Francisco pede aos hospitais católicos para 'não cair na armadilha de priorizar os interesses da empresa à pessoa'

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09 Janeiro 2019

 "Peço a todos, nos diversos âmbitos, que promovam a cultura da gratuidade e do dom, indispensável para superar a cultura do benefício e do descarte". Em sua mensagem para a Jornada Mundial do Enfermo, que se celebra em 11 de fevereiro, o Papa lança uma mensagem aos voluntários e profissionais sanitários católicos para colocar a dinâmica do 'Bom Samaritano' à frente da "exploração que não vê as pessoas".

A reportagem é publicada por Religión Digital, 08-01-2018. A tradução é de Graziela Wolfart.

"As instituições de saúde católicas não deveriam cair na armadilha de priorizar os interesses da empresa, mas sim proteger o cuidado da pessoa no lugar do benefício", adverte Bergoglio em sua mensagem para a jornada, que se celebrará em Calcutá e que tem como lema 'Gratis habéis recibido; dad gratis' (De graça recebestes, de graça devereis dar).

Assim, o Papa recorda que "os gestos gratuitos de doação, como os do Bom Samaritano, são a via mais plausível para a evangelização", ao mesmo tempo que destaca que "o cuidado aos doentes requer profissionalismo e ternura, expressões de gratuidade, imediatas e simples como o carinho, através das quais se consegue que a outra pessoa se sinta querida".

A carta assinala que "a vida é um dom de Deus", fato pelo qual "não se pode considerar una mera possessão ou uma propriedade privada", sobretudo diante das conquistas da medicina e da biotecnologia.

"Frente à cultura do descarte e da indiferença", Francisco advoga pelo diálogo e pelo dom, que "não se identifica com a ação de dar", mas que é "reconhecimento recíproco". "Todo homem é pobre, necessitado e indigente", lembra o Papa, que aponta que, a qualquer momento da vida, "nunca poderemos nos livrar da necessidade e da ajuda dos demais", o que "nos convida a permanecer humildes e a praticar decididos a solidariedade".

"Não temos que temer nos reconhecer como necessitados e incapazes de procurar tudo o que nos faz falta, porque sozinhos e com nossas forças não podemos superar todos os limites. Não temamos reconhecer isto", pede Francisco.

A figura de Santa Teresa de Calcutá, "um modelo de caridade que tornou visível o amor de Deus pelos pobres e pelos doentes" impregna toda a mensagem. Assim, assinala o Papa, a santa dos pobres "nos ajuda a compreender que o único critério de ação deve ser o amor gratuito a todos, sem distinção de língua, cultura, etnia ou religião". "Seu exemplo continua nos guiando para que abramos horizontes de alegria e de esperança à humanidade necessitada de compreensão e de ternura, sobretudo a quem sofre", acrescenta Bergoglio.

Depois de agradecer o trabalho dos voluntários, que "vivem de maneira eloquente a espiritualidade do Bom Samaritano", Francisco põe especial ênfase na "tutela dos direitos dos enfermos, sobretudo de quem sofre de doenças que requerem cuidados especiais, sem esquecer o campo da sensibilização social e da prevenção".

"Os convido a continuar sendo um sinal da presença da Igreja no mundo secularizado", pede o Papa aos voluntários católicos. "O voluntariado comunica valores, comportamentos e estilos de vida que tem em seu centro o fermento da doação. Assim é como se realiza também a humanização dos cuidados".

A gratuidade, continua o Pontífice, "deveria animar, sobretudo, as estruturas sanitárias católicas, porque é a lógica do Evangelho a que qualifica seu trabalho, tanto nas áreas mais avançadas como nas mais desfavorecidas do mundo", frente à "lógica do benefício a todo custo, do dar para receber, da exploração que não olha as pessoas".

Eis a íntegra da mensagem.

«Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8)

Queridos irmãos e irmãs! «Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8): estas são palavras pronunciadas por Jesus, quando enviou os apóstolos a espalhar o Evangelho, para que, através de gestos de amor gratuito, se propagasse o seu Reino.

Por ocasião do XXVII Dia Mundial do Doente, que será celebrado de modo solene em Calcutá, na Índia, a 11 de fevereiro de 2019, a Igreja – Mãe de todos os seus filhos, mas com uma solicitude especial pelos doentes – lembra que o caminho mais credível de evangelização são gestos de dom gratuito como os do Bom Samaritano.

O cuidado dos doentes precisa de profissionalismo e ternura, de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é «querido». A vida é dom de Deus, pois – como adverte São Paulo – «que tens tu que não tenhas recebido?» (1 Cor 4, 7). E, precisamente porque é dom, a existência não pode ser considerada como mera possessão ou propriedade privada, sobretudo à vista das conquistas da medicina e da biotecnologia, que poderiam induzir o homem a ceder à tentação de manipular a «árvore da vida» (cf. Gn 3, 24).

Contra a cultura do descarte e da indiferença, cumpre-me afirmar que se há de colocar o dom como paradigma capaz de desafiar o individualismo e a fragmentação social dos nossos dias, para promover novos vínculos e várias formas de cooperação humana entre povos e culturas. Como pressuposto do dom, temos o diálogo, que abre espaços relacionais de crescimento e progresso humano capazes de romper os esquemas consolidados de exercício do poder na sociedade. O dar não se identifica com o ato de oferecer um presente, porque só se pode dizer tal se for um dar-se a si mesmo: não se pode reduzir a mera transferência duma propriedade ou dalgum objeto. Distingue-se de presentear, precisamente porque inclui o dom de si mesmo e supõe o desejo de estabelecer um vínculo. Assim, antes de mais nada, o dom é um reconhecimento recíproco, que constitui o caráter indispensável do vínculo social.

No dom, há o reflexo do amor de Deus, que culmina na encarnação do Filho Jesus e na efusão do Espírito Santo. Todo o homem é pobre, necessitado e indigente. Quando nascemos, para viver tivemos necessidade dos cuidados dos nossos pais; de forma semelhante, em cada fase e etapa da vida, cada um de nós nunca conseguirá, de todo, ver-se livre da necessidade e da ajuda alheia, nunca conseguirá arrancar de si mesmo o limite da impotência face a alguém ou a alguma coisa. Também esta é uma condição que caracteriza o nosso ser de «criaturas». O reconhecimento leal desta verdade convida-nos a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como virtude indispensável à existência.

Esta consciência impele-nos a uma práxis responsável e responsabilizadora, tendo em vista um bem que é indivisivelmente pessoal e comum. Apenas quando o homem se concebe, não como um mundo fechado em si mesmo, mas como alguém que, por sua natureza, está ligado a todos os outros, originariamente sentidos como «irmãos», é possível uma práxis social solidária, orientada para o bem comum.

Não devemos ter medo de nos reconhecermos necessitados e incapazes de nos darmos tudo aquilo de que teríamos necessidade, porque não conseguimos, sozinhos e apenas com as nossas forças, vencer todos os limites. Não temamos este reconhecimento, porque o próprio Deus, em Jesus, Se rebaixou (cf. Flp 2, 8), e rebaixa, até nós e até às nossas pobrezas para nos ajudar e dar aqueles bens que, sozinhos, nunca poderíamos ter.

Aproveitando a circunstância desta celebração solene na Índia, quero lembrar, com alegria e admiração, a figura da Santa Madre Teresa de Calcutá, um modelo de caridade que tornou visível o amor de Deus pelos pobres e os doentes. Como dizia na sua canonização, «Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. (...) Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes (…) da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas obras, e a “luz” que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento. A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres» (Homilia, 4/IX/2016).

A Santa Madre Teresa ajuda-nos a compreender que o único critério de ação deve ser o amor gratuito para com todos, sem distinção de língua, cultura, etnia ou religião. O seu exemplo continua a guiar-nos na abertura de horizontes de alegria e esperança para a humanidade necessitada de compreensão e ternura, especialmente para as pessoas que sofrem. A gratuidade humana é o fermento da ação dos voluntários, que têm tanta importância no setor sócio-sanitário e que vivem de modo eloquente a espiritualidade do Bom Samaritano.

Agradeço e encorajo todas as associações de voluntariado que se ocupam do transporte e assistência dos doentes, aquelas que providenciam nas doações de sangue, tecidos e órgãos. Um campo especial onde a vossa presença expressa a solicitude da Igreja é o da tutela dos direitos dos doentes, sobretudo de quantos se veem afetados por patologias que exigem cuidados especiais, sem esquecer o campo da sensibilização e da prevenção. Revestem-se de importância fundamental os vossos serviços de voluntariado nas estruturas sanitárias e no domicílio, que vão da assistência sanitária ao apoio espiritual. Deles beneficiam tantas pessoas doentes, sós, idosas, com fragilidades psíquicas e motoras.

Exorto-vos a continuar a ser sinal da presença da Igreja no mundo secularizado. O voluntário é um amigo desinteressado, a quem se pode confidenciar pensamentos e emoções; através da escuta, ele cria as condições para que o doente deixe de ser objeto passivo de cuidados para se tornar sujeito ativo e protagonista duma relação de reciprocidade, capaz de recuperar a esperança, mais disposto a aceitar as terapias. O voluntariado comunica valores, comportamentos e estilos de vida que, no centro, têm o fermento da doação. Deste modo realiza-se também a humanização dos tratamentos.

A dimensão da gratuidade deveria animar sobretudo as estruturas sanitárias católicas, porque é a lógica evangélica que qualifica a sua ação, quer nas zonas mais desenvolvidas quer nas mais carentes do mundo. As estruturas católicas são chamadas a expressar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade, como resposta à lógica do lucro a todo o custo, do dar para receber, da exploração que não respeita as pessoas.

Exorto-vos a todos, nos vários níveis, a promover a cultura da gratuidade e do dom, indispensável para superar a cultura do lucro e do descarte. As instituições sanitárias católicas não deveriam cair no estilo empresarial, mas salvaguardar mais o cuidado da pessoa que o lucro.

Sabemos que a saúde é relacional, depende da interação com os outros e precisa de confiança, amizade e solidariedade; é um bem que só se pode gozar «plenamente», se for partilhado. A alegria do dom gratuito é o indicador de saúde do cristão.

A todos vos confio a Maria, Salus infirmorum. Que Ela nos ajude a partilhar os dons recebidos com o espírito do diálogo e mútuo acolhimento, a viver como irmãos e irmãs cada um atento às necessidades dos outros, a saber dar com coração generoso, a aprender a alegria do serviço desinteressado. Com afeto, asseguro a todos a minha proximidade na oração e envio-vos de coração a Bênção Apostólica.

Vaticano, 25 de novembro de 2018 Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo

FRANCISCUS

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