Aqueles que querem deslegitimar Francisco. Artigo de Enzo Bianchi

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03 Novembro 2018

“O Papa Francisco tornou-se um alvo privilegiado. Críticas contra os últimos papas já haviam sido levantadas, mas Francisco é deslegitimado, suspeito de não ser fiel à tradição católica, de se curvar ao mundanismo predominante, de diluir a fé de acordo com as expectativas do mundo. É verdade que ele diz que está em paz e que, como homem de oração, escolhe o silêncio em vez de responder violentamente à violência desencadeada contra ele, mas essa situação faz com que muitos cristãos sofram e corre o risco de escandalizar.”

A opinião é do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Vita Pastorale, de novembro de 2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Passados poucos meses da eleição de Francisco, quando já se podiam perceber as principais características do seu pontificado, eu havia dito, escrito e repetido que, se na vida eclesial, se reforçasse o primado do Evangelho e se o papa tentasse realizar uma reforma, uma conversão da Igreja, então os poderes demoníacos, sentindo-se colocados contra o muro, se desencadeariam. Não chegaria um tempo de paz, uma situação idílica em que o Evangelho brilharia com mais eficácia, mas, ao contrário, apareceria o sinal da cruz. Assim aconteceu.

Já vivemos em um estado de guerra, em que a violência verbal, calúnias, acusações parecem aumentar a cada dia. Devemos reconhecer que essa guerra é a guerra do diabo que, segundo as Escrituras, traz o nome de divisor, acusador, mentiroso. É uma guerra que – pelo menos aqui, nas terras da antiga cristandade – não é combatida por inimigos externos ao cristianismo, mas sim por católicos contra outros católicos.

Na vida comum da Igreja, já é costume buscar a oposição, tachar de heresia aqueles que simplesmente têm uma palavra cristã diferente, acusar moralmente aqueles que são percebidos e classificados como adversários. Calúnias, intrigas, fofocas que querem difamar, agredir e deslegitimar aqueles que exercem uma autoridade na Igreja.

Nos últimos meses, frequentemente tenho ouvido exclamações como estas: “Não aguentamos mais! Agora já temos o suficiente! Quando vai acabar essa febre de procurar bodes expiatórios?”. Hoje, são especialmente os presbíteros que são atacados, difamados e postos em um estado de constante suspeita. Por responsabilidades graves e delituosas de alguns, todos acabam sendo atingidos.

E eu sei que, nessa guerra – travada principalmente nos campos de batalha da mídia, da internet e das redes sociais –, nós mesmos, como homens e mulheres da Igreja, acabamos favorecendo um efeito multiplicador dos escândalos. Não se trata de esconder a verdade, mas de se negar ao jogo das expectativas escandalizadas que amaciam o ar.

Nessa guerra, o próprio Papa Francisco tornou-se um alvo privilegiado. Críticas contra os últimos papas já haviam sido levantadas, mas Francisco é deslegitimado, suspeito de não ser fiel à tradição católica, de se curvar ao mundanismo predominante, de diluir a fé de acordo com as expectativas do mundo. É verdade que ele diz que está em paz e que, como homem de oração, escolhe o silêncio em vez de responder violentamente à violência desencadeada contra ele, mas essa situação faz com que muitos cristãos sofram e corre o risco de escandalizar.

O clima é tal que uma mera suspeita – não a acusação de um delito punível pela lei do Estado – de comportamento imoral de um presbítero já pode perturbar a vida de muitos deles e levá-los a situações extremas, impossibilitados de se defender diante de uma acusação pública. Parece haver uma corrida para procurar culpados.

O papa não se defende, mas pede que os católicos vigiem diante dessa ação diabólica que quer provocar divisão, cisma, contraposição dentro da Igreja. Ele pede para rezar. A urgência para os católicos é a escuta do Evangelho, que pede para não esconder o mal, mas para usar de misericórdia para com aqueles que o cometeram. Não pede para minimizar ações delituosas perpetradas por ministros da Igreja, mas para tentar impedir a sua reiteração com todos os meios legítimos. Não pede para castigar os pecadores, mas para ajudá-los a recuperar a dignidade humana pisoteada por eles mesmos.

Se “tolerância zero” significa que não se pode admitir ou esconder delitos, isso está de acordo com a justiça e a parrésia, mas, se significasse “nenhuma misericórdia ao pecador”, então não seriam palavras cristãs.

Um bispo emérito, meu grande amigo há décadas, Gérard Daucourt, escreveu um livreto com um título significativo: Chi è senza peccato? Anche preti e vescovi hanno bisogno di misericordia [Quem não tem pecado? Até padres e bispos precisam de misericórdia]. Sim, porque os presbíteros já parecem ser os únicos que não merecem misericórdia.

Porém, nós, cristãos, conhecemos bem o mandamento. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. A partir dessa injunção, devemos aprender a lei da palavra que pede liberdade, sinceridade, lealdade. Caso contrário, a própria palavra degenera e cria corrupção e morte nas relações interpessoais.

Todos conhecemos esse risco por tê-lo experimentado: nas nossas vidas, em família, nas histórias de amor, na amizade, na vida social, na vida eclesial... A maledicência já é falso testemunho contra os outros: não há necessidade de um contexto jurídico para acusar, caluniar, instigar suspeitas, difamar o outro. Vício cotidiano, que não percebemos, mas que é um vício grave, que afeta fortemente as relações, contradizendo o bem que pode ser reconhecido e atestado.

Maledicências e calúnias sempre deixam vestígios, como lembra o clássico adágio de “O Barbeiro de Sevilha”: “Caluniem, caluniem: algo permanecerá”. Na Igreja, esse falatório doentio parece poluir as palavras intercambiadas todos os dias. E, quando a mentira se espalha – especialmente através da mídia –, não só a confiança é ferida e pisoteada, mas também dá lugar à desconfiança, ao medo do outro.

Nós, cristãos, nunca devemos esquecer que, quando pronunciamos uma palavra sobre quem é irmão ou irmã, devemos sempre dizê-la pelo outro, e não contra o outro. Nesse sentido, pode até ser maléfico dizer a verdade se esta impedir a caridade, em vez de favorecê-la: a sinceridade verbal pode se perverter em mentira ética.

Às vezes, por exemplo, silenciar o pecado cometido por outro e, portanto, usar de misericórdia para com ele – se tal pecado não for favorecido pelo nosso silêncio – não é mentira, mas obediência à verdade como fidelidade e misericórdia. Dietrich Bonhoeffer escrevia: “Quem pretende ‘dizer a verdade’ sempre e em todo o lugar, a todo o momento e a qualquer pessoa, é um cínico que só exibe um simulacro morto da verdade... Na realidade, destrói a verdade viva entre os homens. Ofende o pudor, profana o mistério, viola a confiança, trai a comunidade em que vive e sorri com arrogância sobre os destroços que causou... Exige vítimas e se sente como um deus acima das fracas e frágeis criaturas, mas não sabe que está a serviço de Satanás” (Ethica, p. 309).

Sim, hoje na Igreja alguns invocam a sinceridade e a transparência. E, em nome dessas exigências, acusam o outro de pecado, mesmo quando este não é um crime de acordo com as leis do Estado.

Intransigentes? Justos inveterados? Não, apenas espiões do pecado alheio, que nunca conheceram o próprio pecado. E, como autodenominados justos, veem nos outros apenas pecadores. Essa guerra eclesial nasce da banalidade do mal: uma fofoca, uma suspeita, algumas palavras vãs se tornam um incêndio, como nos lembra o apóstolo Tiago: “A língua é um fogo, o mundo da maldade. A língua, colocada entre os nossos membros, contamina o corpo inteiro, incendeia o curso da vida, tirando a sua chama do inferno” (Tg 3, 6).

Não é esse o fogo purificador de que precisamos hoje, dentro da Igreja e nas suas relações com a sociedade. É o fogo do amor que devemos acender e guardar, o fogo que impede que a caridade se esfrie, que ilumina a vergonha sem aniquilar o pecador. Um fogo que é o fogo do Espírito.

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