Salmos, o canto de quem sabe agradecer. Artigo de Gianfranco Ravasi

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04 Outubro 2018

“Os Salmos são palavras de Deus em palavras de homens e mulheres, são escola de oração, mas também escola de humanidade: a humanidade concreta com todos os seus sentimentos, as suas fadigas, as suas perguntas e as suas buscas de sentido para ‘salvar a vida’. Nos Salmos, fala-se a um ‘tu’ que às vezes parece fazer silêncio, mas de cujo amor, de cuja presença, de cuja misericórdia, permanece-se firmemente convencido.”

Essa é a apresentação apaixonada do prior de Bose, Enzo Bianchi, que saúda “com alegria grande o comentário do Ir. Ludwig Monti, uma obra extraordinária, na qual a leitura hebraica, a cristã e a humana simplesmente são harmônicas entre si, tornando os Salmos muito próximos de nós”.

O livro I salmi: preghiera e vita [Os salmos: oração e vida], comentado pelo Ir. Monti – do qual antecipamos a introdução do cardeal Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura – está sendo publicado pelas edições Qiqajon.

A reflexão do cardeal Ravasi é publicada por Avvenire, 03-10-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quem escreve o prefácio de um livro tem em mãos idealmente dois fios. O primeiro é mais sutil e se desenrola em um trecho mais curto: é tecido com as cores da autobiografia, isto é, do vínculo com o autor. Fora de metáfora, evocam-se recordações pessoais, justificam-se consonâncias espirituais e culturais, move-se seguindo o registro subjetivo.

Sob essa luz, é espontâneo evocar para mim os encontros com Ludwig Monti, marcados pela minha estada, todos os anos, no horizonte sereno e fraterno da Comunidade de Bose. Foi justamente lá que, há muito tempo, recebi o anúncio da gestação e do nascimento da obra imponente que agora o leitor tem entre as mãos. Na realidade, como o próprio autor confessa, estas páginas florescem do terreno fértil de “20 anos de oração monástica, ritmada pelo hábito com o Saltério”.

O eco desse canto orante que subia como nuvens de incenso a Deus, para usar uma imagem bíblica (Sl 141, 2), havia atravessado não apenas o ouvido, os lábios, a mente de Ludwig, mas também o seu coração. de modo a ser quase um “baixo contínuo” do seu dia de monge e de exegeta.

Nesse ponto, o primeiro fio da amizade vai além da pura e simples consonância pessoal. De fato, é preciso acrescentar a sintonia de uma escolha comum: eu também vivi durante anos na companhia do Saltério, das suas 19.531 palavras hebraicas que constituem 6,5% de toda a Bíblia hebraica, da qual são o terceiro livro mais amplo, depois dos textos de Jeremias e do Gênesis.

Essa experiência pessoal paralela me leva espontaneamente para o segundo fio que sustenta esta introdução, um fio mais robusto e policromado que avança na obra em si, objetivamente considerada, na admirável arquitetura literária, teológica e espiritual do comentário de Monti. Aqui, os registros se multiplicam porque a abordagem aos 150 Salmos é necessariamente variada e compreende um verdadeiro arco-íris de iridescências.

Talvez o símbolo unitário mais límpido seja o evocado na introdução-testemunho de Ludwig e cunhado por São Jerônimo na sua primeira homilia sobre o Saltério. Comparado com um edifício ao qual se tem acesso graças a uma única chave, porém, exige que se tenha também uma chave para cada sala, ou seja, para cada composição poético-orante.

Certamente, para o portão central, que é o da inspiração divina, é necessária uma chave teológica única que Jerônimo identifica no Espírito Santo inspirador. Mas, para as salas individuais, são indispensáveis chaves diferentes, que abrem espaços extraordinários e cotidianos, públicos e privados. Há salas onde se aguarda um amanhecer depois de uma noite de vigília, outras em que se jaz doentes ou se sofre na alma; em algumas, festeja-se, em outras chega o eco da praça ou se ouve o rombo metálico das armas dos guerreiros.

Ora, a visita a esse edifício não pode ser realizada “em solitário” e sem um guia que, de vez em quando, ofereça as chaves de entrada. O edifício do Saltério, de fato, é cercado por um verdadeiro rio literário e espiritual de interpretações. Monti cria uma coreografia de referências e citações, através de uma cuidadosa seleção que revela o seu incessante estudo no silêncio das bibliotecas exegéticas e teológicas, mas também aqueles que ele chama de “invasões” nos territórios adjacentes da patrística, da liturgia, da teologia, da poesia, da antropologia.

Essa pesquisa mastodôntica – que poderia cair na emboscada da fria erudição – adquire, em vez disso, uma paradoxal leveza, a ponto de transformar o leitor em uma espécie de peregrino que é levado pela mão e, com facilidade, avança em uma galeria de intuições, de interpretações, de iluminações diversas.

A análise do léxico, dos paralelismos, dos símbolos, dos recursos dramáticos inerentes aos textos, as anatomias estruturais, o escrutínio das constelações metafóricas, a classificação dos chamados “gêneros literários” nunca são, nas páginas de Monti, apenas um exercício de técnica poética e crítica.

Ele possui a capacidade de oferecer esses dados ao leitor de modo natural, de modo que a beleza textual revelada em todo o seu fascínio denso de nuances leve-o à outra dimensão, a da contemplação espiritual e da oração.

Nesse ponto, confia-se às nossas mãos outra série de chaves, porque os Salmos são, sim, poesias, mas também orações, tehillîm, louvores a Deus, canto da alma. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, no seu Diário, anotava: “Com razão, os antigos diziam que rezar é respirar. Aqui se vê o quão tolo é querer falar de um ‘porquê’. Por que eu respiro? Porque senão eu morreria. Assim também com a oração”. Esse oxigênio que faz a alma respirar sustenta toda a história humana, e é por isso que os Salmos abrangem e sustentam todo o arco da existência.

Por isso, Ludwig, não raramente, nos seus comentários, interpela quem tem as suas páginas abertas na sua frente: “Caro leitor, cara leitora, dirijo-me diretamente a você...”, de modo a envolvê-lo não apenas no conhecimento do texto, mas também para envolvê-lo na oração, em consonância com o salmista.

Ora, nessa dimensão interpretativa espiritual, também há, porém, um alargamento coral de vozes que cantam e rezam em uníssono e em harmonia. O Saltério é, acima de tudo, a oração de todo o povo da eleição, Israel, ao longo de toda a sua história secular. Portanto, os Salmos ressoaram também nos lábios de Cristo, desde a sua adolescência até aquele anseio ofegante da invocação ao Pai na cruz. Abre-se, assim, mais um coro de vozes que ecoam sob as abóbadas das igrejas na liturgia cristã, ao qual se soma a oração pessoal do fiel individual que, nos Salmos, reflete a sua alma.

Mas tem mais. Um mérito significativo do comentário de Monti é tornar essas orações judaico-cristãs, essas composições de pessoas que creem, cujos olhos se entrelaçam com os do seu Senhor (como diz o Salmo 123), também uma oração do ser humano como tal.

Por isso, o livro de Monti poderia passar das suas mãos de monge e contemplativo não só ao fiel judeu ou cristão, mas também ao homem e à mulher de todos os credos ou sem credo religioso algum, que, porém, se interrogam sobre a sua essência humana profunda que se espelha precisamente nesses cânticos.

Talvez também poderá acontecer com eles, no fim, aquilo que outro filósofo, o alemão Martin Heidegger, afirmava com um jogo de palavras na sua língua: denken ist danken, “pensar é agradecer”.

O estudo apaixonado dos Salmos, portanto, pode levar progressivamente o fiel e também o não crente ao canto e ao louvor, o pensamento pode florescer em gratidão e esperança, a análise textual torna-se síntese espiritual, ou seja, um nó luminoso que mantém unida a dispersa multiplicidade da existência.

Ler e cantar os Salmos, então, não é apenas uma purificação da fé da pessoa que crê, como o autor nos recorda, citando uma advertência forte e severa de Lutero: “Quem começou a rezar o Saltério com seriedade e regularidade se despedirá bem cedo das outras ‘oraçõezinhas devotas’ fáceis e familiares e dirá: aqui não há a energia, a força, o calor e o fogo que eu encontro no Saltério”.

O comentário de Ludwig Monti, por fim, mereceria ao menos um aceno ao modo como ele usa as chaves para abrir cada sala ou salinha (há um Salmo, o 117, que é composto por apenas 16 palavras hebraicas!) desse edifício literário e espiritual que é o Saltério.

Acredito, porém, que esse será um exercício saboroso que cada leitor conduzirá pessoalmente, deixando-se guiar. Ludwig não hesita em se fazer companheiro de viagem, confessando mais de uma vez (penso, por exemplo, no Salmo 22 ou no 23, no 51 ou no 139) o seu “terror” a escalar alguns caminhos textuais eriçados de dificuldades não apenas exegéticas e não teme reconhecer, com o Dante do Purgatório (VIII, 35-36), que “o olhar meu se perdia, / como um poder confunde por excesso” [trad. de Italo Eugenio Mauro, Ed. 34, 1998].

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