vítimas dos abusos quando ouvem uma frase expressa de modo indiferenciado como "o sacerdote continua a obra de salvação na terra"? Mas é a distinção correta que forma um teólogo!

Em outras passagens, não se trata de um manifesto de fé, mas um manifesto de convicções teológicas privadas que não pode ser universalmente vinculante. Também neste caso, apenas um exemplo: na afirmação de que os divorciados recasados no civil e cristãos não católicos não podem receber a Eucaristia frutuosamente, o Manifesto invoca o n. 1457 do Catecismo da Igreja Católica.

Eu verifiquei duas vezes e não encontrei tal frase. Não conheço outras declarações dogmaticamente vinculantes em que a frase apareça nessa forma. Aliás, o Manifesto fala de divorciados recasados, cujo primeiro matrimônio ainda é válido "diante de Deus". Portanto, evidentemente, pressupõe que também existam outros, cujo primeiro casamento não seja válido diante de Deus. Quem pode decidir isso, e o que fazer nesse caso?

Também para a disciplina eclesiástica do celibato existe um apelo ao Catecismo, n. 1579. Mas, infelizmente, impreciso. Existe a palavra "normalmente", que no Manifesto foi suprimida. Existem, de fato, sacerdotes da Igreja Católica que são casados: nas Igrejas orientais em comunhão com Roma, ex-protestantes ou - conforme disposto recentemente pelo Papa Bento XVI - pastores que anteriormente eram anglicanos. Embora pessoalmente eu esteja convencido de que precisamos repensar novamente e mais profundamente o significado do celibato escolhido livremente, pelo menos a discussão sobre os viri probati não pode ser proibida.

Fiquei totalmente horrorizado quando li sobre o "engano do Anticristo" no final do Manifesto. É uma reminiscência quase literal do argumento de Martin Lutero. Lutero também criticou muitas coisas na Igreja. Mas a acusação do Anticristo era - como reconhecem hoje inclusive nossos parceiros de diálogo luteranos - até mesmo na época inapropriada. Será então que existe por trás do Manifesto um Lutero redivivo? Um que justamente defende as reformas na Igreja, mas quer implementá-las por cima do Papa e contra ele? Eu não quero acreditar nisso, porque isso só poderia levar a confusão e divisão. Isso minaria a Igreja Católica.

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