Youtubers ou inquisidores, profetismo ou difamação: desafios para a evangelização no universo cultural nas redes sociais

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25 Janeiro 2019

"A Igreja não é conduzida por ditos seletivos gravados em um vídeo com intenções nada evangélicas e de fraca teologia, a Igreja é guiada pela ação do Espírito, e ele é o Espírito da unidade, ele é o Espírito do amor", escreve Cesar Kuzma, teólogo leigo, casado e pai de dois filhos. Doutor em Teologia pela PUC-Rio, onde é professor e pesquisador do Departamento de Teologia. É o atual presidente da SOTER e autor de livros e artigos na área de teologia, dentre eles: “O futuro de Deus na missão da esperança” (Paulinas, 2014); e “Leigos e leigas” (Paulus, 2009).

Eis o artigo.

Com o avanço da internet e na tentativa de encontrar novas formas de evangelizar, novos atores surgem, dentre eles, o que chamamos de “youtubers católicos”, que de um jeito novo, dinâmico e atrativo, pode-se dizer, oferecem questões sobre a fé e, a seu modo, também alimentam a vida pastoral de muitas pessoas. Muitos são os ganhos do uso das novas tecnologias na evangelização, talvez ainda não tão explorados ou, por vezes, não são utilizados de modo apropriado, já que, em alguns casos, as ações decorrentes destas práticas de evangelização aparecem como proselitistas ou insistentes numa militância eclesial, numa espécie de luta contra “hereges” e “inimigos” da Igreja e/ou da sã doutrina. Estranhamente, esta atitude proselitista e de luta contra o outro são contrárias às intenções do Vaticano II que, há pouco mais de 50 anos, insistiu na categoria do diálogo; recentemente, e de modo insistente, o Papa Francisco tem insistido no diálogo com as culturas e com as muitas realidades que nos cercam. Eis um ponto que merece nossa atenção.

Ao tratar sobre o protagonismo destes youtubers católicos e os desafios que se apresentam à Igreja a partir de suas ações, temos a intenção neste artigo de reconhecer e valorizar este trabalho e este modo de evangelizar. Por certo, é um ganho e um serviço, quando o mesmo é feito com integridade, respeito e espírito evangélico e em sentido de comunhão. Para quem acompanha o trabalho destes novos atores da evangelização, não é difícil identificar quem está aqui. No entanto, devido a seguidos ataques e difamações que surgem neste meio, tanto aos que se dirigem à Igreja e aos seus organismos, ao Papa Francisco e a pessoas específicas temos a intenção de chamar a atenção para a ação de alguns youtubers [católicos] que constantemente usam seus espaços para dividir, destruir, difamar e aterrorizar a outros e outras. Do mesmo modo, não é difícil de identificar quem está aqui.

De um tempo para cá, o acesso às informações e a constante vinculação de vídeos e textos pelas redes sociais trouxeram uma nova forma de conexão e de interação entre as pessoas. Agora, todos podem falar e se manifestar, todos podem dizer aquilo que pensam e sentem, todos podem trazer para a sua tela e espaço a intenção ou a face do que dizem ser a verdade. Sim, a verdade. Parece que todos a buscamos, certo? E parece que nos sentimos seguros quando, diante de nós, alguém demonstra estar ou ser a verdade. Mas, o que é a verdade?... Será que é ela mesma que está em tudo o que vem sendo publicado e anunciado pelas redes e novos espaços virtuais [sociais]?... Seriam estes novos youtubers os grandes guardiões da verdade?... Seriam eles os novos mestres do saber da fé, criando novas sumas e tratados?... É algo que nos faz pensar.

Ao nos deparamos com estes novos eventos e efeitos da comunicação, por certo, o questionar-se sobre o real e sobre o irreal, sobre o que é verdadeiro ou não vem à tona e isso vai exigir uma atenção maior de nossas filosofias e teologias. Com certeza, estamos diante de um novo tempo, um instigante tempo, e o avanço da tecnologia e a facilidade com que acessamos e processamos os dados que nos chegam abrem para nós novas perspectivas e apresentam novos desafios.

Contudo, neste universo em que todos podem dizer, fazer, mostrar, dizemos que todos, também, podem se tornar alvos de injúrias e difamação, de perseguição, já que a velocidade do que se transmite é tão forte que torna incapaz a criticidade a respeito do que é apresentado. Os efeitos e a maneira como se produzem os vídeos e como se lançam as informações nos surpreendem pela qualidade e pela perspicácia, mas, ao mesmo tempo, impedem uma profunda inteligibilidade, impedem a interação de quem ouve e de quem fala, trata-se de um caminho único, já que quem está se pronunciando apoia-se na ‘verdade’ e esta é despojada no receptor, que passivo, ouve, acolhe e reproduz, sem intenção ou responsabilidade para com aquilo que é colocado, pois foi apresentado a ele como ‘verdade’.

É um dado, pois, quem vai questionar alguém que se apoia em inúmeros documentos eclesiais, que fala com tanta segurança, que cita autores clássicos, que de maneira rápida desconstrói teologias e filosofias amplamente debatidas e consegue antever as grandes crises, já enumerando e apontando os culpados? Quem questionaria alguém que apresenta todas as respostas, seguro de si, antecipando-se às próprias perguntas, a ponto de calar e fazer concordar aqueles que o ouvem? Sim, não é de hoje que a prática da oratória provoca mudança nas estruturas, altera o comportamento das pessoas e quando bem realizada consegue fazer com que a intenção do que se quer dizer apareça mais do que a verdade ocultada ou ignorada daquilo que se diz. Isso aconteceu na história, aconteceu seguidamente no meio político, no universo religioso e midiático e volta a se repetir hoje, de muitas formas e de um jeito bem articulado. Evidentemente que podemos encontrar muita coisa boa e verdadeira nas redes sociais e nos muitos autores e youtubers que vão surgindo a cada tempo, este é um ganho de nossa época, pois a informação busca aparecer. Não questionamos isso, como dissemos, é um ganho. O aspecto a ser questionado decorre do mau uso deste mecanismo e desta prática, fazendo com que novos agentes da evangelização se transformem em novos “inquisidores”, próprios para destruir e atacar quem pensa ou se comporta diferente, quem não age de acordo com sua proposta ou orientação. Eis um ponto perigoso.

A questão é: ‘a que serve’ e ‘a quem servem’ estes novos youtubers católicos que hoje se lançam como portadores da verdade no mundo religioso [e político], criando para si e em torno a si novos oráculos da revelação? O que está por trás de seus discursos, de sua politização, de seu emaranhado de frases e ditos postados e afirmados sem uma profunda e crítica reflexão? Quem ganha com isso, quando a intenção que parece ser bem clara é a diminuição do outro, a destruição, a difamação, a violência por palavras e gestos, a arrogância e o limitar de questões que parecem se impor?

Não é fácil responder a estas questões, mas o fato é que estamos diante de um evento que segue ganhando grandes proporções, a ponto de terem seus argumentos mais valorizados do que o próprio conteúdo que dizem ter. A interpretação que trazem dos dados, dos eventos, dos documentos e da teologia parece ser uma descoberta nova, dita de modo seletivo e com tom impactante, eloquente, mas que encobre o real conteúdo daquilo que ocorreu, do que foi escrito e do que acontece. Apresenta-se a verdade da fé como algo dado e acabado, impedindo o outro de se portar como outro, no diálogo que deve travar com o criador, que é revelado. Nada se questiona, pois tudo está dado! Olha-se para o céu e se esquece da terra! Olha-se para trás e se esquece o presente e em nenhum momento se espera um futuro. Aprisionam-se em coisas antigas (como as “múmias”, de que fala Francisco), não querem o diálogo, ignoram avanços teológicos e perspectivas abertas pelo Vaticano II, quem dirá pelas Conferências Episcopais e pelas novas teologias.

Rejeitam ou são indiferentes com Francisco. Sua eclesialidade parece ter se estacionado em Bento XVI (tido como figura conservadora, pois não o compreendem como teólogo), ou ainda em João Paulo II, fechando-se totalmente ao novo e aos desafios e novas problematizações de nosso tempo. É como se as grandes questões teológicas que inquietam teólogas e teólogas do mundo fossem supérfluas, então, estes novos atores passam a se articular em cima de expressões e jargões repetidos, que alguns até carecem de boa fundamentação. Diante deles, a teoria da liquidez de Bauman se confirma, pois é o mundo onde navegam e espalham suas convicções, restando aos demais a busca por apoio em algum terreno sólido, obviamente, apresentado por eles. Do modo como falam, parecem odiar os pobres, pois toda a ação social é vista como comunismo ou, como dizem agora, “marxismo cultural”, e lutam contra fantasmas que parecem existir apenas em suas mentes e batalhas virtuais; no entanto, a consequência destas batalhas, os estragos, todos podemos sentir: divisão.

Não é à toa que nos últimos anos os grupos mais conservadores e fundamentalistas se alimentaram desta prática e incentivaram tais ações. Poderíamos voltar alguns anos atrás, todavia, os eventos recentes nos são bem vivos na mente: vimos isso na eleição americana com Trump, vimos isso recentemente na eleição de Bolsonaro no Brasil, vimos isso nos constantes ataques ao Papa Francisco, vimos isso nos ataques contra a CNBB, ao CONIC, ao CIMI, à Pastoral da Terra e a outros organismos e pastorais sociais, vemos isso contra políticos e agentes ligados à causas sociais e aos direitos humanos, vemos isso contra teólogos [da libertação ou não] e acadêmicos, vemos isso na tentativa de desconstruir a imagem de Paulo Freire (reconhecido internacionalmente), vemos isso no ataque à diversidade religiosa, no desrespeito e na violência para com a questão de gênero, vemos isso no obscurantismo frente a Doutrina Social da Igreja, a ponto de alguns destes serem defensores do uso de armas, da violência, da pena de morte, etc (chega a ser absurdo!); isto é, a verdade que dizem apresentar tem traços de violência, de separação, de divisão, é uma roupagem de verdade arrogante que busca aprisionar e não quer libertar aqueles que a encontram. Totalmente ao contrário. É fria e sem vida.

Não sabemos até onde este evento pode ir. Se deve ser ignorado ou não. O fato é que na época da informação a desinformação parece crescer e um grupo muito grande de pessoas parece se tornar vítima desta exploração. Notícias falsas ou interpretadas equivocadamente podem trazer resultados danosos para o andar de nossa sociedade. O mesmo se pode dizer sobre a Igreja e também sobre a teologia. A Igreja não é um conjunto de normas fixas que somos obrigados a seguir, ou na qual escolhemos aquilo que nos cabe; não, ela é vida, ela é povo, ela tem algo novo a oferecer ao mundo e aí está a sua relevância, o seu mistério. Tais pessoas se dizem tão zelosas com a tradição, mas são incapazes de sentir o frescor e a brisa que sopra em nosso tempo, não ouvem os sinais dos tempos e são incapazes de interpretá-los. Se apoiam em ditos passados, mas o presente, de Francisco, parece não fazer parte de suas falas. O grito do povo que sofre parece não ressoar em seus ouvidos. Diante disso, é necessário discernimento, é necessário equilíbrio e sentimento evangélico.

A questão é: a verdade liberta. Toda e qualquer tentativa de aprisioná-la tende ao fracasso.

O ponto é: a Igreja não é conduzida por ditos seletivos gravados em um vídeo com intenções nada evangélicas e de fraca teologia, a Igreja é guiada pela ação do Espírito, e ele é o Espírito da unidade, ele é o Espírito do amor. Onde há unidade, há o Espírito, onde está o Espírito, ali está a Igreja.

Por ora, temos este espaço, este espaço desafiador, questionador. Porém, como nos diz o Papa Francisco, o tempo é superior ao espaço. Por isso, continuamos no seguimento, no seguimento de alguém que nos olha na face e nos faz ver a futura morada que se aproxima, que se despoja e nos faz entender os desafios da presente morada, que revela a sua face nos mais pequeninos, nos pobres, porque deles é o Reino dos céus.

Parabenizamos e agradecemos a todos aqueles e aquelas que fazem do seu trabalho evangelizador um serviço, com seriedade e responsabilidade. Esta é uma prática que constrói. A estes dizemos, continuem! Lamentamos, porém, aqueles e aquelas que usam estes espaços para destruir, para difamar, trajando-se de ovelhas, mas sendo como lobos no meio de nós.

Com as palavras de Francisco, ditas aos jesuítas em 2016, pedimos que Deus nos dê coragem e audácia profética, firmeza e discernimento.

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