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16 Outubro 2018

Angelita Morales foi a mulher de maior confiança de Oscar Arnulfo Romero nos últimos oito anos de sua vida. Hoje ela vive esquecida com sua filha Claudia na periferia de San Salvador, em um casebre sem janelas cheio de goteiras.

A entrevista Gianni Beretta e Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 15-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Mujer de pueblo pequena, simples, delicada. Alguém pensou que ela, que nunca teve um passaporte em sua vida, deveria ser a primeira a estar na Praça de São Pedro no domingo, para a canonização de D. Romero.

Eis a entrevista.

Quando você começou a ajudar Óscar Arnulfo Romero?

Aos 18 anos depois de um curso de secretária. Ele era então bispo auxiliar. Ele me designou uma mesa do lado de fora do seu gabinete. Eu gerenciava a correspondência, o arquivo e até a agenda dos compromissos. Depois de algum tempo eles o nomearam bispo de Santiago de Maria, onde há plantações de café.

Eu arrumei minhas malas e o segui, sem nem consultar os meus pais. Logo monsenhor percebeu que, durante a colheita, os trabalhadores sazonais e suas famílias não tinham onde dormir. Então ele construiu longos abrigos perto da igreja, para que eles pudessem se proteger da intempérie. E disse aos donos das plantações que eles tinham que pagar mais.

O que aconteceu quando ele retornou a San Salvador como arcebispo?

As prisões e os assassinatos eram cada vez mais frequentes. Até que eles começaram a matar também seus sacerdotes. Romero abriu as portas do arcebispado e montou o Escritório de assistência jurídica. Eram longas filas de pessoas humildes que vinham fazer denúncias ou perguntar sobre o destino de seus familiares. Ele, com seus jovens advogados, ouvia a todos e tinha uma palavra de encorajamento. Em suas homilias, ele começou a dar voz àqueles que não podiam fazer nada. Para as pessoas pobres; para que houvesse um pouco de justiça. Até que começaram a chegar as ameaças por carta, por telefone, até mesmo pela televisão: "Você tem pouco a viver! Logo o mataremos!" Um dia perguntamos se ele não temia que pudessem realmente matá-lo. Ele respondeu: ‘Sim, mas eu recomendo uma coisa: se eles me matarem você não devem chorar’.

Você pode nos contar do que se lembra naquela manhã de 24 de março de 1980?

Era segunda-feira. Romero chegou pensativo à arquidiocese. Em sua homilia de domingo, ele havia dito que o mandamento de não matar devia ser respeitado; e que os soldados não podiam matar seus irmãos camponeses. Foi doce e afetuoso comigo. Eu havia preparado sua roupa de banho e a toalha porque ele iria para a praia com um grupo de sacerdotes. Depois ele me perguntou sobre a minha filha. "Cresce bem, é muito linda Monsenhor". E ele: "Traga ela na próxima semana para batizá-la". Foi a última vez que o vi.

E o dia do seu funeral?

Havia uma fila tão grande para a última despedida que minha mãe me disse ‘não chegaremos a tempo!’. O caixão estava do lado de fora. De repente, na esquina do Palácio Nacional, explodiu uma bomba. As pessoas começaram a correr para todos os lados. A missa foi interrompida. Os sacerdotes levaram o caixão do Monsenhor para dentro da catedral, onde ele foi enterrado às pressas.

Como era Monsenhor Romero?

Ele trabalhava muito e nunca se cansava. Era preciso e exigente. Uma só vez ele me repreendeu, amavelmente. Todas as tardes, às cinco horas, eu lhe levava um chá. Mas naquele dia em seu gabinete estava o embaixador dos EUA; e não ousei perturbar. No final da reunião, com o embaixador ainda presente, ele me perguntou: "E o chá?". Eu não sabia o que responder. E ele: ‘Você pode entrar no meu gabinete não importa com quem eu estiver reunido’.

O que você está levando em sua bolsa?

Uma camisa de Romero. Eu a trouxe pensando que talvez o Papa Francisco pudesse abençoá-la. Aliás, eu até que gostaria de deixá-la a ele como presente.

Nota de IHU On-Line: Angelita Morales teve a oportunidade de falar com o Papa Francisco na audiência de ontem, 15-10-2018, concedida aos peregrinos salvadorenhos presentes em Roma por ocasião da canonização de D. Romero.

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