Enquanto Romero torna-se santo, a direita volta ao poder

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 10 Março 2018

Na terça-feira, 06-03-2018, o papa Francisco assinou o decreto de canonização de Paulo VI, Giovanni Montini, e de Dom Oscar Arnulfo Romero. Passo para a santificação de atores importantes na transformação da Igreja Católica no século XX. Tudo isso ocorre em meio às eleições gerais em El Salvador, terra natal de Romero. Enquanto Roma torna santo o mártir salvadorenho, a Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional – FMLN entra em declínio com o resultado das urnas.

Paulo VI e Dom Oscar Romero atuaram em consonância a partir das reformas do Concílio Vaticano II. O papa Montini acompanhou durante o seu pontificado a Conferência de Medellín, Colômbia, em 1968, na qual a Igreja latino-americana afirmou sua opção preferencial pelos pobres. Dom Oscar Romero, por sua vez, foi atento à realidade salvadorenha, viveu um processo de conversão no seu pensamento, e agiu como arcebispo seguindo a linha de Paulo VI e sua exortação Evangelii Nuntiandi. A exortação provoca a Igreja para que assuma uma ação evangelizadora para a promoção humana. Essa ligação entre os beatos legou à Igreja, sobretudo latino-americana, um compromisso de vida dedicado à uma eclesiologia aberta e inserida junto aos pobres.

Paulo VI e Dom Oscar Romero em 1978 | Wikicommons

A morte de Dom Oscar Romero representou a continuidade do projeto de Igreja que defendia. O arcebispo assumiu protagonismo na luta pela democracia e justiça para os pobres durante a ditadura militar salvadorenha. Foi assassinado em 24 de março de 1980, na capital San Salvador, no despontar da guerra civil (1979-1992), enquanto celebrava uma missa, fazendo críticas ao governo. A Comissão da Verdade da ONU apurou que o mandante do assassinato foi o major Roberto D’Aubuisson, ex-deputado e presidente da Assembleia Constituinte (1982-1985) e fundador do partido Alianza Republicana Nacionalista – Arena (1981).

Uma de suas frases recordadas pelos fiéis, “Si me matan, resucitaré en mi pueblo", ilustrou-se pelo desenvolvimento de uma força de esquerda opositora ao regime militar. O assassinato do arcebispo foi crucial para a cisão da sociedade. No sepultamento de Dom Oscar Romero, em 30 de março de 1980, um novo conflito se desenvolveu na praça central de San Salvador, causando 40 mortes e 200 feridos. Em outubro do mesmo ano a FMLN foi formada com a composição de diferentes grupos políticos.

A partir de 1989, passando pelo cessar da guerra em 1992, a Arena esteve na presidência do país até 2008. Apenas em 2009, no contexto comum de ascensão das esquerdas latino-americanas que a FMLN assume o poder executivo nacional, com a eleição de Mauricio Funes. No pleito anterior o partido já assegurara 35 deputados, contra 32 da oposição. Desde então, a esquerda esteve compondo a maioria dos cargos na Assembleia e nos governos municipais.

Entretanto, em 2018, as eleições municipais e legislativas de 4 de março causaram uma nova virada na política salvadorenha. O escrutínio revelou uma nova supremacia da direita. Ao final da contagem, um total de 42,34% dos votos válidos (mais de 823 mil eleitores) foram destinados à Arena. O FMLN atingiu ao total 24,44% (475 mil votos). Deste modo, a direita assume 37 assentos na Assembleia, contra 23 da frente de esquerda.

A conjuntura política de El Salvador acompanha a ascensão dos governos de direita na América Latina. A FMLN garantiu a eleição presidencial do professor, e um dos fundadores do partido, Salvador Cerén em 2014 por 0,12% dos votos. As eleições presidenciais de 2019 tendem a sacramentar a nova ascensão da Arena. Enquanto em Roma ocorre a canonização de Dom Oscar Romero e seu importante mentor, Paulo VI, seus algozes retomam a maioria no poder de El Salvador, desta vez não pela força das armas, mas pelo apagamento de uma memória recente a contrapelo do humanismo construído a sangue, suor e fé.

XVIII SIMPÓSIO INTERNACIONAL IHU – A VIRADA PROFÉTICA DE FRANCISCO

Para aprofundamento da discussão sobre a Igreja latino-americana, o IHU está promovendo XVIII Simpósio Internacional, entre os dias 21 a 24 de maio de 2018, no Teatro Unisinos – Campus Porto Alegre. Entre os palestrantes que debaterão sobre o tema estão o Prof. Dr. Fernando Altemeyer, Prof. Dr. Ivanir Rampon e Prof. Dr. Geraldo Luiz De Mori. Acesse o site para conferir a programação completa.

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