A verdadeira Teresa de Ávila: feminina e marrana

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22 Novembro 2018

A mão corria rápida sobre as folhas, hora após hora, sem nenhum senso de tempo. Durante as infindáveis tardes de verão, durante as longas noites de inverno, quando poderia ser presa da melancolia, espectro sinistro do mosteiro, ela estava lá, no chão, sentada sobre uma esteira, encostada no peitoril de pedra sob a janela. Meditava, recordava, escrevia. Não que no resto do dia se subtraísse às inúmeras tarefas - buscar água no poço, cuidar da porta, fiar, tecer, cozinhar, bordar – tarefas a que todas as irmãs eram obrigadas, se não quisessem perder aquela independência tão dolorosamente conquistada. Na aldeia, havia rumores de que "certas mulheres, freiras carmelitas, haviam ocupado ilegalmente uma casa". Alguém até havia ameaçado assaltar o convento; aquela novidade era escandalosa.

O artigo é de Donatella Di Cesare, professora da Universidade de Roma "La Sapienza", publicado por Corriere della Sera, 18-11-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

No entanto, ali, em San José, no outono de 1565, depois de anos de tormento amargo e ansiedades sombrias, parecia a Teresa que sua vida interior prosseguisse como uma "navegação com um vento muito calmo". Era o desejo expresso em sua autobiografia, A Vida, composta "por ordem do confessor"- caso contrário, não poderia se imaginar que ela, uma mulher, escrevesse assim tão livremente - e depois corrigida várias vezes para iludir as suspeitas da Inquisição.

(Foto: Pictorial)

Finalmente, ela tinha sido bem sucedida em seu plano: deixar para trás a existência confortável e a banal, que se desenrolava à sombra dos claustros, para retomar as velhas regras do Carmelo. Silêncio, pobreza, introspecção, oração, vida comunitária. Elas estavam descalças; usavam sandálias de lona e corda, usavam roupas de lã crua. Não possuíam nada. Era uma nova forma de vida sob a insígnia da igualdade. Ali, entre elas, o sangue nunca seria um critério para excluir, discriminar, culpabilizar; la limpeza de sangre, elevada a lei racista na Espanha católica, que já havia expulsado os judeus, não teria valor algum no espaço do mosteiro. Especialmente porque muitas delas, como Leonor de Cepeda e Maria de Ocampo, eram, como ela mesma, filhas de conversos, judeus que se converteram ao cristianismo e, depois, marcados por um duplo não pertencimento, não mais judeus, mas nem mesmo cristãos. A água de batismo não fora suficiente para lavar o “impuro sangue judeu”, aquele fluido inefável em que se condensava o "mal incurável" do judaísmo. Não, os "novos cristãos" não eram considerados irmãos. Eles eram marcados como "marranos" pérfidos e traiçoeiros, capazes de se dissimular, fingir serem católicos enquanto permaneciam secretamente judeus.

Teresa não havia esquecido. Como teria podido? Claro, não tinha falado disso na história da sua vida. E até mesmo em outros momentos foi cuidadosa; por exemplo, quando, nas Constituições, escritas para as carmelitanas, havia retirado a frase "é importante para aqueles que querem ser filhos de Deus não levar em qualquer conta a linhagem." Em sua infância e na adolescência a linhagem havia pesado de maneira sorrateira, cruel, injusta. Para sempre ela iria ser atormentada pela obrigação de sustentar a honra, de suportar o peso de uma reputação perdida.

Além dos altos muros de Ávila surgia a terrível lembrança do que tinha acontecido em Toledo, quando seu avô Juan Sánchez, tecelão e mercador, foi forçado a andar pelas ruas da cidade, entre os escárnios e insultos da multidão, usando o sambenito, o infame escapulário amarelo que rotulava os marranos. Com ele, desfilou toda a família, até mesmo o filho mais novo Alonso. Depois de ter adquirido um título falso de hidalguía, que deveria atestar o sangue 'limpo', evitando prisão e tortura, os Sánchez de Cepeda refugiaram-se em Ávila para recomeçar uma vida acima de qualquer suspeita. Alonso tentou eliminar, juntamente com aquela antiga desgraça, todos os vestígios do judaísmo; casou-se em segundo matrimônio com Beatriz de Ahumada, mulher de grande beleza, pertencente à baixa nobreza.

Em 28 de março de 1515 nasceu Teresa, assim chamada em memória de sua avó paterna Teresa Sánchez. Mas o incômodo patronímico judeu (justamente Sánchez) desapareceu, suplantado por sobrenomes católicos.

Mas para os Cepeda y Ahumada, apesar de todos os encobrimentos, o passado permanecia indelével.

Depois de ter dado à luz dez filhos, sua mãe morreu cedo, aos trinta e três. Com ela, Teresa tinha compartilhado o amor apaixonado pela leitura, conforto e apoio para uma mulher temente a Deus, encerrada no casamento. Seguir aquele modelo? Ou procurar outro? Quando ela havia se abandonado ao amor por um primo, seu pai severamente interveio para interromper a relação. Os irmãos migraram em busca de fortuna no Novo Mundo; até mesmo seu predileto Rodrigo zarpou para o Río de la Plata. Seu destino também parecia inelutável. Don Alonso continuava a desperdiçar dinheiro e um bom casamento parecia uma quimera. Teresa fugiu. Melhor o convento: a certeza de uma dignidade, o recurso do estudo e da oração, a possibilidade de ficar sozinha, a paradoxal liberdade no encerramento entre quatro paredes. O pai foi buscá-la de volta. Ela foi inflexível e proferiu seus votos em 1537. Um ano mais tarde, voltou para a casa gravemente doente. Uma doença obscura consumia sua vida. Foi uma sucessão de palpitações, convulsões e até mesmo paralisia. Decisivo foi o encontro com Pedro de Cepeda, tio paterno, que como "cristão novo" tinha escolhido se tornar um monge.

Graças a ele, Teresa descobriu a obra de outro converso, Francisco de Osuna, que apontava para a aventura possível, toda interior, a descoberta das Índias de Deus.

Essa foi a "conversão" de Teresa, mulher atormentada e irônica, radical e apaixonada, que escapa aos limites de sua época e parece uma contemporânea. Disso deriva a atração exercida por seus escritos, muitas vezes esquecidos no mundo intelectual, mas que agora estão acessíveis em uma esplêndida edição com texto original e tradução, editada por Massimo Bettetini e publicada pela Bompiani. Pena que o ensaio introdutório retrate desde o início Teresa como uma freirinha in nuce, apagando qualquer traço feminino, removendo todo o seu passado judaico. Nem uma vez é mencionado Toledo! Como se nunca tivesse existido. Teologia da substituição que repete - mesmo agora e, é claro, não sem violência - o gesto que engole, incorpora, elimina.

Mas Teresa, beata, santa, doutora da Igreja, era uma marrana. Por que negar isso? De 1946, os documentos de arquivo não deixam dúvidas. E justamente essa peculiaridade, que a relega à margem, se reflete em seu pensamento extremamente original. Michel de Certeau a insere na tradição humilhada dos "novos cristãos", almas divididas, permeadas pela necessidade de uma intimidade oculta. O encontro entre as duas tradições religiosas, uma empurrada para um retiro interior, a outra triunfante, mas "corrupta", permite aos expoentes dessa classe intelectual entrar no cristianismo articulando a experiência de um outro lugar. Entre meditação e poesia, são os percursos autobiográficos que permitem uma liberdade inesperada para atravessar aquela "noite escura da alma", segundo o título do famoso poema de Juan de la Cruz.

Como explicar de outra forma a obra-prima de Teresa de Ávila Las Moradas, ou seja, as moradias, também conhecida como El castillo interior (1577). O castelo é uma "morada emprestada" onde a alma pode se deixar transportar para fora de si mesma. Diamante e cristal refletem a luz desse espaço interior onde o outro fala "por mim". O diálogo da alma se desdobra em uma divisão: o outro habita em si, o si no outro. Nenhuma identidade integral. Você é o outro de si mesmo. Mesmo na união mística, a separação de si mesmo do próprio si é inevitável. Aliás, é graças à separação que a alma pode hospedar, pode abrir espaço para o outro infinito. Teresa escreve, seguindo os ditames de uma palavra que vai além dela, palavra compartilhada, que vem de seu círculo, que se desdobra em um entre - entre mulheres - e na sua dupla diferença, feminina e marrana, que não pode deixar de infringir e contaminar o universo católico.

Assim indica um si mesmo inacessível mesmo a si mesmo, habitado pelo outro, infinitamente outro, e, portanto, sagrado, que é necessário defender e proteger. Toda a mística marrana é uma resposta à violência dos inquisidores de ontem e de hoje.

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