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02 Novembro 2018

Resenha do livro Vatican I: The Council and the Making of the Ultramontane Church, de John O’Malley, SJ.

A resenha é de William L. Portier, professor catedrático Mary Ann Spearin de Teologia Católica na Universidade de Dayton, publicada por Commonweal, 10-10-2018. A tradução é de Luisa Flores Somavilla.

Eis o texto.


Vatican I: The Council and the Making of the
Ultramontane Church John W. O’Malley
Harvard University Press,
US$ 24,95, 320 pp.

Quando pediram que nomeasse o acontecimento de maior destaque dos últimos milhares de anos, o ilustre historiador John O'Malley, SJ, não hesitou em escolher o "crescimento da autoridade e do prestígio papal" na Igreja Ocidental.

E para designar este acontecimento tão importante, cunhou o neologismo "papalização". O termo não aparece em seu novo livro. Pelo contrário, o "ultramontanista" mais tradicional faz o trabalho de descrever uma igreja centrada no Papa em que esperamos que o Bispo de Roma escreva encíclicas, convoque concílios e declare que determinadas pessoas são santos.

As forças históricas que ajudaram a criar a Igreja Ultramontanista, segundo O'Malley, culminou no Concílio Vaticano I.

Na verdade, ele menciona mais de uma vez que o Vaticano I representava o "fim definitivo e discreto concílios ecumênicos". O’Malley nos lembra que nem sempre a igreja ultramontanista existiu, e levanta a questão: "De que forma e até que ponto a Igreja Católica é Ultramontanista hoje?"

Vatican I: The Council and the Making of the Ultramontane Church não é exatamente o livro que esperaríamos que O'Malley escrevesse. Nem ele esperava.

Após a publicação dos livros O Que Aconteceu No Vaticano II (2008) e Trent: What Happened at the Council? (2013), alguns amigos pediram que ele completasse a trilogia com um livro sobre o Vaticano II.

Ele "fez um juramento poderoso" de nunca atender ao pedido. No entanto, a trilogia já existe agora, e esses amigos visionários são os primeiros que devem aparecer nos agradecimentos do livro.

O Concílio Vaticano I durou apenas cerca de sete meses. Começou em 8 de dezembro de 1869, na mesma data em que o Papa Pio IX, preparado para a guerra, definiu para celebrar Imaculada Conceição, em 1854, e dez anos depois promulgou o Sílabo dos erros.

O Sílabo notoriamente condenava o "progresso, o liberalismo e a civilização moderna". Formalmente, o concílio Vaticano I não acabou até 1960, quando o Papa João XXIII deixou claro que o convocado por ele era o Concílio Vaticano II.

Na verdade, o Vaticano I foi suspenso em 1870 por causa da guerra Franco-Prussiana e a ocupação italiana da Roma papal.

A nova obra de O’Malley, o melhor que há disponível em inglês sobre o Vaticano I, dedica apenas os dois últimos de seus cinco capítulos ao próprio concílio.

Embora inicialmente apresente um longo esquema da Igreja na Europa pós-revolucionária, o concílio produziu apenas dois documentos breves: Dei filius, sobre conhecer a Deus em uma época de descrença, e Pastor aeternus, sobre a infalibilidade e a primazia papal.

Com a infalibilidade papal na essência, o movimento ultramontanista, centrado no Papa, tomou conta da Igreja do século XIX. O movimento veio das bases, do baixo clero e leigos, não principalmente de Roma.

Entre seus apoiadores, estavam muitas pessoas convertidas que tinham chegado à igreja por sua busca de abrigo contra tempestades revolucionárias da Europa. Destacam-se o jurista Joseph de Maistre, cuja obra de 1819 Du Pape, reproduzida ao longo de todo o século XIX, tornou-se a cartilha do Ultramontanismo, e Louis Veuillot, editor do L’Univers, jornal de grande circulação que era ferrenhamente pró-papa.

Com a ascensão do Ultramontanismo, católicos europeus sofreram "uma das mais notáveis mudanças na consciência social da história moderna".

A definição de infalibilidade papal deu expressão institucional a esta mudança e "afetou profundamente o pensamento da Igreja sobre si mesma e seu funcionamento". Ser católico passou a ser diferente: mais hierárquico, mais centrado em Roma e mais disciplinado.

Para entender a magnitude desta mudança, pense no papado após o tratado da Paz de Vestfália, em 1648. Muitas vezes os alunos têm dificuldade de citar um papa entre Leão X, nos anos 1500, e Pio IX.

Soberanos de Estados confessionais católicos, como França, Espanha e Áustria, não teriam tolerado figuras papais medievais poderosas como Gregório VII ou Inocêncio III.

Como dizia o historiador inglês Owen Chadwick, "em uma época agradável, quem mais conduziu a Igreja Católica Romana foram homens agradáveis".

Em 1773, os soberanos católicos forçaram um deles, o Papa Clemente XIV, a suprimir os jesuítas. Antes de 1773, vários Estados católicos já os tinham expulsado.

Sinal vivo do caráter transnacional da Igreja, os jesuítas cruzaram fronteiras nacionais com impunidade, muitas vezes para além do controle dos monarcas.

Em 1797, quando o Papa Pio VI se recusou a abdicar da posição de soberano dos Estados Pontifícios, Napoleão o depôs e levou-o para a França como prisioneiro, onde ele morreu em 1799.

Os franceses registraram sua morte dizendo que havia falecido o "cidadão Braschi, que exercia a profissão de pontífice". O papado tinha chegado ao fundo do poço. Como chegamos de 1799 a 1870, de um Papa que morre preso a um Papa ampla e solenemente celebrado como infalível?

Depois de 1648, a Cristandade só existia de forma rudimentar. A Revolução Francesa - e principalmente a Constituição Civil do 1790 -, marcou para o mundo o fim definitivo do período em que os Estados confessionais faziam sentido.

Se a lei reconhecia apenas o Estado e os cidadãos, onde ficava a Igreja? Na melhor das hipóteses, como a Concordata Napoleônica, existia nos prazeres do Estado.

O’Malley traça a ascensão do movimento popular, descrevendo o final da segunda década do século XIX como a "virada”.

A supressão do estado revolucionário, a expulsão das ordens religiosas e o confisco de propriedades da Igreja deixaram muitos católicos franceses "com fortes sentimentos de alienação, uma profunda sensação de perda".

De Maistre inseriu Du Pape neste campo de batalha religioso em 1819, uma forte defesa da aliança entre a coroa e o altar.

Um renascimento religioso romântico estava claramente em andamento. Ironicamente, o poder da imprensa moderna assegurou que a exaltação da autoridade papal rapidamente se espalhasse por toda a Europa.

À medida que o século avançava, em um cenário assustadoramente familiar, os editores de publicações ultramontanistas como o L'Univers ou o Civiltà cattolica tornaram-se árbitros de quem "era considerado realmente católico", impugnando a ortodoxia dos bispos que se atreviam a defender seus papéis como sucessores dos apóstolos e líderes de igrejas locais.

Na metade do século, Pio IX foi atacado por todos os lados. Para os Estados emergentes não confessionais, sua soberania temporal era um ponto de atrito.

Em 1849, a Assembleia Constitucional italiana retirou o poder que ele tinha sobre os Estados Pontifícios.

Já tendo sido expulso do palácio papal para o Vaticano antes, ele respondeu com agressividade e autoridade. Seguiu a definição de Imaculada Conceição, que antecipou Pastor aeternus, com o Sílabo e, em seguida, a convocação do Concílio.

A pauta do concílio, seus documentos preliminares e procedimentos advinham todos do Vaticano. Nos meses anteriores ao concílio, estourou uma "guerra na imprensa".

Sob o pseudônimo de Janus, Ignaz von Döllinger fez profundas objeções históricas a qualquer declaração sobre a infalibilidade papal em seu livro The Pope and the Council.

Mesmo que nenhuma declaração desse tipo tenha aparecido na pauta do Concílio, esta guerre de brochure garantiu que estivesse na mente de todos os bispos.

Em 1869, mais de 700 bispos vindo do mundo todo chegaram a Roma para o primeiro concílio em mais de 300 anos - e já sendo considerado o maior da história. Com o medo e a incerteza sobre o Reino da Itália e a iminente guerra entre a França e a Alemanha, a "grande questão" pairava como uma nuvem negra sobre a cabeça das pessoas.

No dia 9 de fevereiro, os bispos votaram a inclusão da infalibilidade nos princípios da Igreja. A discussão não incluiu debate, apenas discursos. Dos mais de 700 bispos presentes, havia no máximo 160 que se opunham à declaração.

Enquanto isso, os bispos trabalhavam em Dei filius. O'Malley reconhece a louvável tentativa de Dei filius de registrar nosso conhecimento de Deus em um mundo cada vez mais pautado pelo progresso científico e o racionalismo filosófico, mas centra-se no fato de o documento não ter conseguido lidar com o pensamento e conhecimento histórico, principalmente em relação à Escritura e à doutrina da Igreja.

O relato de O’Malley do debate sobre a infalibilidade é magistral.

Através de citações judiciosas, ele dá vida aos líderes antagonistas. Entre muitos outros, encontramos Pio IX, os arcebispos Henry Edward Manning e Victor Deschamps, adeptos da maioria, e os bispos Félix Dupanloup e Josip Juraj Strossmayer, do lado da minoria.

As descrições dos procedimentos e da configuração do concílio transmitem uma sensação do que os bispos viveram.

Estudar o Vaticano I é ser continuamente edificado pela coragem e integridade de muitos dos bispos da minoria, que lutaram, sem criar um cisma nem sendo desleal com o Papa, para cumprir conscienciosamente o cargo sagrado de professores e juízes da fé.

Margaret O'Gara capturou isso no estudo de 1988 sobre as minorias francesas chamado Triumph in Defeat. A minoria conseguiu minimizar reivindicações extremas para um magistério papal infalível separado e individual, bem como esclarecer o âmbito e as condições da declaração.

A recepção da Cúria das submissões qualificadas, bem como as respostas dos bispos alemães às objeções do Chanceler Otto von Bismarck e a carta de John Henry Newman ao primeiro ministro William Gladstone, ajudaram a evitar interpretações absolutistas da declaração.

A questão da relação do Papa com os bispos como professores e a autoridade deles no concílio apenas foram parcialmente esclarecidas no documento Lumen gentium do Vaticano II.

Para O’Malley, o Vaticano II é "até agora, o momento mais importante e de maior autoridade da história da recepção do Concílio Vaticano I".

No entanto, apesar do resgate do Vaticano II da colegialidade episcopal, a Igreja não tem nenhuma disposição constitucional para um possível desentendimento entre Papa e sensus fidei, como expressaram os bispos.

Isso nos deixa com a seguinte pergunta de O'Malley: "De que forma e até que ponto a Igreja Católica é Ultramontanista hoje?" Apesar de O’Malley não ter mencionado o Papa Francisco, ele vem imediatamente à mente.

Em muitos aspectos, é uma figura ultramontanista de proporções imponentes, é o coração simbólico da Igreja Católica. Ao mesmo tempo, está tentando usar sua autoridade para descentralizar o governo da Igreja, revigorar a colegialidade episcopal com "sinodalidade total" e talvez até mesmo incluir os leigos no processo de decisão da Igreja de alguma forma.

Este paradoxo é o legado do Ultramontanismo.

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